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O Sul

Pesquisas com laser levaram o Nobel de Física de 2018. Americano, francês e canadense, a primeira mulher desde 1963, conquistaram o prêmio.

Publicado em 03 outubro 2018

O Nobel de física de 2018 vai para o americano Arthur Ashkin, para o francês Gérard Mourou e para a canadense Donna Strickland por suas pesquisas com laser. Ashkin, afiliado aos Laboratórios Bell, foi premiado com metade do valor por sua pesquisa com pinças ópticas, bem como por sua aplicação em sistemas biológicos. Mourou, da École Polytechnique (França), e Strickland, da Universidade Walterloo (Canadá), dividirão a outra metade do prêmio por seu método de gerar pulsos ópticos supercurtos de alta intensidade. Strickland é apenas a terceira mulher a vencer o prêmio de física. Antes dela, foram laureadas Marie Curie (1903) e Maria Goeppert-Mayer (1963).

As pinças ópticas desenvolvidas por Ashkin são instrumentos que permitem manipular a luz. Em muitos laboratórios, pinças de laser são usadas para estudar processos biológicos, como proteínas, motores moleculares, DNA ou a vida interna das células.

Já Mourou e Strickland desenvolveram um método para gerar os pulsos de laser mais curtos e intensos criados jamais pela humanidade. A técnica desenvolvida por eles abriu novas áreas de pesquisa e levou a amplas aplicações industriais e médicas.

O físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, diz que a escolha de Ashkin não é nenhuma surpresa. “Ele vinha sendo considerado para o prêmio havia vários anos”.

A técnica, desenvolvida nos anos 1980 pelo americano, diz Davidovich, permite aprisionar um átomo ou molécula num foco de feixe de laser. Essa ideia foi utilizada depois para a criação das armadilhas de átomos, já premiada com o Nobel.

Na mesma época que Ashkin produzia seus trabalhos sobre pinças ópticas, Mourou e Strickland desenvolviam a técnica para criar pulsos de luz ultrarrápidos e extremamente intensos. À época, explica o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, o processo de tornar os feixes mais intensos acabava, a partir de certo ponto, danificando os amplificadores. “Isso impunha uma barreira ao aumento da intensidade”, diz.

A dupla então criou um método que estica um pulso, diminuindo sua intensidade, amplifica a sua intensidade, e depois o comprime novamente. “A sacada deles foi espetacular e permitiu produzir pulsos de laser com muito mais intensidade”, diz Brito Cruz.

Segundo Davidovich, os pulsos ópticos são como flashes ultrarrápidos que congelam os movimentos de partículas. “Com isso, é possível estudar fenômenos da natureza que são muito velozes, como o processo de ionização, em que um elétron é ejetado de um átomo.”

?A escolha do vencedor do prêmio mais importante da área é feita pela Academia Real Sueca de Ciências, na Suécia, escolhida por Alfred Nobel em seu testamento para eleger e premiar com a láurea o os autores de feitos notáveis para a humanidade.

Podem indicar nomes membros do comitê do Nobel do Instituto Karolinska, membros da Academia Real Sueca de Ciências, vencedores dos Nobéis de física, professores titulares de física de instituições suecas, norueguesas, finlandesas, islandesas ou dinamarquesas e acadêmicos e cientistas selecionados pelo comitê do Nobel —autoindicações são desconsideradas.

A cerimônia de premiação propriamente dita dos vencedores deste ano só ocorre em dezembro. Entre os cientistas premiados no passado estão Max Planck (1918), por ter lançado as bases da física quântica; Albert Einstein (1921), pela descoberta do efeito fotoelétrico; Niels Bohr (1922), por suas contribuições para o entendimento da estrutura atômica e Paul Dirac e Erwin Schrödinger (1933), pelo desenvolvimento de novas versões da teoria quântica.

Foram premiados ainda Arno Penzias e Robert Wilson (1978), pela descoberta e detecção da radiação de fundo do Universo; o trio William Bradford Shockley, John Bardeen e Walter Houser Brattain (1956), por pesquisa na área de semicondutores e pela descoberta do efeito transistor e da dupla Peter W. Higgs e François Englert (2013) por seus trabalhos sobre como as partículas adquirem massa.

O físico brasileiro César Lattes (1924-2005), que teve participação decisiva em uma das descobertas científicas mais importantes do século passado: a detecção do méson pi (ou píon), partícula que mantém prótons e nêutrons unidos no núcleo dos átomos, foi indicado ao Nobel de Física sete vezes, mas nunca levou o prêmio.

Os vencedores de 2017 dividirão o prêmio de 9 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 4,1 milhões). O dinheiro vem de um fundo de quase 4,5 bilhões de coroas suecas (em valores atuais) deixado pelo patrono do prêmio, Alfred Nobel (1833-1896), inventor da dinamite. Os prêmios são distribuídos desde 1901. Além do valor em dinheiro, o laureado recebe uma medalha e um diploma. Nesta quarta, será a vez do anúncio do Nobel de química (3).