Notícia

Exame

Ph.D. em negócios

Publicado em 01 agosto 2007

Por Ricardo Cesar

Num país em que a pesquisa é marginalizada, o biólogo e empreendedor Fernando Reinach construiu empresas promissoras baseadas em descobertas científicas


Se fosse possível resumir numa única palavra a trajetória de Fernando Reinach, provavelmente o melhor termo a ser empregado seria "exceção". O atual diretor executivo da Votorantim Novos Negócios, braço do grupo dos Ermírio de Moraes que investe em áreas consideradas de vanguarda, como genética, sempre foi um ponto fora da curva. Adolescente, prestou vestibular para medicina e biologia. Passou em ambos. Escolheu biologia. Em 1986, com apenas 30 anos, foi admitido na Universidade de São Paulo como professor-doutor. Em 1991, tornou-se um dos mais jovens donos de uma cadeira da história da instituição. No início de 2007, pediu demissão da universidade, algo que quase ninguém que conquista o conforto e o prestígio de ser professor titular da USP faz. Cientista brilhante que passou a juventude enfurnado em laboratórios, Reinach também desenvolveu visão de negócios e tino empreendedor. Fundou duas empresas e hoje preside outra. Ele ainda transita com desenvoltura na administração pública: foi secretário do Ministério da Ciência e Tecnologia durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Por fim, consegue criar negócios baseados em descobertas científicas num país em que a propriedade intelectual não é respeitada e as verbas para pesquisa, tanto na área privada como na pública, são ínfimas.

Fernando Reinach tem a simplicidade de quem não precisa -- ou não tem paciência para -- dar a impressão de ser mais do que é. Gravata é um adereço evitado ao máximo. Os cartões de visita ficam freqüentemente esquecidos na gaveta. Durante as conversas, às vezes seu olhar se perde em algum ponto distante. Faz-se um silêncio que leva a crer que o assunto em discussão está encerrado. Não está. O intervalo serve para resgatar alguma história que ilustra seu ponto de vista ou para formular um raciocínio acabado, com começo, meio e fim. E, quando Reinach fala, as pessoas geralmente ouvem com atenção. Afinal, sua voz é determinante para que a Votorantim defina onde aplicará os 300 milhões de dólares de seu fundo de capital de risco. Convencê-lo não é fácil: dos cerca de 1 500 projetos que já passaram por suas mãos em busca de financiamento, apenas oito foram aprovados.


Uma vida dedicada à inovação

Fernando Reinach conseguiu se destacar como cientista e empreendedor

1984

Ph.D. pela escola de medicina da Universidade Cornell

1986

Com apenas 30 anos, é admitido como professor-doutor na USP

1990

Funda a Genomic, empresa especializada em testes de DNA

1991

Assume a posição de professor titular da USP

1999

Nomeado secretário do Ministério da Ciência e Tecnologia

Nomeado presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança

Funda a empresa de data center .comDominio

2000

Como um dos líderes do projeto genoma brasileiro, publica o seqüenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa 

2001

Entra para a Votorantim Novos Negócios e ajuda a definir o escopo de investimento do fundo

Reinach também se faz ouvir pelo que já conquistou como cientista. Em meados dos anos 90, quando foi deflagrada a corrida pelo seqüenciamento de genomas -- o trabalho de decifrar todo o código de genes de organismos vivos --, o Brasil estava atrasado demais para entrar no páreo. Foi durante uma conversa telefônica com José Fernando Perez, que dirigia a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que Reinach externou sua preocupação com o fato de o país ficar de fora de um dos campos mais promissores da ciência contemporânea. Esse foi o embrião do que seria conhecido como o projeto genoma brasileiro. Reinach defendeu que o país deveria mapear os genes de alguma bactéria que atacasse a agricultura -- de preferência uma cultura economicamente relevante. Noves fora, a escolha recaiu sobre a bactéria Xylella fastidiosa, que ataca laranjais e causa um prejuízo estimado em até 100 milhões de dólares por ano aos produtores nacionais. A Fapesp não só aprovou a iniciativa como garantiu o maior financiamento de sua história: 15 milhões de dólares. O trabalho foi dividido em 30 equipes, que atuavam paralelamente. Dessa forma, o projeto avançou rapidamente e terminou em 18 meses. Quando o seqüenciamento da Xylella foi concluído, em 2000, não havia muito mais do que meia dúzia de genomas mapeados em todo o planeta. O estudo foi tema de capa da revista Nature, talvez a mais prestigiada publicação científica do mundo.

Reinach sabe que essa proeminência brasileira num campo científico de ponta foi mais uma das exceções que insistem em pontuar sua vida. "Nos Estados Unidos, as pessoas têm o entendimento de que se cria riqueza com pesquisa científica", diz. "Aqui, isso não acontece." Mas ele também acha que o principal vilão dessa história é algo mais complexo que a simples anemia de investimentos: trata-se de uma questão cultural. Reinach aponta um "ranço contra o capitalismo" no meio acadêmico nacional. Já as companhias brasileiras parecem achar que inovação não é algo que lhes diz respeito. Quando o projeto do genoma da Xylella foi publicado na internet, Reinach monitorou os downloads. Diversas empresas americanas baixaram os dados para entender o trabalho feito pelos brasileiros. Nenhuma companhia nacional fez o mesmo.

Sua vivência no exterior explica por que Reinach aprendeu a ver a ciência de uma ótica pouco comum no Brasil. O cientista fez doutorado na escola de medicina da Universidade Cornell e pós-doutorado no célebre Laboratório de Biologia Molecular de Cambridge, na Inglaterra, o mesmo que teve em seus quadros James Watson e Francis Crick. Ambos receberam o Prêmio Nobel por seu trabalho sobre a estrutura do DNA, que abriu o caminho para a biotecnologia moderna. Foi apenas em 1990, quando Reinach já era professor da USP, que seu gene empreendedor começou a se manifestar. Ele se juntou ao irmão, Marcos, ao pesquisador Manoel de Sá Benevides e a Martin Whittle, um de seus antigos alunos, para fundar a Genomic, empresa especializada em testes de DNA. Alguma exceção tinha de bater à porta -- e bateu mesmo. Um dos testes que a Genomic fez, por determinação da Justiça, foi para verificar a paternidade de Sandra, que lutava para ser reconhecida como filha de Pelé. O barulho na mídia foi gigantesco e a Genomic tornou-se uma marca conhecida em todo o país. Mas foi um segundo negócio, que curiosamente nada tinha a ver com biologia, que se mostrou decisivo para transformar Reinach em um dos cientistas-empresários mais bem-sucedidos do país.

No final dos anos 90, em plena bolha da internet, ele fundou a .comDominio, um data center e serviço de hospedagem de websites. A empresa atraiu a atenção da Votorantim Novos Negócios. Foi as  sim que Paulo Henrique de Oliveira Santos, presidente do fundo, aproximou-se de Reinach. Santos ficou surpreso por encontrar alguém que consegue entender tanto de ciência como de negócios -- qualidades que raramente se encontram na mesma pessoa -- e convidou-o a ingressar no braço de capital de risco da Votorantim. Uma vez lá dentro, Reinach rapidamente direcionou recursos para dois projetos que conhecia bem. A primeira a receber um aporte foi a Scylla, companhia de bioinformática formada pela equipe que havia participado do projeto genoma brasileiro. Em seguida, a Votorantim fez um aporte de 11 milhões de dólares na Alellyx. O nome nada mais é do que Xylella escrito de trás para a frente -- e, sim, a empresa é especializada em melhoria genética de culturas importantes no Brasil, como cana-de-açúcar, eucalipto e laranja, criando plantas transgênicas. Depois vieram outras iniciativas, como a Canavialis, que trabalha no desenvolvimento de variedades de cana-de-açúcar resistentes a doenças ou mais produtivas por meio de seleção e cruzamento tradicional.

Hoje, Reinach acumula o cargo de diretor da Votorantim Novos Negócios com a presidência da Alellyx, o que o coloca na "incomum posição de decidir quanto investir na empresa da qual sou o principal executivo". Claro que não é tão simples assim. Qualquer aporte tem de ser justificado e submetido a um conselho da Votorantim, que, afinal, é para quem o cientista trabalha atualmente. Ainda assim, não deixa de ser mais uma curiosa exceção numa carreira que, definitivamente, é um ponto fora da curva num país que inova tão pouco.