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Pesquisadores estudam efeitos de usina da Petrobras na Serra do Mar

Publicado em 06 junho 2012

Proteger o meio ambiente sem deter o crescimento econômico é o desafio que autoridades, pesquisadores e empresas enfrentam todos os dias. Na Serra do Mar, o perigo mora ao lado. É o que mostra a repórter Neide Duarte, na terceira reportagem de uma série especial.

As nuvens passeiam no relevo da paisagem, mas não saem dali. As nuvens e as montanhas da Serra do Mar vivem juntas. Na Serra do Mar, acontece um dos maiores volumes de chuva de todo o país, quase comparável ao da Floresta Amazônica.

No verão, os manacás da serra em flor produzem milhares de minúsculas sementes que se dispersam com o vento e podem se espalhar pela floresta. As cássias e os cambarás se destacam na paisagem com suas flores amarelas. É uma estratégia das árvores para que os insetos polinizadores possam vê-las de longe.

Tudo na Mata Atlântica tem importância, mas se não tiver o palmito juçara: “Se ela não tiver palmito, ela não tem a mesma riqueza, ela não tem a mesma ambientação. A biodiversidade dela não é tão rica”, aponta Adriana Mattoso.

Mais de 70 espécies de animais da Mata Atlântica se alimentam dos frutos do juçara. E são também os seus plantadores.

A produtora rural Lourdes Alves e o filho Domiciano fazem o papel das aves da floresta. Também são plantadores das sementes do palmito juçara, uma das palmeiras nativas da Mata Atlântica ameaçadas de extinção. “Quando ele é novo, pequeno, quando a gente joga, ele precisa do escuro do mato. Depois que cresce, é que ele quer a luz do sol. É assim que é a vida do juçara”, explica a senhora.

A araponga canta na floresta. Ela é uma das aves que se alimentam do fruto do palmito juçara, e a presença dela é um sinal de que a mata está em boas condições. Mas essa qualidade pode acabar. Por isso, pesquisadores do Programa de Mudanças Climáticas da Fapesp estão coletando folhas e galhos da floresta para estudar as transformações que podem ocorrer na Mata Atlântica.

A mata fica na encosta da Serra do Mar, a um quilometro da Unidade de Tratamento de Gás da Petrobrás, em Caraguatatuba. Nela, está sendo processado o gás natural produzido nos campos de Mexilhão e do pré-sal, na Bacia de Santos. O Campo de Mexilhão fica a 160 quilômetros da costa. Através de um duto submarino, sai o gás até a unidade da Petrobrás em Caraguatatuba. De lá, outro duto de 96 quilômetros de extensão leva o gás até Taubaté. O gasoduto hoje transporta 8 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia.

Para estudar o impacto da vizinhança da Petrobrás com a floresta, a pesquisa dos especialistas vai durar alguns anos. A principal preocupação é quanto ao nível de emissão de nitrogênio.

“A Usina da Petrobras deve emitir uma quantidade considerável de nitrogênio. E isso deve ser depositado na encosta atlântica”, aponta o biólogo Marcos Aidar, do Instituto Botânico da Unicamp. “É muito provável que, em um primeiro momento, que tenha um efeito de fertilização. Agora, se a gente fertiliza demais, isso pode passar a ser tóxico. A gente pode observar efeitos que a gente observou já no passado em Cubatão. Cubatão foi o maior exemplo de efeito de poluição sobre a encosta. A poluição acabou desestruturando a floresta e mudou a composição”.

Não são só as florestas que podem sofrer danosas transformações. As pessoas também. O Ibama autorizou o funcionamento da Unidade de tratamento de Gás da Petrobrás em Caraguatatuba, mas no último mês de janeiro emitiu um parecer em que diz: ‘as análises realizadas entre janeiro de 2009 e abril de 2011 indicam a presença de hidrocarbonetos, especialmente o benzopireno, que é reconhecidamente uma substância cancerígena’.

“A gente espera que não aconteça aqui do mesmo jeito. Eu espero que não tenhamos um novo Cubatão aqui nessa planície de Caraguatatuba”, afirma o biólogo Marcos Aidar, do Instituto Botânico da Unicamp.

Em nota, a Petrobras afirmou que não se pode atribuir à unidade de tratamento de gás qualquer elevação nos índices de benzopireno na região, uma vez que também foram detectados níveis superiores ao permitido pela legislação fora da área da unidade. Mesmo assim, segundo a nota, a empresa está buscando identificar as causas que levaram a extrapolação do limite.

A Petrobras informou ainda que segue as regras aprovadas na licença de operação da unidade e que monitora o ar e os rios próximos às suas instalações industriais, não tendo registrado nenhuma anormalidade até o momento.