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Pesquisar para exportar

Publicado em 08 fevereiro 2010

A Agência Norte-Americana de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) anunciou que o etanol brasileiro de cana-de-açúcar reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 61% em relação à gasolina - o que o caracteriza como um "biocombustível avançado".

O reconhecimento da EPA - que abre o mercado norte-americano e mundial para o etanol brasileiro e deverá contribuir para a redução das tarifas de importação impostas ao produto pelo governo dos Estados Unidos - aumenta ainda mais a necessidade de investimentos em pesquisas relacionadas ao biocombustível no Brasil, segundo pesquisadores.

"O governo dos Estados Unidos reconheceu algo que já estava bem claro para a comunidade científica. Trata-se de uma excelente notícia para o etanol brasileiro, pois a disponibilidade de um biocombustível avançado comercialmente viável é um elemento importante para a estratégia norte-americana de redução de emissões de GEE [gases de efeito estufa]. No entanto, a provável abertura do mercado criará uma demanda que só poderá ser suprida se tivermos um grande avanço tecnológico", disse Luís Augusto Barbosa Cortez, professor titular da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), à Agência FAPESP

Segundo Cortez, a necessidade de aumento da produção poderá ter tal magnitude que somente seria possível de ser realizada com investimentos em pesquisa para o aprimoramento do etanol de primeira geração e para o desenvolvimento da produção de etanol celulósico - que deverá aumentar a produtividade sem expansão da área plantada de cana-de-açúcar.

"Essa boa notícia precisa ser acompanhada de investimentos para que o etanol tenha melhores indicadores, como custo de produção, redução de consumo de fertilizantes, produtividade agroindustrial, condições de trabalho no campo e redução de queimadas.

A sustentabilidade do etanol tem que ser considerada em suas dimensões ambientais, sociais e econômicas", disse.

Cortez, que é coordenador adjunto de Programas Especiais da FAPESP, coordena o Projeto de Pesquisa em Políticas Públicas da Cadeia Cana-Etanol (Diretrizes de Políticas Públicas para a Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo), apoiado pela Fundação e voltado para as rotas tecnológicas para a produção do etanol.

De acordo com avaliação feita pela União da Indústria de Cana-deAçúcar (Unica), a decisão da EPA abre o mercado para a entrada de 15 bilhões a 40 bilhões de litros de etanol brasileiro nos Estados Unidos até 2022. A nova legislação norte-americana estabelece que o consumo mínimo de biocombustíveis deve ser de mais de 45 bilhões de litros anuais e, até 2022, esse volume deverá ser elevado para até 136 bilhões de litros.

"A decisão não abre o mercado apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, porque a EPA é reconhecida em todos os países e o etanol brasileiro provavelmente ganhará importância nas estratégias de redução de emissões de todos eles", disse Cortez.

O pesquisador também coordena estudos sobre expansão da produção de etanol no Brasil visando à substituição de 10% da gasolina no mundo em 2025 por etanol de cana-de-açúcar, feitos pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), da Unicamp.

Para ser considerado um biocombustível avançado, o produto deve reduzir as emissões de GEE em pelo menos 40% em relação à gasolina. Artigos científicos indicaram que a redução do etanol brasileiro variava entre 60% e 90%, dependendo da metodologia de estudo. O etanol de milho norte-americano, em comparação, produz redução de cerca de 15%.

"Que eu saiba, por esse critério, não há nenhum outro biocombustível avançado comercialmente viável. O biodiesel europeu, que tem melhor desempenho, proporciona reduções na faixa de 20% a 30%. Os norte-americanos têm esperanças de conseguir essa classificação para o etanol de segunda geração, mas ele ainda não é comercial e quando estiver sendo produzido ainda será muito caro", afirmou Cortez.

Aumento da produção

O professor da Feagri-Unicamp explica que o reconhecimento da EPA certamente ajudará a derrubar a tarifa de importação do etanol brasileiro nos Estados Unidos, que está estabelecida até o fim de 2010 em US$ 0,54 por galão.

A tarifa, estabelecida para proteger os produtores de etanol de milho nos Estados Unidos, é considerada um grande obstáculo para o produto brasileiro. Mas, segundo o cientista, o ideal é que elas sejam diminuídas gradativamente, com a criação de tarifas diferenciadas.

"Com essas tarifas eles protegem os fazendeiros, mas não reduzem as emissões o suficiente. Esse protecionismo é incoerente com as estratégias ambientais e deverá ser revisto. Mas é preciso que essa redução aconteça paulatinamente para que a indústria brasileira tenha tempo para se preparar para a imensa demanda que será gerada. Se a redução for repentina, isso poderá levar ao desabastecimento", disse.

O reconhecimento da EPA do etanol brasileiro como biocombustível avançado não basta para que ele seja integrado à estratégia norte-americana, segundo Cortez.

"Para optar de fato pelo nosso etanol, eles precisarão analisar se o Brasil é um fornecedor seguro. O único jeito de garantir isso é aumentar a produção. Hoje, sabemos que uma simples alta na exportação do açúcar já é capaz de afetar o fornecimento de etanol no Brasil", afirmou.

Cortez ressalta que hoje os Estados Unidos consomem cerca de 560 bilhões de litros de etanol por ano, enquanto o Brasil consome aproximadamente 40 bilhões de litros.

"Se o mercado norte-americano começar a demandar uma quantidade importante como 5 ou 10 bilhões de litros por ano, isso vai afetar significativamente o mercado brasileiro. Esse mercado é muito sensível ao preço do açúcar em nível internacional e ao consumo de álcool em nível interno", destacou.

Agência Fapesp

Especial: Com quantos megabytes se constroi uma cidade digital

por Tagil Oliveira Ramos

O conceito de digitalizar os municípios vai além da infraestrurura e propõe resgatar a cidadania por meio do acesso à informação

A pacata cidade de Piraí tem pouco mais de 25 mil habitantes (segundo o Censo de 2008). Quem passar poela entrada dela, na rodovia Presidente Dutra, ligação entre São Paulo e o Rio de Janeiro, pode nem notar sua presença na geografia local. Mas o município tem fama internacional. Piraí é considerada um caso bem-sucedido de "cidade digital".

A discussão sobre cidades digitais, que o IT Web publica em uma série de reportagens durante o mês de fevereiro, acontece no momento em que se discute em Brasília o Plano Nacional de Banda Larga.

No caso do município fluminense acima citado tudo começou em 2004, a partir do projeto Piraí Digital. Na época, foi criada uma rede pública de acesso à internet. Em pouco tempo, a estrutura, baseada em um sistema híbrido com suporte wireless, chegava às escolas. Seu acesso se disseminaria por avenidas, ruas e vielas.

Mais do que simplesmente permitir a navegação pela web, as iniciativas semearam e cultivaram a cultura digital. Houve ações de inclusão social, informatização da gestão e educação para novas mídias, com o surgimento de telecentros e instituições públicas "antenadas" com a nova onda.

Segundo Franklin Coelho, um dos responsáveis pelo projeto, a ideia de um programa deste gênero é ir além dos computadores e da infraestrutura de banda larga. Ou seja, não é só oferecer tecnologia a uma população carente. Tornar-se uma cidade digital significa modernizar a gestão pública e oferecer novos serviços e facilidades para as pessoas. Mais do que isto, a proposta é levar aos habitantes uma nova perspectiva de cidadania.

O objetivo é democratizar o acesso aos meios de informação e comunicação. Assim, serão geradas oportunidades de desenvolvimento econômico e social. Os horizontes da população são, desta forma, ampliados. No final, os benefícios atingem todas as áreas. Além da educação, a própria administração pública é afetada. A digitalização chega à saúde e à segurança, estendendo-se à própria economia do município.

É claro que a participação das empresas é desejada e necessária, num "bate-bola" com o governo em que todos ganham - sobretudo a sociedade. "A iniciativa privada tem um papel fundamental e deve trabalhar em parceria com o governo", diz Fabio Botelho Josgrilberg, coautor do livro Comunicação e mobilidade - aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação no Brasil. "Há casos em que o acesso à internet, por exemplo, é limitado, por falta de interesse do mercado". Daí, segundo o professor, cabe ao governo criar condições para a criação desse mercado.

Definição

A chamada cidade digital tem tudo para não ser mais um modismo, mas seu conceito deve se modificar e evoluir com o tempo. "O termo, de um modo geral, é usado para definir uma cidade que contém infraestrutura de redes e de serviços públicos, especialmente via internet, voltada para os cidadãos", explica Fabio Botelho Josgrilberg, professor Metodista e pesquisador de cidades digitais pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "O termo deve cair por terra com o tempo quando o digital deixar de ser novidade."

Segundo ele, há municípios que já usam a denominação "comunidades inteligentes". Outros inserem a discussão dentro de um debate maior sobre "governo aberto". Nesse caso, os recursos de TI ofereceriam o suporte necessário para aumentar a participação dos cidadãos nas decisões públicas, criar práticas colaborativas comunitárias e promover a transparência pública dos dados e ações governamentais.

Esta reportagem integra a série especial sobre cidades digitais que será publicada durante o mês de fevereiro no IT Web.