Notícia

Green FM

Pesquisadores fazem inventário geológico de São Paulo

Publicado em 23 março 2017

Há 260 milhões de anos, no período Permiano médio, boa parte do Estado de São Paulo era coberta pelas águas do mar Irati. Uma das evidências mais fascinantes desse antigo mundo marinho está em Santa Rosa do Viterbo, na região de Ribeirão Preto. Lá, o trabalho de extração em uma mina de calcário revelou a existência de diversos estromatólitos gigantes.

Estromatólitos são estruturas sedimentares formadas pela atividade de microalgas em águas rasas. As algas vivem em “tapetes”, que crescem verticalmente ao longo de milhares de anos para formar estromatólitos, assim como ocorre com os recifes de coral.

Estromatólitos estão presentes em todo o mundo, mas quase sempre são pequenos. Em Santa Rosa do Viterbo não é assim. Lá há um excepcional campo de estromatólitos gigantes, com até 3 metros de altura. O local é único no planeta e um dos 142 geossítios selecionados para compor o Patrimônio Geológico do Estado de São Paulo.

O trabalho de seleção dos sítios geológicos levou três anos, de 2012 a 2015, e foi liderado por Maria da Glória Motta Garcia, professora no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo e coordenadora do projeto de pesquisa apoiado pela FAPESP. Ela teve assessoria do geólogo português José Brilha, do Instituto de Ciências da Terra da Universidade do Minho, em Braga, Portugal.

O levantamento envolveu uma equipe de 16 pesquisadores, composta por geocientistas da USP, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal da São Carlos (UFSCar), do Instituto Florestal e do Instituto Geológico do Estado de São Paulo e da Universidade Federal do Paraná – além de 13 outros profissionais da área de geociências.

Coube aos coordenadores fazer o levantamento dos sítios com potencial para integrar o inventário, explica Maria da Glória Garcia. “Chegou-se assim a um total de 193 geossítios, dos quais foram selecionados os 142 mais relevantes”, disse.

“Os sítios foram classificados de acordo com uma lista com 11 marcos de referência geológica, como por exemplo terrenos pré-cambrianos, riftes continentais, unidades geomorfológicas e formas de relevo, ou cavernas e sistemas de carste, entre outra categorias”, disse a pesquisadora, que é coordenadora do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Patrimônio Geológico e Geoturismo (GeoHereditas).

O objetivo final do trabalho foi classificar os sítios geológicos pelo valor científico e risco de degradação, “de modo a estabelecer prioridades de manejamento e geoconservação”.

Entre os 142 geossítios selecionados há locais importantes dos pontos de vista tanto científico quanto turístico. Exemplos que aliam ambas as perspectivas são duas grutas. Uma delas é a caverna da Tapagem, popularmente conhecida como Caverna do Diabo, a maior gruta do Estado de São Paulo, no Parque Estadual de Jacupiranga, município de Eldorado, no sul do estado.

A segunda caverna fica na mesma região. Trata-se da Caverna Santana, no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), uma das mais significativas do Brasil em termos dos seus espeleotemas (estalagmites, estalactites e formações rochosas similares).

Outro geossítio de importância geomorfológica e turística é o Pico do Itapeva, de 2.025 metros de altura, na divisa entre Pindamonhangaba e Campos do Jordão. A montanha, na Serra da Mantiqueira, é formada por granitos e gnaisses muito antigos, pré-cambrianos, portanto com mais de 550 milhões de anos. Do seu cume avista-se o Vale do Paraíba e, ao fundo, a Serra do Mar, o que dá o toque turístico ao geossítio.

O Vale do Paraíba, aliás, é um vale de rifte, aberto por forças tectônicas que culminaram na formação da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar. No período Oligoceno, todo o vale era coberto por um paleolago, o lago Tremembé, que tem este nome por causa dos terrenos que o formam, pertencentes à formação geológica Tremembé.

O geossítio a ser preservado, neste caso, fica na mina de argila da Sociedade Extrativa Santa Fé, em Tremembé.

Trata-se do mais importante sítio fossilífero do período Paleógeno [entre 66 e 23 milhões de anos atrás] brasileiro. Foi nas argilas da mina que o doutor Herculano Alvarenga, diretor do Museu de História Natural de Taubaté, descobriu em 1982 os fósseis quase completos de uma ave do terror – terror birds, classificadas nas ordens Gastornithiformes e Cariamiformes –, o predador de topo do paleolago há 22 milhões de anos.

Os resultados do inventário do Patrimônio Geológico do Estado de São Paulo foram publicados no periódico GeoHeritage, disponível neste link: http://link.springer.com/article/10.1007/s12371-016-0215-y.

Via Agência FAPESP