Notícia

O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

Pesquisadores do IQ/Unesp iniciam processos para patentear substâncias químicas de plantas

Publicado em 17 maio 2000

A botânica Inês Cordeiro e Carlos Carbonezi (doutorando do IQ) Um grupo de pesquisadores do IQ da Unesp de Araraquara está dando início a processos para patentear duas substâncias químicas identificados em duas plantas do Estado de São Paulo. Os pesquisadores de Araraquara formam o único grupo de químicos que está trabalhando no Biota-Fapesp, programa especial que reúne cerca de 200 especialistas de instituições paulistas como o objetivo de mapear e analisar toda a flora e fauna do Estado, em áreas ramanescentes de Mata Atlântica e do Cerrado paulista. De 102 espécies de plantas da Mata Atlântica analisadas, oito apresentaram alguma ação antixidante, antitumoral ou antichagásia. Também foram identificadas seis espécies com ação antibiótica Após pouco mais de um ano do início do projeto, esses resultados abrem perspectivas para a descoberta de novos modelos de medicamentos. PESQUISADORES DO IQ/UNESP INICIAM PROCESSOS PARA PATENTEAR SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS DE PLANTAS Um grupo de pesquisadores do Instituto de Química (IQ) da Unesp de Araraquara está dando início a processos para patentear duas substâncias químicas identificadas em duas plantas do Estado de São Paulo. Os pesquisadores de Araraquara formam o único grupo de químicos que está trabalhando no Biota-Fapesp, programa especial que reúne cerca de 200 especialistas de instituições paulistas com o objetivo de mapear e analisar toda a flora e fauna do Estado, em áreas remanescentes de Mata Atlântica e do Cerrado paulista. O projeto teve início em março do ano passado e os primeiros resultados começa maser apresentados. Um dos compostos químicos identificados pelo grupo de Araraquara apresentou atividade 100% - sem produzir toxidade ao ambiente - contra a broca da cana-de-açúcar, praga que ataca os canaviais e, que, portanto,, representa um grande valor econômico. A pesquisa da parte química do extrato da planta é desenvolvida pela doutoranda do IQ/Unesp, Hosana M.D. Navickiene. Outro pedido de patente refere-se à padronização de uma planta para uso medicinal, cuja pesquisa farmacológica está sendo desenvolvida pelo grupo de farmacologia da USP-SP e no IQ/Unesp pelo professor Alberto Cavalheiro. Até o momento, os nomes dos compostos isolados e das plantas são de conhecimento restrito dos coordenadores do Biota-Fapesp; não foram publicados sequer em revistas científicas. Essa precaução é necessária para garantir as exigências para o patenteamento, que assegura os direitos do inventor sobre as aplicações industriais e cria obstáculos para o desenvolvimen-, to de pesquisas futuras. MEDICAMENTOS De 102 espécies de plantas da Mata Atlântica analisadas, oito espécies apresentam alguma ação antioxidante, antitumoral ou antichagásica As antioxidantes merecem atenção especial por reagirem com os chamados radicais livres, que produzemamorte celular. Daseleção de 229 extratos de plantas resultaram, também, seis espécies com ação antibiótica. Essas pesquisas abrem possibilidades para a descoberta de novos medicamentos a partir de plantas, cujo custo de produção industrial pode ser mais em conta. IQ-Unesp A professora Vanderlan da Silva Bolzani (vejabox), do IQ-Unesp, é a coordenadora do projeto Conservação e Uso Sustentado da Flora do Cerrado e Mata Atlântica: Diversidade Química e Prospecção de Fármacos Potenciais (integrante do Biota-Fapesp). O grupo de pesquisadores do IQ/Unesp no projeto -formado pelos professores Alberto Cavalheiro, MaysaFurlan, Dulce Helena S. Silva, Márcia Nasser Lopes e Angela Regina Araújo- está elaborando um banco de dados de informações químicas sobre a vegetação do Estado. O trabalho desenvolvido pelos pesquisadores tem recebido elogios de várias partes do mundo e foi um dos destaques da revista Pesquisa Fapesp, n° 51, publicada no último mês de março. A professora Vanderlan enfatiza que o maior patrimônio do Brasil é a sua biodiversidade. Ela lembra que no inicio deste século, 81 % do Estado de São Paulo eram cobertos por floresta tropical. Atualmente restaram apenas 7%de áreas remanescentes de Mata Atlântica e 3% de Cerrado. ECOLOGIA Outra contribuição relevante da pesquisa refere-se ao levantamento de informações para entender os processos de adaptação das plantas e sua interação com outros seres vivos: subsídios valiosos para estudos de conservação e de desenvolvimento: sustentável das matas remanescentes: no Estado. A preservação ambiental é uma preocupação também presente nos métodos desenvolvidos para evitara derrubata de matas quando da obtenção de matéria-prima para pesquisa. A professora Maysa Furlan, do IQ/ Unesp, Massuo Kato e Paulo Roberto Moreno, do Instituto de Química da USP, estão empenhados em desenvolver uma cultura de tecidos, método que ao mesmo tempo contribui para preservara vegetação natural e possibilita a otimização da produção de substâncias que mais interessam. COLETA Na fase inicial do projeto foram analisadas 214 espécies de plantas. Espécies típicas de Mata Atlântica foram coletadas na Estação Ecológica de Juréia-Itatins, no litoral Sul do Estado; em Piracicaba, no litoral Norte; e no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, que constitui a mata do Jardim Botânico, na cidade de São Paulo. Os exemplares de Cerrado foram coletados de uma área da Fazenda Campininha, localizada em Mogi-Guaçu, nordeste do Estado. O material coletado encontra-se depositado no herbário do Instituto de Botânica de São Paulo. O trabalho de coleta foi acompanhado pela botânica Inês Cordeiro, do Instituto de Botânica de São Paulo. PERSPECTIVAS O término do projeto está previsto para 2002. Muito provavelmente será renovado, tanto pela sua relevância científica e tecnológica quanto pelas perspectivas de trabalho abertas até o momento. Segundo os pesquisadores, "a identificação de compostos de efeitos interessantes abre dois caminhos. De um lado, torna-se possível alterar os trechos das moléculas responsáveis pela atividades biológica, de modo a potencializar sua ação. De outro, é uma fonte potencial de substâncias para serem modificadas por meio de sínteses mais simples que as atuais". PESQUISADORA FOI ALUNA DE OTTO TIOTTLIEB, INDICADO PARA O NOBEL Vanderlan da Silva - Bolzani, pesquisadora do IQ/Unesp A pesquisadora Vanderlan da Silva Bolzani, 49 anos, professora do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara e pesquisadora II A do CNPq, é graduada em Farmácia pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal da Paraíba, com mestrado e doutorado no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado pelo Institute of Chemistry do Virgínia Polytechnique Institute and State University, nos Estados Unidos. Desde os anos 80, a professora Vanderlan realiza estudos em parceria com a química Maria Cláudia Marx Young, pesquisadora do Instituto de Botânica. Elas são coordeneadora e vice-coordenadora, respectivamente, do projeto Conservação e Uso Sustentado da Flora do Cerrado e Mata Atlântica: Diversidade Química e Prospecção de Fármacos Potenciais, que integra o programa Biota e que contou com R$ 585 mil financiados pelo Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. As duas pesquisadoras foram orientadas de pós-graduação do químico Otto Richard Gottlieb, "que criou as bases de uma nova área, a quimiossistemática, integrando química, biologia e geografia de modo a permitir a identificação de grupos de substâncias químicas encontradas nas plantas uma abordagem que lhe rendeu inclusive uma indicação para o Prêmio Nobel".