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Pesquisadores usam bagaço de cana na construção civil

Publicado em 30 maio 2007

Experimentos realizados nos laboratórios da Faculdade de Ciências Tecnológicas (FCT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, deram origem a um novo composto cerâmico com potencial de aplicação na construção civil.
Trata-se de uma massa cerâmica cuja matéria-prima principal é a areia extraída da cinza do bagaço da cana-de-açúcar. "O trabalho tem foco ambiental, do estudo de alternativas de aproveitamento dos resíduos que são dispensados em larga escala pela indústria", disse o coordenador da pesquisa, Silvio Rainho Teixeira, professor do Departamento de Física, Química e Biologia do FCT, à Agência FAPESP.
"Descobrimos que um material que aceita muito bem os resíduos industriais do setor sucroalcooleiro é a massa cerâmica usada para produção de cerâmica vermelha", explicou. Os pesquisadores partiram do bagaço de cana usada para produção de álcool, que foi queimado a fim de produzir vapor e energia elétrica para uso industrial.
Para cada tonelada de cana foi gerado cerca de 0,25 tonelada de bagaço, que, quando queimado nas caldeiras, produziu aproximadamente 6 quilos (2,4 %) de cinza — que contém pó de carvão e areia de quartzo.
"A areia de quartzo pode ser misturada com argila e com elementos conhecidos como fundentes químicos para dar origem a uma massa cerâmica que pode ser usada para a fabricação de tijolos, telhas e placas cerâmicas", disse Teixeira. Os fundentes mais utilizados em cerâmicas são matérias-primas ricas em óxido de sódio (Na2O) e óxido de potássio (K2O), que também estão presentes na cinza em pequenas quantidades.
O pesquisador destaca que esses resíduos das cinzas do bagaço da cana-de-açúcar produzidos no processo de geração de vapor normalmente são descartados sobre o solo. Em 2002, o Brasil produziu cerca de 1,6 milhão de toneladas de cinza do bagaço de cana.
O pó de carvão extraído da cinza pode ainda ser prensado, usando um aglutinante orgânico, em altas temperaturas para a produção de briquetes (aglomerados) de carvão vegetal.
"Se todo o pó de carvão gerado pela queima do bagaço no Brasil fosse aproveitado, seria possível substituir cerca de 10% do carvão vegetal usado atualmente no país para a geração de energia", disse Teixeira.
Como a incorporação da areia de quartzo nas propriedades dos materiais cerâmicos depende das composições químicas e mineralógicas da cinza, fazendo com que cada mistura reaja de forma diferente mesmo que as concentrações sejam as mesmas, os pesquisadores estão trabalhando para adequar a tecnologia aos processos de produção em larga escala e para torná-la viável comercialmente.
"Os novos materiais cerâmicos ainda não foram utilizados por empresas e todos os resultados ainda estão sendo validados em laboratório. Mas o mais importante é termos descoberto a incorporação das cinzas do bagaço da cana-de-açúcar na composição de massas cerâmicas como uma solução para o destino final dos resíduos industriais", afirmou Teixeira.
Agência FAPESP