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Pesquisadores investigam uso do vírus Zika no combate a tumores

Publicado em 28 abril 2018

Um estudo brasileiro mostrou, pela primeira vez em um modelo vivo, que o vírus Zika pode ser usado como ferramenta no tratamento de tumores humanos agressivos do sistema nervoso central. A pesquisa conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O trabalho foi publicado nesta quinta-feira (26) na revista “Cancer Research”. Após injetar pequenas quantidades do patógeno no encéfalo de camundongos com estágio avançado da doença, os cientistas observaram uma redução significativa da massa tumoral e aumento da sobrevida dos animais. Em alguns casos, houve a eliminação completa do tumor, até mesmo de metástases na medula espinal. “Estamos muito anima dos com a possibilidade de testar o tratamento em pacientes humanos e já estamos conversando com oncologistas.

Também submetemos uma patente com o protocolo terapêutico adotado em roedores”, relata Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e coordenadora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células- Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão apoiado pela Fapesp. Mayana Zatz coordenou a investigação ao lado de Oswaldo Keith Okamoto, também professor do IBUSP e membro do CEGHCEL. Colaboraram pesquisadores do Instituto Butantan, do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“Nossos resultados sugerem que o Zika possui uma afinidade ainda maior pelas células tumorais do sistema nervoso central do que pelas células-tronco neurais sadias [principais alvos do vírus no cérebro de fetos expostos durante a gestação]. E, ao infectar a célula tumoral, ele a destrói rapidamente”, diz Oswaldo Keith Okamoto.

Propriedades

No laboratório do IBUSP, o pesquisador tem se dedicado a estudar um grupo de genes que, quando expressos em tumores malignos, conferem às células tumorais propriedades semelhantes às de células-tronco, tornando-as mais agressivas e resistentes ao tratamento.

Segundo o pesquisador, essas células tumorais com características de célulastronco já foram observadas em diversos tipos de tumores sólidos, inclusive aqueles que afetam o sistema nervoso central. Dados da literatura científica sugerem que elas ajudam o câncer a se disseminar pelo organismo e a restaurar o crescimento tumoral após a quase eliminação da doença por tratamentos de químio e radioterapia.

“Nossos estudos e de outros grupos mostraram que o vírus Zika causa microcefalia porque infecta e destrói as células-tronco neurais do feto, impedindo que novos neurônios sejam formados. Foi então que tivemos a ideia de investigar se o vírus também atacaria as células-tronco tumorais do sistema nervoso central”, afirma o cientista.