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Pesquisas genuinamente nacional buscam combate às pragas

Publicado em 03 fevereiro 2007

Por Thiago Romero

Agência Fapesp 

Desde meados da década de 1990, a Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq), em Piracicaba, desenvolve substâncias capazes de atrair e capturar insetos, de modo a garantir maior produtividade agrícola. Desde então, com a expansão dos estudos nessa área do conhecimento, a instituição muitas vezes era obrigada a realizar experimentos científicos em parceria com outros países devido à falta de um espaço exclusivo para esse tipo de pesquisa no país.

Para suprir essa forte demanda nasceu o Laboratório de Comportamento de Insetos, inaugurado no final do ano passado pelo departamento de Entomologia, Fitopatologia e Zoologia Animal (LEF) da Esalq. Segundo seu coordenador, José Maurício Simões Bento, o laboratório seguirá duas linhas de pesquisa para o manejo de pragas na agricultura: o estudo dos feromônios, substâncias químicas utilizadas para a comunicação entre insetos da mesma espécie, e das substâncias voláteis de plantas, usadas para a comunicação entre indivíduos de espécies diferentes.

"O Brasil tem boa tradição no desenvolvimento de feromônios, devido principalmente às parcerias com institutos de pesquisa internacionais", disse Bento. "Esse tipo de pesquisa possibilita o monitoramento das pragas para o uso racional dos inseticidas, permitindo, em alguns casos, a eliminação total dessas substâncias tóxicas nas plantações", explica.

Segundo ele, dois exemplos que vêm registrando resultados satisfatórios na prática agrícola nacional tiveram origem na sintetização dos feromônios de duas importantes pragas que afetam os citros: o minador-dos-citros (Phyllocnistis citrella) e o bicho-furão (Ecdytolopha aurantiana).

No caso do bicho-furão, pesquisadores da Esalq criaram há pouco mais de quatro anos, em parceria com professores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, e da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, uma armadilha que contém uma pastilha impregnada pelo feromônio emitido pelas fêmeas dos insetos. Atraídos pelo odor, os machos morrem ao ficar grudados em uma membrana adesiva da armadilha, que é capaz de quantificar a presença dos insetos e indicar o momento exato e o lugar onde o inseticida deve ser aplicado. O pesquisador afirma que o único problema desse tipo de tecnologia, desenvolvida em parceria com institutos de pesquisa internacionais, é a obtenção de patentes.

"Em tese, a autoria das patentes deve ser dividida entre os parceiros. Mas, em alguns casos, estamos correndo o risco dela ser concedida com exclusividade ao parceiro do exterior", aponta. Para ele, a estrutura física criada no laboratório da Esalq permitirá o desenvolvimento de todas as etapas da pesquisa em território nacional, "com a vantagem de que as patentes geradas serão 100% nacionalizadas e ficarão disponíveis para o avanço da pesquisa brasileira".

Produção focada nos voláteis

O Laboratório de Comportamento de Insetos da Esalq, que custou R$ 250 mil e funciona em uma área de 180 metros quadrados, dará especial atenção ao estudo de substâncias voláteis de plantas. "Essa é uma área extremamente recente, que ainda não é dominada pelos grupos de pesquisa no Brasil", justifica Bento.

Ao serem atacadas por uma praga agrícola, como uma lagarta, as plantas produzem substâncias voláteis e as liberam no meio ambiente para atrair o inimigo natural da praga, que são os parasitóides. "Trata-se de uma defesa natural que as plantas adquiriram ao longo do processo evolutivo. Com os sinais químicos, os parasitóides são atraídos para a região onde está a planta para fazer o controle biológico das pragas", explica.

De acordo com Bento, os voláteis de plantas são substâncias extremamente recentes do ponto de vista científico, com pouco mais de 10 anos de estudos. "Apesar de ainda não terem uma aplicação prática, institutos de pesquisa de todo o mundo estão investindo milhões de dólares com grandes perspectivas de que essas substâncias também sejam sintetizadas e usadas em armadilhas, a exemplo dos feromônios", prevê.

Entre os insetos que serão estudados no laboratório da Esalq dentro das duas linhas de pesquisa (feromônios e voláteis de plantas), destacam-se os que afetam culturas como tomate, batata, cana-de-açúcar e citros. O percevejo-castanho (Scaptocoris castanea), o minador-do-citros (Phyllocnistis citrella), o bicudo da cana-de-açúcar (Sphenophorus levis), a broca do cupuaçu (Conotrachelus humeropictus) e a traça da batatinha (Phthorimaea operculella) serão, em princípio, as principais pragas analisadas.

"O percevejo-castanho, por exemplo, é uma das principais pragas de solo da atualidade por atacar diversas culturas, como o algodão, a soja e o milho, chegando a causar perdas de até 50% nas plantações", aponta Bento. "Não menos importante é a traça da batatinha, que chega a comprometer em até 100% o rendimento das safras de batata e tomate."

Além da Esalq, os recursos para a construção do laboratório vieram da empresa japonesa Fuji Flavor, da Cooperativa dos Cafeicultores e Citricultores de São Paulo (Coopercitrus), do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) e da Fapesp.