Notícia

ABIPTI - Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação

Pesquisadores irão elaborar estudo internacional sobre cultura científica

Publicado em 09 dezembro 2019

Por Elton Alisson, de Pequim* | Agência FAPESP

Um grupo de pesquisadores de 14 países, incluindo o Brasil, pretende elaborar um estudo internacional sobre cultura científica – indicador que avalia o nível do conhecimento de uma sociedade sobre ciência e tecnologia, que influencia a percepção e o apoio a essas atividades.

O projeto foi lançado no início de novembro, em Pequim, durante um evento organizado pela Academia Nacional de Inovação Estratégica da China (CAST, na sigla em inglês).

“Hoje, a ciência está subvalorizada. Em alguns países há uma crescente desconfiança no conhecimento científico”, disse Michel Claessens, professor da Universidade Livre de Bruxelas, da Bélgica, e colaborador da Comissão Europeia.

“Queremos enfatizar a importância da cultura científica para aumentar o apoio público à ciência, além de compartilhar boas práticas e trabalhar juntos na definição e medição da cultura científica em uma escala internacional”, disse Claessens, porta-voz do projeto intitulado World Investigation of Science Culture (Wise).

De acordo com Claessens, todos os países envolvidos no projeto – como os Estados Unidos, a China, o Brasil e países da União Europeia – estão conduzindo regularmente pesquisas para avaliar a percepção pública da ciência e tendências em cultura científica.

Atualmente, no entanto, existem poucas abordagens internacionais que permitam fazer inferências sobre a relação entre as pontuações médias dos países em medidas comuns sobre cultura científica.

Além disso, apesar de os conceitos e aplicações da ciência e tecnologia serem onipresentes na sociedade moderna, há grande preocupação de que a cultura científica esteja subdesenvolvida e, consequentemente, coloque em risco o apoio público à ciência.

“A ciência hoje está ameaçada pela crescente desconfiança e a expansão de movimentos anticientíficos nos mais altos níveis sociais e políticos, que colocam o conhecimento e o método científico em descrédito”, afirmou Claessens.

“A crescente oposição às vacinas e o ceticismo sobre as mudanças climáticas parecem mostrar que a influência da ciência e do conhecimento científico podem estar em risco. Além disso, em muitos países os jovens demonstram desinteresse por estudos ou por seguir carreiras científicas”, apontou.

A autoridade científica – de cientistas, professores, formuladores de políticas científicas e dos jornalistas de ciência – também tem sido questionada, avaliou Bernard Schiele, professor da Universidade do Quebec, do Canadá.

“A mediação agora é sinônimo de envolvimento do público, que não deseja mais ser separado dos processos de decisão que podem afetá-lo, especialmente aqueles que envolvem escolhas sociais”, afirmou Schiele.

A elaboração de uma pesquisa sobre cultura científica com uma abordagem internacional permitiria estabelecer questionários e metodologias harmonizadas, fazer comparações diretas e ter séries temporais.

Dessa forma, seria possível medir a cultura científica de maneira coordenada a fim de fazer análises detalhadas comparativas entre os países, monitorar sua evolução em escala global e ajudar governos a definirem estratégias para melhorá-la, avaliam os coordenadores do projeto.

“O aumento da cultura científica ajuda a criar um ambiente positivo para apoiar a pesquisa científica, a tecnologia e a inovação e a fornecer ao público conhecimento adequado para entender, questionar e atuar em uma sociedade tecnocientífica como a que vivemos hoje”, disse Claessens.

“Por isso, espera-se que os países não apenas aumentem o financiamento à ciência, mas também promovam a cultura científica a fim de celebrar os valores científicos em suas sociedades, como o respeito pelas evidências e as análises”, afirmou.

Exemplo da China

A China tem realizado estudos sobre percepção pública da ciência desde 1992 e, em 2018, estabeleceu a meta de trabalhar com outros países para promover a educação e a alfabetização científica no país e no exterior.

“A popularização da ciência teve um papel importante em diferentes estágios do desenvolvimento econômico e social da China”, disse Ma Lin, da Associação para a Ciência e Tecnologia de Pequim (Bast, na sigla em inglês), na abertura da Semana Internacional para Cultura Científica e Museus de Ciência.

O evento aconteceu entre os dias 3 e 5 novembro no Beijing Science Center – um novo centro de ciências em Pequim, inaugurado em setembro de 2018, com objetivo de estimular o interesse, principalmente de crianças, por ciência e tecnologia.

“Em pouco menos de 20 anos, a China aumentou notavelmente a proporção de cidadãos cientificamente alfabetizados [saltando de menos de 2% em 2001 para quase 10% este ano e com a meta de chegar a 12% em 2020]”, afirmou o dirigente.

Em Pequim, onde estão situadas algumas das melhores universidades e instituições de pesquisa do país, a proporção de cidadãos alfabetizados em ciências dobrou em menos de 10 anos. O número saltou de 10,03% em 2010 para 21,48% em 2018, destacou Lin.

“A grande maioria dos jovens chineses tem alfabetização científica básica e ensino obrigatório de nove anos. A taxa bruta de matrículas no ensino superior no país atingiu 48,1% nos últimos anos”, afirmou.

Segundo Lin, embora a educação científica já existisse na China antes do século 20, limitava-se, principalmente, a assuntos práticos e dispersos.

No final do século 19, o ensino de ciências foi gradualmente institucionalizado no país e instituições formais de ensino de ciências foram abertas. Foi também nesse período que foram feitos esforços para popularizar a ciência na China, com conteúdos limitados aos fatos simples e básicos da ciência.

Com a fundação da República Popular da China, em 1949, segundo ele, a cobertura do ensino de ciências foi bastante ampliada, mas comunicada de maneira simples e direta, com conteúdos compostos, principalmente, de conhecimentos científicos básicos e habilidades práticas para o dia a dia.

Após a reforma e a abertura da China, a partir de 1978, o país pôde aprender com a experiência de países desenvolvidos e empregar tecnologias modernas, afirmou Lin.

“A China introduziu muitos conteúdos e formas inovadoras na popularização da ciência e aprimorou sua capacidade de fazer isso”, avaliou.

“Em Pequim, por exemplo, há mais de 2 mil locais voltados ao ensino e à divulgação científica, como museus e centros de ciência”, afirmou.

Falta de compilação

As pesquisas sobre cultura científica surgiram nos Estados Unidos, na década de 1950, na esteira do impacto gerado na opinião pública americana com o lançamento em órbita do primeiro satélite artificial da história, o Sputnik, pela União Soviética.

Esse acontecimento contribuiu para o governo norte-americano criar a National Science Foundation (NSF) – a agência de financiamento público à ciência dos Estados Unidos –, apoiar programas de educação científica e realizar estudos de opinião pública sobre ciência e tecnologia (C&T).

Em 1979, a NSF propôs a realização de uma enquete nacional sobre percepção pública da C&T, que, desde então, é feita periodicamente no país.

Já na União Europeia, as pesquisas de opinião sobre C&T e temas específicos como tecnologia da informação e biotecnologia começaram a ser realizadas a partir do início da década de 1990.

Na sequência, diversos países produziram pesquisas de percepção pública da ciência, como Índia, China, Japão.

Já o Brasil realizou até agora cinco pesquisas sobre percepção pública da ciência de abrangência nacional, com periodicidade de quatro anos, sendo a primeira em 1986 e a última este ano, lançada em julho.

Essas pesquisas foram conduzidas pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Mas, além dessa instituição, a FAPESP, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), o Instituto Butantan e o recém-criado Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação em Ciências Públicas fizeram estudos semelhantes nos últimos anos.

“Atualmente, não há uma publicação que compile os resultados de todas essas pesquisas”, disse Martin Bauer, professor da London School of Economics, da Inglaterra, e um dos coordenadores do projeto.

“Outros problemas são a falta de harmonização da metodologia e a coordenação do tempo da realização entre elas”, avaliou Bauer.

A realização de uma pesquisa sobre cultura científica com uma abordagem internacional também possibilitaria solucionar esses problemas, destacaram os coordenadores do projeto.

*O jornalista viajou a convite da Academia Nacional de Inovação Estratégica da China (CAST) e do Beijing Science Center.