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Pesquisas alertam que a seca de 2021 agora poderá ser a mais brava dos últimos tempos

Publicado em 24 abril 2021

O aumento de CO2 na Amazônia e Cerrado poderá ter grande impacto na seca também por aqui no Sudeste: a elevação do gás carbônico poderá causar redução no vapor d'água emitido pela floresta e diminuir volume das chuvas em até 12%

André Julião, do Conteúdo Estadão, cita um aumento de 50% nos níveis de gás carbônico na atmosfera que terá um efeito na diminuição das chuvas na Amazônia e esta elevação do CO2 poderá causar uma queda no vapor d'água emitido pela floresta, o que deverá levar a uma redução anual de 12% no volume de chuvas no país também por aqui, comentam também matérias no site Terra e no Jornal Hoje da Rede Globo, alertando que o desmatamento vem diminuindo a intensidade de precipitações em cerca de 9% ao ano. Esta estimativa havia sido apresentada em estudo publicado na revista Biogeosciences por cientistas ligados tanto ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade de São Paulo (USP), tendo a mesma conclusão de pesquisadores da Universidade Técnica de Munique e da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas. "Como o CO2 é um insumo básico da fotossíntese, quando ele aumenta na atmosfera há um impacto na fisiologia das plantas, o que pode ter um efeito cascata sobre a transferência de umidade das árvores para a atmosfera, no processo da transpiração, formação de chuvas e uma macrorregião, biomassa da floresta e uma série de outros problemas", nos explica David Montenegro Lapola, professor do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp, que liderou o estudo. O pesquisador coordena um projeto financiado no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG). Este trabalho aumenta também a ansiedade e a preocupação de agricultores, médicos, ecologistas, enfim de toda a população com a escassez de chuvas, que lembra a crise hídrica de 2013 agora em 2021.

Os pesquisadores constataram a influência no regime de chuvas apenas observando o efeito fisiológico causado nas plantas pelo aumento do CO2 na atmosfera. É sabido que uma maior disponibilidade do gás faz com que as plantas transpirem menos, emitindo menos umidade para a atmosfera e, consequentemente, gerando menos chuvas e ampliando as sequelas do efeito estufa na saúde do meio ambiente e das pessoas. Projeções apresentadas no último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, levando em conta mudanças no balanço de radiação atmosférica, mais o efeito fisiológico nas plantas, já haviam mostrado uma possível redução de até 20% no volume anual de chuvas na Amazônia, evidenciando que grande parte das alterações no regime de chuvas na região será controlada pela resposta fisiológica da floresta ao aumento de CO2. Neste novo estudo, os pesquisadores realizaram simulações no supercomputador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe, em Cachoeira Paulista. Foram projetados cenários de um aumento de 50% na concentração atmosférica de CO2 e seus impactos sobre a fisiologia da floresta ao longo de cem anos de simulação. Outra simulação deu conta de prever o efeito da substituição de 100% da floresta por pastagens. "Apenas o efeito fisiológico nas folhas da floresta gera uma diminuição anual de 12% nas chuvas (252 milímetros a menos por ano), o desmatamento total causa uma redução de 9% (183 milímetros a menos por ano). São valores muito acima da variação natural de 5% da precipitação na Amazônia entre um ano e outro", concluiu o cientista David Lapola.

Urgente gestão ambiental lá e aqui - Os resultados chamam atenção para a necessidade tanto de ações locais - para reduzir o desmatamento nos nove países que abrigam a Amazônia - quanto em todo país e mais ainda, globais, de forma a reduzir a emissão de CO2 na atmosfera pela atividade industrial, transporte ou geração de energia, por exemplo. Lapola é um dos coordenadores do experimento AmazonFACE (Free-Air Carbon Dioxide Enrichment) instalado ao norte de Manaus, ele vai aumentar a concentração de gás carbônico em pequenas parcelas de floresta, a fim de verificar as mudanças fisiológicas e atmosféricas causadas pelo aumento do dióxido de carbono. O experimento está antecipando o cenário do clima no país previsto para este século.

A diminuição da transpiração causada pelo aumento do CO2 aumenta a temperatura média em até dois graus, uma vez que há menos gotículas de água para amenizar o calor. Esse fator inicia uma cascata de fenômenos que resulta na inibição da formação da chamada convecção profunda (nuvens de chuva muito altas e carregadas de vapor d'água), diminuindo as chuvas. "Um próximo passo será testar outros modelos computacionais para comparar os resultados com o que encontramos. Além disso, é fundamental a realização de experimentos como o FACE, me busca de dados para verificar e aprimorar simulações de modelagem como as que fizemos", encerra o pesquisador, concluindo: "Desde já a situação é muito, muito preocupante".

(Já postamos dois vídeos nesta edição da gente, um com o climatologista Bruno Barros, analisando também o fator La Niña neste cenário, outro, o cientista Paulo Artaxo, da USP, em uma pesquisa feita pela Fapesp: mais tarde, na seção de comentários no blog mais alguns dados, venha conferir depois)

Fontes: Terra - Conteúdo Estadão - Jornal Hoje - folhaverdenews.blogspot.com