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Folha da Região (Araçatuba, SP)

Pesquisas terão incentivo do governo

Publicado em 22 julho 2013

Por Alana Granda

Com recursos não reembolsáveis do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) no valor de R$ 15,2 milhões, oriundos do BNDES Fundo Tecnológico (Funtec), o Instituto Butantan dará seguimento aos estudos que buscam o desenvolvimento de um medicamento biotecnológico para o tratamento de câncer.

Segundo informou o banco, por meio de sua assessoria de imprensa, o medicamento é inovador no mundo e se baseia em estudos feitos a partir da genética do carrapato Amblyoma cajannense, que detectaram a existência de uma proteína na saliva do parasita que tem ação anticoagulante, com potencial anticancerígeno.

A coordenadora do estudo no Instituto Butantan, doutora Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, disse, por e-mail, à Agência Brasil que toda a pesquisa básica para a descoberta da molécula, entendimento do mecanismo de ação e obtenção dessa mesma molécula em escala laboratorial, já foi feita no Laboratório de Bioquímica e Biofísica do instituto.

A operação contou com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). A entidade contribuiu ainda para as etapas que resultam na execução de testes, bem como para a implantação de infraestrutura.

SEGURANÇA

Os recursos do BNDES permitirão que a molécula seja obtida por meio de protocolos escalonáveis. Ana Marisa destacou que esses protocolos “permitirão tanto o desenvolvimento de todos os testes de segurança farmacológica, exigidos pelos órgãos regulatórios, como o desenvolvimento de tecnologia e capacitação de pessoal para a transferência do processo à empresa parceira neste projeto (União Química) que produzirá o medicamento”. Trata-se, segundo a pesquisadora, de um financiamento para etapas “muito importantes e críticas para o desenvolvimento de uma molécula, caracterizado como inovação radical”.

As experiências conduzidas até agora resultaram na obtenção da molécula na forma recombinante, ressaltou a coordenadora da pesquisa. “Conhecemos seu mecanismo de ação tanto in vitro como in vivo, isto é, em pequenos animais, sabemos o alvo molecular e, inclusive, entendemos que se trata de uma molécula seletiva para células tumorais. Os estudos até agora demonstram baixíssima toxicidade”. Acrescentou que a etapa ora em curso objetiva obter material por protocolos escalonáveis, para complementar os testes de segurança farmacológica e a transferência de tecnologia.

MELANOMA

Indagada sobre os tipos de cânceres que poderão ser tratados com o medicamento, Ana Marisa informou que as primeiras experiências em camundongos mostraram que houve regressão de células tumorais e tumores do tipo melanoma, entre os quais se incluem tumores de pele, rins, pâncreas e mama. Observou, entretanto, que somente após os resultados dos testes toxicológicos, que determinarão a segurança de tratamento para seres humanos, é que se poderá prever o tratamento.

A União Química Farmacêutica Nacional, parceira do Instituto Butantan no projeto, deverá desenvolver as fases de produção industrial e fases clínicas, em caso de sucesso das pesquisas. A União Química é co-titular da patente e detém o licenciamento para comercialização, informou a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa. Outro parceiro é o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), que participará do protocolo de produção.

Ana Marisa disse, ainda, que a molécula já tem patente concedida em diversos países, entre os quais os Estados Unidos, o Japão, a Austrália e a China, além do bloco da União Europeia.

Oncologista avalia que é cedo para dizer se remédio é eficaz

O coordenador de Pesquisa Clínica do Inca (Instituto Nacional de Câncer), do Ministério da Saúde, Carlos Gil Ferreira, avalia que ainda é cedo, do ponto de vista da pesquisa, dizer se os estudos vão resultar ou não em uma nova terapia. “O conceito é interessante, a pesquisa até agora vem sendo conduzida de maneira séria, mas a gente vai ter que aguardar os próximos resultados para entender o potencial que isso tem”, disse.

O oncologista admitiu que no caso do câncer de pâncreas, em especial, que não tem tratamento clínico, a descoberta de um novo medicamento seria acolhida com satisfação. “Claro, um tipo de câncer no qual a gente não consegue avançar muito”. Trata-se de um câncer letal que, em geral, responde mal às terapias feitas por meio de medicamentos, como quimioterapia e radioterapia. Não há nenhum estudo no Inca sobre câncer de pâncreas, informou.

Para Ferreira, o medicamento “é algo que merece ser investigado”. Observou, por outro lado, que embora as experiências efetuadas com ratos tenham obtido sucesso, existe uma distância muito grande entre o modelo animal e o humano. “Muitas terapias, às vezes, são fantásticas em pequenos roedores, mas quando se transfere isso para o humano, não funciona”.

Ele destacou, porém, que o distanciamento não é motivo para não se seguir em frente.

“Os resultados até agora são consistentes e eles merecem estímulos, sim”. Ferreira enfatizou que qualquer estudo que venha a auxiliar no tratamento de câncer de pâncreas “é muito bem-vindo”.

De acordo com dados do Inca, as mortes causadas por câncer de pâncreas no Brasil somaram 7.440 casos, em 2010. De difícil detecção, esse tipo de câncer apresenta alta taxa de mortalidade, em função do diagnóstico tardio e de seu comportamento agressivo. No Brasil, ele responde por cerca de 2% de todos os tipos de câncer diagnosticados e por 4% do total de mortes por essa doença.

O oncologista do Inca disse que o estímulo do BNDES a esse tipo de iniciativa é “super bem-vindo”. Segundo ele, o Brasil só vai alcançar o desenvolvimento em termos de drogas novas, com o uso de tecnologias avançadas, “com incentivo de instituições como o BNDES e a Finep (Agência Brasileira da Inovação)”, antiga Financiadora de Estudos e Projetos.

Rio de Janeiro

Agência Brasil