Notícia

Gazeta Mercantil

Pesquisadores estudam a influência das queimadas no clima

Publicado em 07 novembro 2002

Por Gabriela Gutierrez Arbex de São Paulo
Identificar o nível de interferência das queimadas no clima da região Amazônica tem sido o objetivo de um grupo internacional de pesquisadores - liderado pelo Brasil - nos últimos sete anos. O projeto, batizado de LBA - Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, está atualmente em sua quinta campanha, iniciada em 1° de setembro e com data prevista de término para o próximo dia 10. Um contingente de quase uma centena de brasileiros e estrangeiros, entre pesquisadores, apoio logístico e estudantes, está espalhado em quatro pontos de Rondônia-Ji-Paraná, Vilhena, Ouro Preto d'Oeste e reserva Jaru - com a missão de fazer uma radiografia das nuvens, da atmosfera e da biosfera da região. "São os resultados obtidos nessas campanhas de observação que vão nos ajudar a entender a importância das queimadas no equilíbrio climático da região e até do planeta", diz o pesquisador Saulo Freitas, que participa do projeto por meio do programa Jovens Cientistas, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de. São Paulo (Fapesp). Isso porque a fumaça tem efeitos diretos no balanço radiativo e na dinâmica de formação de nuvens, já que altera a quantidade de energia solar que chega à superfície, diminuindo o aquecimento do solo e, em conseqüência, a evaporação da água. "A fumaça originária das queimadas - sejam elas acidentais ou artificiais, para uso da terra no plantio ou na pecuária - altera o padrão de precipitação e a estabilidade atmosférica, tomando o clima mais quente e escasseando as chuvas." MODELOS NUMÉRICOS Equipados com medidores de concentração de gases e de distribuição de gotas e com radio sondas - encarregadas de medir temperatura, pressão e vento na atmosfera, a 25 km de altura - os pesquisadores colhem dados importantes que, mais tarde, serão utilizados em modelos numéricos, permitindo a melhoria das projeções climáticas, estimativas de como a floresta amazônica reagirá às mudanças e a tomada de precauções que garantam a manutenção do equilíbrio natural da Amazônia que, uma vez afetado, pode significar o aumento da concentração de ozônio e o conseqüente efeito nocivo sobre a saúde da população. Freitas diz que o recurso serve, ainda, para monitorar a fumaça. "Informações como a quantidade emitida de monóxido de carbono combinadas com modelos numéricos no computador pode nos ajudar a saber se a fumaça, muitas vezes responsável pelo fechamento de aeroportos por falta de visibilidade, está indo em direção ao Paraguai ou à Bolívia e se vai chegar até a Argentina." De acordo com o pesquisador, embora o pico das queimadas seja em agosto e setembro (estação da seca) - época em que são verificadas as maiores alterações climáticas - as pesquisas são realizadas em diferentes períodos e locais para que os resultados sejam comparados. Rondônia, por exemplo, foi escolhida por ter sido alvo de grande desmatamento causado por imigrantes do Sul do País, mas campanhas anteriores estiveram também no Amazonas. O projeto LBA é coordenado pelo Cpetec - Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos, órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) mantido pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e conta com a cooperação de inúmeras entidades, entre elas, o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo, o Grupo de Estudos de Poluição do Ar (GEPA), o Instituto de Física da USP, e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), além de órgãos internacionais como o Instituto Max-planck, da Alemanha, as Universidades de Harvard e do Colorado, e a Nasa. "Os dados científicos são arquivados no Cpetec, mas ficam disponíveis para as comunidades científicas que participam do projeto." Reconhecida no mundo todo, a iniciativa conta com financiamentos da Fapesp, do CNPq e dos organismos norte-americanos e alemão que dela participam - recursos que já, ultrapassaram a casa do US$ 1 milhão, segundo Freitas. As pesquisas em campo devem durar até 2006. A próxima campanha, programada para 2003, será no Amazonas.