Notícia

Rádio Sagres 730 AM

Pesquisadores usam lei de ensino “afro” para adotar escolas públicas periféricas (3 notícias)

Publicado em 31 de março de 2024

Essa notícia também repercutiu nos veículos:
Jornal da USP online Escolas Exponenciais

JORNAL USP/Tabita Said – Um projeto coordenado por professores da Faculdade de Educação (FE) da USP está levando a discussão sobre as relações étnico-raciais no Brasil para a sala de aula. Por meio de formações continuadas com professores e estratégias de valorização das culturas locais, o projeto reúne pesquisadores de quatro universidades públicas para “adotar” escolas públicas periféricas, onde permanecem por três anos acompanhando estudantes e equipe pedagógica.

Participam do projeto a USP, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), todos inseridos no Grupo de Estudos e Pesquisas Afroperspectivas.

O projeto, intitulado Docências compartilhadas, formação continuada e a Lei 10.639/03: o papel das culturas urbanas em escolas públicas de diferentes regiões periféricas, recebeu verba de apoio à pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os resultados serão apresentados em um colóquio na FE, com opção de participação on-line. As pessoas interessadas devem se inscrever neste formulário até o dia 6 de abril. As transmissões on-line acontecerão entre os dias 8 e 10 de abril, das 14 às 22 horas, pelo Youtube.

Ensino afro

O trabalho de campo nas escolas é baseado em pesquisas que entrelaçam ciências e humanidades, utilizando referencial sul-americano, afro-brasileiro, do feminismo e da pedagogia crítica. Além da história, das artes e do letramento, as pesquisas também envolvem a educação antirracista, o esporte e a etnomatemática – uma forma de ver a matemática considerando as condições econômicas, sociais e culturais do contexto.

“Realizamos esse trabalho de docência compartilhada desde 2005. A ideia era trazer para dentro da escola as culturas que são cultivadas pelos alunos e por suas famílias. Toda a equipe entra na escola, faz formação dos professores, passa o dia inteiro lá. Ao mesmo tempo, entra em sala de aula junto do professor, programa com ele como seria a articulação entre história, geografia, português e as culturas afro-brasileiras”, descreve Mônica do Amaral, professora sênior da FE e pesquisadora responsável pelo projeto.

A professora explica que o primeiro trabalho do grupo foi na favela Real Parque, em São Paulo, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). “E lá, tinha uma forte presença do funk, do hip hop, da capoeira e das culturas indígenas, com uma comunidade de etnia Pankararu. Então fizemos um projeto com rap, repente e capoeira”, afirma. Para a pesquisadora, o projeto abre um corredor entre as escolas e os portadores das culturas afro-brasileiras e das ancestralidades indígenas, que tiveram suas vozes abafadas no processo de organização urbana.

Neste vídeo de apresentação de um de seus livros, a pesquisadora aprofunda o conceito de ancestralidade nas escolas.

Persistência e oposição Apesar da possibilidade de maior adesão de estudantes e familiares, às vezes a docência compartilhada encontra resistência da própria equipe pedagógica. Mônica conta que seu grupo já esteve em escolas cuja direção se opôs aos professores envolvidos com a educação antirracista, e puniu estudantes com suspensões e se negando a realizar formaturas.

“Esse tipo de coordenação pedagógica vai promover um verdadeiro retrocesso lá dentro, depois de anos de pesquisa e trabalho com populações extremamente abandonadas pelo Estado”, lembra.

Por outro lado, a persistência do grupo de pesquisadores e o apoio aos professores engajados levou diversas conquistas à comunidade escolar. “Eles espalharam cartazes sobre racismo, valorização de personagens negros em todas as salas, conseguiram colocar música de rap no sinal da escola. Viraram a escola do avesso porque estávamos lá!”, diz. Com relação aos jovens que estavam sendo punidos, os pesquisadores utilizaram o conceito sawubona, da cultura zulu, de valorização e reconhecimento individual, em uma roda de abraço e acolhimento.

“É um trabalho miudinho, de todo dia. A gente queria mostrar para diretores, professores e alunos que vão se transformar em professores que se as universidades tivessem uma parceria destas de dois, três anos, nós cobriríamos todas as escolas. É essa formação cotidiana que vale a pena para estudantes, professores e direção”, destaca.