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G1

Pesquisas ajudam produtores vencerem doenças e pragas nos pomares de laranja

Publicado em 24 janeiro 2019

Os produtores de laranja buscam na ciência a ajuda que precisam para combater as pragas e doenças que atacam os pomares e que ao longo das últimas quase 8 décadas foram responsáveis pela eliminação de milhões de plantas. A citricultura é uma das produções agrícolas com mais problemas fitossanitários. No Brasil, são pelo menos seis doenças e uma dezena de pragas a serem combatidas todas as safras.

Atualmente, o principal desafio é o greening ou HLB, que é considerada a doença mais grave da citricultura e atinge 13% das laranjeiras cinturão citrícola paulista.

O greening foi responsável por quedas significativas em todos os países em que se instalou. Na Flórida (EUA), maior concorrente do Brasil no mercado de suco de laranja, é a principal responsável por uma queda de quase 70% na produção, desde o início dos anos 2.000.

“O maior desafio hoje é o greening. O inseto que transmite a doença é muito ativo e expande rapidamente. O que começou [em São Paulo] em 2004 com poucas plantas atacadas, hoje atinge 18% [das plantas] e em algumas regiões chega a 30 ou 40%. Se nos não controlarmos a expansão do greening, São Paulo pode ter uma perda de 100 milhões de caixas”, afirma o presidente do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), Lourival Carmo Monaco.

Desafios

O greening não é o primeiro desafio fitossanitário enfrentado pela citricultura paulista. Por pelo menos três vezes o setor esteve ameaçado por doenças que dizimaram milhões de pés de laranja e conseguiu superá-las em um trabalho conjunto dos citricultores e pesquisadores.

O primeiro grande problema foi a tristeza dos citros, uma doença que veio da África e dizimou 9 milhões das 11 milhões de laranjeiras que existiam na década de 1940. Na época, a citricultura paulista não era desenvolvida e não tinha a mesma representatividade mundial que tem atualmente, mas os enormes prejuízos causados pela doença deixaram os agricultores temerosos de plantar laranja por muito tempo.

O controle da tristeza aconteceu, principalmente, a partir de informações geradas pelos pesquisadores da Estação Experimental de Cordeirópolis (SP) e baseou-se na substituição do porta-enxerto (parte do tronco e raiz da laranjeira, utilizada para enxertar a copa) por outras variedades resistentes ao vírus.

Atualmente, as mudas de laranja já saem dos viveiros onde são produzidas e vão para o campo imunizadas contra a tristeza. Essas plantas recebem estirpes fracas do vírus que impede que o vírus severo se estabeleça na planta, deixando-a doente.

Frutos pequenos

Mais de 40 anos depois da devastação da tristeza, a citricultura paulista, que já era considerada a maior do mundo, se deparou com algo totalmente desconhecido. Plantas começaram a produzir frutos minúsculos, um sintoma que nunca havia sido registrado em outra citricultura do mundo.

A nova doença da citricultura foi batizada de clorose variegada dos citros (CVC), mas ficou conhecida popularmente entre os citricultores como “amarelinho”.

A doença foi identificada pela primeira vez em 1987 e o total desconhecimento sobre ela levou a erradicação de mais de 100 milhões de laranjeiras e perdas de produção de mais de 20%.

O futuro do setor chegou a ser questionado quando produtores pararam de plantar laranja e muitos desistiram da atividade.

Estima-se que entre aos anos 2.000 e 2.005, época em que atingiu o seu pico, a doença afetou 43,8% das laranjeiras e causou mais de R$ 1 bilhão em prejuízos à cadeia citrícola.

Pesquisa importante

A CVC foi alvo de uma dos mais importantes pesquisas brasileiras. A bactéria que causa a doença foi objeto do primeiro genoma realizado no país e também o primeiro genoma de um fitopatógeno no mundo. O projeto levou o Brasil a ter maior visibilidade no cenário científico mundial.

O trabalho envolveu 35 laboratórios, obteve um investimento de US$ 15 milhões da iniciativa privada e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi capa da Nature, uma das maiores e mais respeitadas publicações científicas do mundo.

Os pesquisadores também desenvolveram técnicas de manejo da doença no campo, o que incluiu a mudança no modelo de produção das mudas no Estado de São Paulo, que deixou de ser feito à céu aberto e passou para estufas teladas. Modelo este que depois foi copiado por outros estados produtores de citros.

Atualmente, a CVC atinge apenas 1,3% das plantas, de acordo com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), o menor índice apurado, desde que o monitoramento começou a ser feito, em 1996.

Seca em poucos dias

No início dos anos 2000, outra doença desconhecida preocupou os citricultores. A Morte Súbita dos Citros (MSC) surgiu no Triângulo Mineiro, um importante polo de produção de citros, e se espalhou pelo norte de São Paulo, matando rapidamente milhões de plantas.

Como a CVC, a doença não tinha registro no mundo e em cinco anos, afetou mais de 6 milhões de plantas.

Até hoje não se sabe o que causa a doença nem como ela é transmitida. A solução encontrada pelos pesquisadores foi a mesma utilizada para a tristeza: a troca do porta-enxerto, já que foi identificado que a doença ataca essa parte da planta, impedindo que os nutrientes captados pelas raízes cheguem até a copa, matando a planta de fome.

Dessa forma, os produtores precisaram fazer um procedimento chamado de subenxertia, enxertando outro tipo de porta-enxerto na planta adulta. Também passaram a plantar mudas com porta-enxertos que não são suscetíveis à doença, o que impediu que ela se espalhasse.

Por G1 São Carlos e Araraquara