Notícia

Vitruvius

Picasso: Outros Critérios

Publicado em 22 novembro 2012

A série tem a participação dos críticos, artistas, teóricos e historiadores da arte Lisa Florman, Charles Miller, Rosa Gabriella de Castro Gonçalves e Liliane Benetti

O evento conta também com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Eca-Usp, Comissão de Pesquisa da Eca-Usp, Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, Pró-Reitoria de Pesquisa, USP Conferências, Fapesp, Capes e Deharo Produções Artísticas.

Picasso: Outros critérios propõe o reexame das interpretações mais influentes que se produziram da obra do pintor, na esteira das quais se forjou o nome de Picasso como o grande mito da arte moderna. Pretende, igualmente, retomar a crítica renovada que a partir da década de 1970 revisitou o artista, preocupando-se com a revisão das categorias e critérios modernistas, mas também com resgatar uma obra que muitas vezes foi identificada aos preconceitos ideológicos que se denunciavam na história do modernismo. O reexame da crítica por certo não dispensa o confronto com a obra e com aspectos dela a respeito dos quais se cristalizaram interpretações canônicas. Dessa maneira, a necessidade de uma reperiodização da obra de Picasso e do Modernismo em geral, o assim chamado primitivismo que permeia essa obra, suas inflexões classicistas, a reviravolta que a abordagem de Leo Steinberg (de quem o seminário empresta o título) impôs a sua compreensão são algumas das questões a serem discutidas no seminário.

Por que tomar a obra de Picasso como o objeto central de discussão? São três os motivos principais. Em primeiro lugar, porque ela nos oferece uma experiência multifacetada da arte do século XX, constituindo uma espécie de recapitulação – quase sempre em tom de comentário, ou ainda à maneira de uma montagem – de toda a cultura figurativa clássica.

Em segundo, em razão da interferência precoce de elementos da cultura de massa nessa obra, que aparecem não apenas nas primeiras colagens e montagens do artista, do período de 1912-14, mas em toda a sua trajetória, como nos informam, por exemplo, os desenhos à maneira de graffiti, de desinibida feição pornográfica, que ele realizou em idade avançada, entre 1968 e 72. A convivência, nessa obra, de elementos da história da arte e outros mais prosaicos, a sem-cerimônia com que ela agrega a seu repertório materiais, em princípio, externos ao mundo da arte fazem pensar, enfim, em uma trajetória que revela interessantes pontos de contato com a de Marcel Duchamp.

Por último, trata-se de repor Picasso na agenda contemporânea, porque é na produção desse artista, em especial na pintura Les Demoiselles D’Avignon (1907), conforme apontou Leo Steinberg, que se revela um novo regime de visualidade, sob o qual se desfizeram as convenções tradicionais da pintura, se dissecaram metodicamente os pressupostos da tradição clássica da representação e se arrebatou o espectador “para dentro do quadro”.

Ao reunir críticos, historiadores e teóricos com trabalhos importantes publicados sobre temas ligados ao modernismo e ao legado ainda em aberto deste à cultura contemporânea, o seminário pretende propor ao público brasileiro novos critérios na avaliação da obra de Picasso e do modernismo em geral – com o que talvez possa contribuir, mesmo indiretamente, nos estudos sobre o modernismo brasileiro.

Yve-Alain Bois

É professor na Escola de Estudos Históricos no Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Escreveu sobre a arte do século XX, de Matisse, Picasso, Mondrian e Lissitzky à arte norte-americana pós-guerra e ao minimalismo. Uma coleção de seus ensaios, Pintura como modelo, foi publicada pela Martins Fontes em 2009. Coorganizou a retrospectiva de 1994-1995 de Piet Mondrian em Haia, Washington e Nova York. Em 1996, curou a exposição “L’informe, mode d’emploi” com Rosalind Krauss, no Centro Georges Pompidou, em Paris. Foi curador de “Matisse and Picasso: a gentle rivalry” (Museu de Arte Kimbell, Fort Worth, Texas, EUA), “Ellsworth Kelly: early drawings”, Fogg Art Museum (Cambridge, Massachusetts, EUA), “Ellsworth Kelly: tablet”, (Drawing Center, Nova York, e Musée des Beaux-Arts, Lausanne, 2002) e “Picasso Harlequin” (2008 a 2009, Vittoriano, Roma). Bois é um dos editores do jornal October e editor-contribuinte da Artforum. Entre outros projetos, atualmente trabalha em um estudo sobre as pinturas de Barnett Newman, bem como no catalogue raisonné das pinturas e esculturas de Ellsworth Kelly.

Sônia Salzstein

É Professora-Titular de História e Teoria da Arte junto ao Departamento de Artes Plásticas da Eca/Usp. É autora de estudos sobre arte moderna e contemporânea brasileira e sobre questões culturais ligadas à modernização em contextos periféricos, tema de sua tese de doutorado (2001, Dpto. de Filosofia da Fflch/Usp). Implantou, no Centro Cultural São Paulo, um espaço experimental dedicado à produção jovem e os projetos de arte contemporânea de que foi curadora envolveram publicações e a organização de cursos, bem como exposições e a instalação de obras em espaços públicos. Publicou uma série de estudos, entre os quais destacam-se: Alfredo Volpi Alfredo Volpi (2000), Franz Weissman (2001), Mira Schendel/No vazio do mundo (1997), Antonio Dias/O País inventado (2001) e Diálogos com Iberê Camargo ([org.], 2003). Na Editora Cosac Naify (2006-2010) coordenou uma série de publicações, entre elas o livro Outros critérios/confrontos com a arte do século XX, de Leo Steinberg e o livro Matisse/ Imaginação, erotismo, visão decorativa, que reúne textos de uma série de autores sobre o artista e em que publica um ensaio sobre o “tema” do “ateliê” na obra de Matisse.

Carlos Zílio

É artista plástico. Foi professor da Escola de Belas-Artes da UFRJ, onde atualmente é pesquisador associado. É autor de A querela do Brasil: a questão da identidade da arte brasileira. Participou das exposições “Opinião 66” e “Nova objetividade brasileira” (MAM, Rio de Janeiro, 1966 e 1967), das Bienais de São Paulo (1967, 1989 e 2010), de Paris (1977), do Mercosul (2005) e da exposição “Tropicália”, em museus de Chicago, Londres, Nova York, Rio de Janeiro (2005 - 2006). Entre as suas individuais podem ser citadas “Arte e política 1966-1976” (Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, 1996 - 1997), “Pinturas sobre papel” (Paço Imperial, Rio de Janeiro e Estação Pinacoteca, São Paulo, 2005 – 2006) e “Pinturas” (Centro Universitário Maria Antonia, São Paulo, e MAM, Rio de Janeiro, 2010-2011).

Christine Poggi

É professora no Departamento de História da Arte da Universidade da Pensilvânia. Escreveu In defiance of painting: cubism, futurism, and the invention of collage (1992) e Inventing futurism: The art and politics of artificial optimism (2009). Entre seus ensaios recentes destacam-se “Cubist Faktura”, em Picasso and Braque: the cubist experiment 1910-1912, editado por Eik Kahng (Kimbell Art Museum, 2011); “Picasso’s first constructed sculpture: a tale of two guitars”, em The Art Bulletin (June 2012); e “Inflexions of the times: newspaper in the Era of art”, em The shock of the news, editado por Judith Brodie (National Gallery of Art, 2012).

David Cottington

É professor de história da arte na Universidade de Kingston, Londres. O estudo do modernismo parisiense do início do século XX consistia, até pouco tempo, em seu principal interesse de pesquisa, e suas publicações incluem Cubism in the shadow of war: the avant-garde and politics in Paris 1905-1914 (Yale University Press, 1998) e Cubism and its histories (Manchester University Press, 2004). Os temas de sua pesquisa atual são as formações vanguardistas da Europa antes da Primeira Guerra Mundial (atualmente escreve outro livro sobre as vanguardas de Londres e Paris desse período) e o crescimento recente e contemporâneo das “indústrias criativas”. Seu livro The avant-garde: a very short introduction será publicado pela Oxford University Press em janeiro de 2013.

Rosa Gabriella de Castro Gonçalves

Doutorou-se em filosofia pela Universidade de São Paulo em 2006 e realizou estágio pós-doutoral na Universidade de Stanford em 2011. É professora de teoria da arte do Departamento de História da Arte e Pintura, do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal da Bahia.

Lisa Florman

É professora associada do Departamento de História da Arte na Universidade do Estado de Ohio, nos EUA. Seus principais interesses giram em torno do modernismo, da história da história da arte e, especialmente, da interseção entre esses temas. Seu primeiro livro, Myth and metamorphosis (MIT Press, 2000), examinou as gravuras classicizantes de Picasso dos anos 1930 à luz do surrealismo e das interpretações contemporâneas da Antiguidade clássica. Seu segundo livro, em fase de finalização, trata de Kandinsky, Hegel e Kojève, e explora as justificativas filosóficas por trás da virada na pintura em direção a não representação situada no início do século XX. Outras publicações importantes trataram de “Collage”, o ensaio de Clement Greenberg de 1959, e “The philosophical brothel”, obra seminal de Leo Steinberg sobre Les demoiselles d’Avignon.

Liliane Benetti

É doutoranda em história, teoria e crítica de arte pela Universidade de São Paulo, tendo sido contemplada com bolsa Capes/Pdse para um período de pesquisa no exterior. Integra o Centro de Pesquisas em Arte Brasileira do Departamento de Artes Plásticas da Eca/ Usp e dos grupos de crítica do Centro Cultural São Paulo e do Centro Universitário Maria Antonia. Entre suas publicações, destacam-se textos sobre artistas contemporâneos, notadamente Bruce Nauman, objeto central de sua tese de doutoramento. Tem graduação em artes plásticas pela Escola de Comunicações e Artes da USP (2007), além de graduação em direito pela Faculdade de Direito (1998) e mestrado em filosofia do direito (2002), ambos pela Universidade de São Paulo.

Charles Miller

É Professor-conferencista de História da Arte Moderna e Contemporânea na Universidade de Manchester. Pesquisa história e teoria das vanguardas e a historicidade da teoria (em particular da psicanálise e do pós-estruturalismo). Publicou artigos sobre Picasso, surrealismo, George Bataille e sobre a revista Documents, incluindo “Rotten Sun” (2011). Foi premiado com o Phillips Book Prize por seu texto Radical Picasso: Surrealism and the Theory of the Avant-Garde (2012). Outros projetos em andamento focalizam a sexualidade do surrealismo, a relação de Picasso com o conceito de gênio, a embriaguez nos escritos de Georges Bataille e a interpretação das alegorias nas marcas de consumo. Em um livro a ser publicado, provisoriamente intitulado The Archaeological Impulse, aborda as problemáticas do historicismo e do anacronismo no modernismo e no pós-modernismo.

Inscrições apenas pelo site.

Programação

26.11
16h Plasticidade e esgotamento da forma em Picasso - Sônia Salzstein
19h O palco à beira-mar: Picasso e a mitologia clássica - Christine Poggi

27.11
16h A cozinha  - Carlos Zílio
19h A aversão de Pablo Picasso à arte abstrata - Yve-Alain Bois

28.11
16h O cubismo como método - Rosa Gabriella de Castro Gonçalves
19h Picasso e/na vanguarda: profissionalização e ideologia - David Cottington

29.11
16h Tradição, inovação e sobredeterminação na obra de Picasso - Lisa Florman
19h O corpo e o grotesco nas obras de Picasso e Bruce Nauman - Liliane Benetti

30.11
16h Arqueologia de Picasso - Charles Miller

São Paulo