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A Gazeta (ES)

"PF brasileiro" tem calorias em excesso

Publicado em 12 janeiro 2019

Uma pesquisa realizada em Brasil, China, Finlândia, Índia, Gana e também nos Estados Unidos revelou que 94% das refeições vendidas em restaurantes populares contêm mais quilocalorias do que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Quando se trata de abusar do risco de obesidade, estamos juntos. A exceção é a China, cujas refeições têm o tamanho apropriado.

A epidemia causa o efeito cascata de aumento de casos de diabetes do tipo 2, doenças cardiovasculares e câncer. Por restaurantes populares entenda-se aqueles que vendem comida a quilo, pratos feitos, marmitex e sua versão gourmetizada, o prato executivo, explica a coordenadora da pesquisa no Brasil Vivian Suen, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Realizada com o apoio da Fapesp, a pesquisa mereceu destaque na edição desta semana do prestigioso periódico “British Medical Journal”. O estudo analisou o fast-food, e esse não surpreendeu. Além do pouco valor nutritivo, engorda. Mas a chamada alimentação balanceada do brasileiro de equilibrada nada tem.

Não estamos só comendo pior, mas exageradamente. Muitas vezes um prato considerado saudável pode engordar mais do que o de um fast-food, mesmo tendo valor nutricional maior. A quantidade calórica do prato típico — arroz, feijão, carne e salada — é 33% maior do que a do fast-food, diz Suen. Isso acontece porque a salada ganha a companhia de generosas porções de carboidratos, sejam eles batata, aipim, massas ou farofa. O ovo se junta à carne e esta, de preferência, ainda ganha queijo. Tudo junto e misturado.

BARRIGA

É na balança que os países se igualam. Seja frango, bode ou carneiro, o destino é a gordura em forma de pneu na barriga, a dita circunferência abdominal que os médicos medem para aferir riscos para o coração. O brasileiríssimo arroz, feijão, frango, mandioca, salada e pão (841 gramas e 1.656 quilocalorias) corre junto do fufu com carne de bode e sopa (1.105 gramas e 1.151 kcal), um clássico de Gana. O biryani de carneiro (1.012 gramas e 1.463 kcal), comum por toda a Índia, é outra companhia de peso.

Uma pessoa adulta deve ingerir por dia de 2 mil (mulheres) a 2.500 quilocalorias (homens), segundo a OMS. Mas os pratos servidos pelos restaurantes têm, em média, mil quilocalorias. Só no almoço se ingere quase todo o necessário por dia, frisa a pesquisadora. Na verdade, a OMS é até generosa com a ingestão calórica. Para não engordar, as pessoas deveriam ingerir entre 1.500 a 1.800 quilocalorias diárias, observa Suen.

Segundo ela, um almoço normalmente implica de 70% a 120% das necessidades calóricas diárias para uma mulher sedentária, cerca de 2 mil quilocalorias. O estudo no BMJ analisou o teor calórico de 223 amostras de refeições populares de 111 refeições de restaurantes de Ribeirão Perto (Brasil), Pequim (China), Kuopio (Finlândia), Acra (Gana), Bangalore (Índia).

O resultado dos excessos se vê na balança. Hoje, 54% dos brasileiros estão acima do peso (leia mais no texto ao lado). Vivian Suen e seus colegas estão convencidos de que uma parcela da população confunde fome com vontade de comer. E isso tem explicação.