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Brasil Econômico

Petrobras e Vale vão à faculdade atrás de mão de obra

Publicado em 18 janeiro 2011

O Brasil ainda ensaia uma sinergia consistente entre universidades e empresas, em parte devido à falta de canais de comunicação. Para contornar o impasse, tendo em vista o déficit de mão de obra capacitada, a iniciativa privada começa a investir em infraestrutura de pesquisa — a exemplo de Alemanha e Estados Unidos, modelos no assunto empresa-escola.

Por aqui, essa aproximação parte da convicção de que o Estado não conseguirá formar sozinho os técnicos necessários. `Por mais que o governo invista, o Brasil não consegue formar todos os profissionais que precisa. Podemos cruzar os braços ou ser proativos`, diz o diretor de tecnologia da Vale, Luiz Mello.

A constatação levou à elaboração de um programa de bolsas de estudos para mestrandos e doutorandos. O projeto está orçado em R$ 120 milhões, com verba de fundações de amparo a pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), Pará (Fapespa) e São Paulo (Fapesp). O montante financiará 85 projetos selecionados entre 276 propostas.

A iniciativa integra o plano estratégico da Vale de desenvolver novos processos para mineração, sustentabilidade e energia. O aporte soma-se ao projeto maior da mineradora, que reserva outros US$ 300 milhões para construir três institutos de tecnologia.

Um dos focos será pesquisar o uso de novas fontes de energia, a partir do movimento das marés, eólica ou nuclear. Isto porque a Vale é a maior consumidora privada de energia do país, tendo atingido 12,4 mil terawatts (TWh) em 2009 — o suficiente para abastecer por um ano uma cidade com 4,5 milhões de habitantes. `A Vale considera a possibilidade de uma expansão no setor de energia, um mercado muito interessante no qual queremos nos posicionar melhor`, diz Mello.

O próximo passo será elaborar cursos de pós-graduação para mestres e doutores. A empresa discute o modelo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação. Para, em seguida, desenvolvê-los nos núcleos do Instituto de Tecnologia Vale (ITV). `Pretendemos dar a entrada na Capes ainda neste ano`, afirma Mello.

Outras iniciativas

A Petrobras também atua junto a universidades para formulação de grades curriculares de cursos de pós-graduação — além de tocar 50 linhas de estudos coordenadas pelo Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), instalado na Ilha do Fundão (RJ). A petrolífera mantém ainda o Redes Temáticas, projeto focado em criar infraestrutura laboratorial, capacitar pesquisadores e tocar pesquisas. `A maior parte dos investimentos em infraestrutura foi concluída. O nosso foco agora é desenvolver recursos humanos`, diz Carlos Tadeu Costa Fraga, gerente-executivo do Cenpes.

Os recursos partem de resolução de 2006 da Agência Nacional de Petróleo (ANP), que estabeleceu o repasse de 1% do faturamento com exploração para pesquisa e desenvolvimento (P&D), sendo obrigatória a aplicação de 50% fora da Petrobas. A medida deve injetar R$ 400 milhões anuais em projetos externos.

A resolução da ANP patrocionou a ampliação do Cenpes, concluída em 2010, transformando o centro no quarto maior núcleo de inovação do globo. O local ganha agora projeção maior com a instalação de General Eletric, Halliburton, Tenaris Confab, FMC Technologies, Baker Hughes e Schlumberger. Essas empresas migram para a Ilha do Fundão atraídas pelo pré-sal.

Esse mesmo interesse norteia a decisão da Usiminas de criar no Rio uma divisão de seu centro tecnológico de Ipatinga (MG). A siderúrgica coloca R$ 29 milhões no núcleo, em parceria com a UFRJ, para desenvolver aço para as indústrias naval, óleo e gás. `Será um centro focado em engenharia de aplicação. Ou seja, novas formas de aplicar o aço nesses segmentos`, diz o diretor de inovação Darcton Damião.

O passo seguinte será atrair pesquisadores para projetos de inovação aberta. A empresa negocia o repasse de verbas públicas para financiar bolsas de estudos em metalurgia avançada. `Queremos fazer uma captação externa maior. Até 2009, a Usiminas usou recursos próprios para pesquisa`, diz o diretor.

INVESTIMENTOS

1. Vale recebe R$ 120 milhões para fomentar pesquisas

A mineradora coordena 85 projetos em mineração, energia, ecoeficiência, biodiversidade e processos siderúrgicos. Ela conta com R$ 120 milhões para bolsas de estudos repassados pelas Fapemig, Fapesp e Fapespa.

2. Petrobras destina 1% da receita para pesquisa

O repasse foi definido em 2006 pela ANP. A média anual investida em pesquisa e desenvolvimento atinge R$ 800 milhões. Metade do montante tem de ser aplicado fora da petrolífera, o que turbina o projeto Redes Temáticas em conjunto com universidades.

3.Usiminas abre espaço para atrair novos especialistas

A Usiminas foi a empresa com o maior número de patentes conferidas pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), com 399 entre 2005 e 2009. O número reflete a estratégia adotada em 2007, quando criou uma divisão de inovação. Os aportes em pesquisa saltaram de R$ 7 milhões, em 2008; para R$ 28,9 milhões, em 2010. O avanço, porém, não foi acompanhado por todo setor privado. Dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, mostram retração do investimento privado em pesquisa em relação ao PIB. Em 2009, o índice era de 0,74%. Em 2010, caiu para 0,59%.