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"Petrobras perdeu uma janela de oportunidade que não se abrirá de novo", diz professor

Publicado em 28 janeiro 2016

Por Marcos Mortari

SÃO PAULO - Os baixos preços do petróleo no mercado internacional são o ingrediente que faltava para a "tempestade perfeita" da Petrobras (PETR3; PETR4), hoje imersa em um cenário de elevado nível de endividamento, perda de grau de investimento e no foco de um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil. Como agravante para a atual situação, imagine um jogador experiente que, embaixo da trave, erra o quique da bola e chuta para longe do gol as apostas de vitória no jogo. Foi o que ocorreu com a estatal brasileira no caso do pré-sal, na visão do professor emérito da USP (Universidade de São Paulo) e presidente da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) José Goldemberg. Para ele, não haverá novas oportunidades do mesmo nível.

"A Petrobras perdeu uma janela de oportunidade, que era produzir petróleo [no pré-sal de maneira incisiva] a partir de 2005 até 2010/2012. Mas ela acabou ficando sobrecarregada em dívidas e simplesmente não tinha condições de conduzir a exploração em todas as frentes ao mesmo tempo, ainda mais com exigência mínima de conteúdo nacional", afirmou o especialista, que carrega no currículo passagens pela presidência da CESP (CESP6), pelas secretarias de Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente da presidência da República e pelo Ministério da Educação.

Para o especialista, prejudicaram na produtividade da área sobretudo a quantidade de regras estabelecidas, a prioridade ao conteúdo nacional para a elaboração de equipamentos capazes de serem úteis na complexa operação e o regime de partilha -- que obriga a estatal a participar em ao menos 30% na exploração de cada campo do pré-sal --, incompatível com o elevado nível de alavancagem da empresa. "O que deveria ter sido feito em 2005, quando esses grandes depósitos do pré-sal foram obtidos, seria um amplo programa de atrair as empresas estrangeiras para explorar junto com a Petrobras, para produzir petróleo logo", analisou o professor em conversa por telefone.

Agora, uma série de mudanças estruturais faz com que Goldemberg esteja pessimista quanto ao aproveitamento das reservas de petróleo descobertas há uma década. Para ele, o mundo não precisa de tamanho volume de oferta da commodity, na medida em que os países desenvolvidos reduzem seu consumo e os emergentes não conseguem compensar a correção em um momento em que a China também desacelera. Além disso, o professor lembra de avanços recentes para o uso de fontes de energia sustentáveis, caso dos acordos recentes firmados na COP-21, realizada em Paris. "Por causa da mudança estrutural, a janela [de oportunidade da Petrobras] não vai se abrir de novo", diagnosticou. Nessa linha de raciocínio, a questão conjuntural geopolítica influencia nos preços, mas sua resolução seria incapaz de promover a recuperação do mercado petrolífero.

Com a mudança em toda a estrutura do setor, as expectativas são uma adequação das empresas que nele atuam. No caso da estatal brasileira, o processo seria ainda mais drástico, tendo em vista o atual momento de esfacelamento. "A Petrobras deveria livrar-se de tudo que é possível se livrar para reduzir o endividamento e se concentrar na produção; abrir mão do conteúdo nacional e tentar atrair empresas internacionais que dividam os custos e riscos com ela", recomendou. Quando questionado se a estatal deveria se esforçar em deixar de ser uma empresa petrolífera para se transformar em uma companhia de energia, Goldemberg respondeu: "eu concordo, mas ela deveria ter feito isso quando era rica. O Brasil deveria ter feito isso em 2005". Sobre o resultado parcial dessa fase de exploração do pré-sal, concluiu: "O pré-sal não foi uma ilusão, foi uma oportunidade perdida".