Notícia

Agrojornal online

Pesquisadores identificam falha em tabela de nutrição animal

Publicado em 05 outubro 2009

Por Valéria Dias

Pesquisadores da USP constataram que existem alguns equívocos no Cornell Net Carbohydrate and Protein System, especificamente nas equações empregadas para quantificar as frações de carboidratos em alimentos, principalmente os de destinação animal como plantas forrageiras (pastagens, silagens, fenos, capins, etc.). O sistema, desenvolvido em 1982 por cientistas da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, é uma referência mundial na quantificação nutricional para a produção animal.

"A alimentação balanceada é fundamental para a boa produtividade animal. Para isso, os profissionais da área devem saber as frações dos carboidratos do tipo: muito rapidamente digestíveis, de digestão rápida, os lentamente digestíveis, e os não digestíveis, presentes na silagem, no feno e em outras plantas forrageiras", explica o coordenador da pesquisa, o professor Romualdo Shigueo Fukushima, do Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, no campus de Pirassununga. "Uma das seções do sistema de Cornell é composta por quatro equações que determinam essas frações, fornecendo ao nutricionista os elementos necessários para formular rações, visando a uma maior produtividade animal, com menor custo possível", completa.

Segundo Fukushima, a determinação das frações de carboidratos que compõem o alimento pode ser feita quimicamente, em laboratórios de análise alimentar, mas é tarefa complexa. O sistema Cornell objetiva facilitar esta determinação. "Não são todos os produtores que têm acesso a esse tipo de laboratório e muitas vezes é preciso ter uma resposta mais rápida. Então o sistema de equações de Cornell é usado para atender a essa demanda", conta.

Cornell System

Nesse sistema existem quatro equações e cada uma delas fornece uma estimativa do teor de carboidratos: a equação A fornece uma estimativa dos elementos muito rapidamente digestíveis (que são absorvidos pelo organismo do animal em minutos); a B1, dos elementos de digestão rápida (que levam de 1 a 2 horas para serem absorvidos); a B2, dos elementos lentamente digestíveis (que levam algumas horas para serem degradados e absorvidos), e a C, dos não digestíveis.

Uma das maneiras para determinar a composição da espécie forrageira consiste em tratá-la com reagentes (por exemplo, solução de detergente neutro) que vão dividir os nutrientes dos tecidos vegetais da planta em dois grupos: as frações solúveis em detergente neutro (composta por elementos como açúcares, lipídeos, proteínas, etc.) e a fibra em detergente neutro (FDN), que além da própria celulose, é composta também por hemicelulose e lignina. As equações de Cornell utilizam os elementos presentes na fração solúvel em detergente neutro, na própria FDN e no teor de lignina. Eles são inseridos nas equações, que fornecem as estimativas dos teores de carboidratos do alimento.

Equívoco

Entretanto, o grupo liderado por Fukushima constatou que carboidratos que estavam presentes na equação B1 (de digestão rápida), de acordo com o sistema Cornell, na realidade estavam presentes na equação A (muito rapidamente digestíveis). "Esta constatação aconteceu porque em vez de realizarmos a análise pelo modo tradicional, com a FDN, usamos outra preparação fibrosa, a parede celular (PC), e os resultados foram muito diferentes do esperado, o que não deveria ocorrer, visto que a PC e a FDN são entidades fibrosas muito próximas uma da outra", conta. Neste experimento foram usados cultivares de girassol.

O professor explica que no rúmem (uma espécie de "pré-estômago" do animal) existem micro-organismos que fazem a pré-digestão dos alimentos. Alguns desses protozoários e bactérias vão usar mais os elementos da equação A, outros da B1 e outros da B2. "Quando o nutricionista elabora uma ração com base nas equações da Cornell ele espera um determinado resultado. Entretanto, as bactérias estarão recebendo elementos diferentes e isso vai alterar a produção do animal. Os produtores acabam achando que a produtividade foi diferente da planejada devido a problemas de saúde do animal, ou à má qualidade do alimento. Nunca se pensou que a equação pudesse apresentar equívocos", aponta.

Outra constatação do grupo é que a equação C (dos elementos não digestíveis) é muito longa e poderia ser simplificada. "Tanto faz se a equação é curta ou longa, pois é só colocá-la no Excel que o programa resolve. A questão é que ela está baseada em um conceito questionável, onde a lignina [um dos elementos que compõe a planta] está expressa na FDN, quando na verdade ela deveria estar expresssa na planta inteira", esclarece Fukushima. "E quando se resolve a convencional equação C de Cornell, a FDN simplesmente é cancelada, portanto não precisa ser usada", completa.

O professor Fukushima sugere que se passe a usar os elementos celulares da parede celular (PC) em vez da fibra em detergente neutro nas equações do sistema de Cornell, bem como simplificar a equação C.

Infalíveis?

Fukushima ressalta outro aspecto importante desta pesquisa: quando pesquisadores de países em desenvolvimento, como o Brasil, contestam as descobertas de cientistas de países desenvolvidos e de universidades de ponta, como Cornell, a primeira reação é de descrédito total para com os brasileiros, inclusive por parte dos próprios brasileiros. "Quando enviamos uma parte deste estudo para publicação em uma revista brasileira, num primeiro momento, o material foi rejeitado. A alegação foi que o grupo de Cornell é altamente respeitado e jamais cometeria uma falha desse tipo. Nós precisamos insistir para que o artigo fosse aceito", conta. Segundo o professor, a parte complementar deste estudo não foi aceita em revistas norteamericanas, mas foi publicada em uma revista européia - o periódico Animal, que é publicado por um consórcio de três entidades de produção animal: British Society of Animal Science, o Frances Institut National Recherche Agronomique (INRA) e a European Federation for Animal Science.

Resumos destes estudos foram apresentados no Canadá, em julho de 2006, durante o Annual Meeting of the Canadian Society of Animal Science. No último mês de julho, o artigo foi premiado como o melhor artigo científico de 2008, durante a 46ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, realizado na cidade de Maringá (PR).

A pesquisa, que teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), contou com a participação da professora Catarina Abdalla Gomide, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga; de Mário Adriano Ávila Queiróz, na época doutorando da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba; e de Márcia Regina Braga, do Instituto de Botância da Secretaria de Estado do Meio ambiente de São Paulo.

Mais informações: (19) 3565-4231 ou email rsfukush@usp.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , com o professor Fukushima