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Campo Grande Notícias

Pesquisadores do FoRC relacionam o amadurecimento do mamão papaia a efeitos no sistema imunológico humano

Publicado em 02 março 2020

É o segundo relato de experimentos in vitro mostrando que o amadurecimento do mamão papaia, ao aumentar a quantidade de pectinas bioativas, pode ser benéfico para o organismo.

A equipe do professor doutor João Paulo Fabi, pesquisador do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), publicou no dia 3 de fevereiro o quarto de uma série de seis artigos dedicados a correlacionar o amadurecimento do mamão papaia a possíveis efeitos biológicos na saúde humana. O artigo, que tem como primeira autora a nutricionista Samira Bernardino Ramos do Prado, foi publicado pela Scientific Reports, do grupo Nature. Professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (FCF/USP), Fabi desenvolveu essa linha de pesquisa em um projeto financiado pelo programa Jovens Pesquisadores da Fapesp. O projeto, intitulado “Alterações biológicas das pectinas de mamão com possíveis benefícios à saúde humana”, teve início em 2014 e está chegando ao fim, com uma série de resultados de significativo impacto na ciência.

“O artigo que estamos publicando agora correlaciona o amadurecimento do mamão papaia a um efeito imunomodulatório. Descobrimos que as pectinas extraídas de frutos verdes e maduros ativaram e/ou inibiram determinados Toll-like Receptors, que são receptores do sistema imunológico, os chamados TLRs. Ou seja: o amadurecimento e os fenômenos que o acompanham poderiam ter um impacto no sistema imune de um indivíduo”, revela o professor.

Segundo ele, o que se pode inferir até agora é que o amadurecimento fez com que a atividade imunomodulatória dessas pectinas fosse alterada. “Imaginamos que a estimulação de alguns TLRs poderia ser benéfica, pois eles estão relacionados a um aumento da imunidade, ao desenvolvimento da capacidade imunológica de reconhecimento de patógenos… Mas não conseguimos mensurar isso ainda.”

Os TLRs estão presentes nos glóbulos brancos, que são as células de defesa do organismo, mas recentemente se descobriu que as células epiteliais do intestino também expressam alguns tipos de TLRs — e ninguém sabe ainda o porquê.

O professor ressalta que este artigo é o segundo relato de experimentos in vitro que mostram que o amadurecimento do mamão papaia pode ser benéfico para a saúde humana, pois representa um aumento na quantidade de pectinas bioativas (com efeitos biológicos positivos observados em testes in vitro). O primeiro foi publicado em 2017.

Resultados — As descobertas do grupo começaram a ser veiculadas em 2016, em um artigo na Frontiers in Plant Sciences. “Esse artigo mostra como o amadurecimento do mamão papaia altera o conteúdo de fibras solúveis do mamão. O mamão maduro tem maior quantidade de fibras solúveis em água, no formato de pectinas solúveis, do que o mamão verde. Conseguimos mostrar que, durante o amadurecimento, existe uma migração do conteúdo de pectinas que possivelmente não poderiam ser aproveitadas pelo organismo humano, por serem pouco solúveis em água, para pectinas mais solúveis em água, devido à expressão de enzimas que degradam a pectina, as chamadas pectinases.”

A pectina é uma mistura de diversos polissacarídeos, e é considerada como um composto bioativo. “Os compostos bioativos são divididos em várias classes, umas delas é a classe das fibras alimentares, que inclui os polissacarídeos. A pectina é considerada um composto bioativo justamente porque é uma fibra alimentar solúvel em água.”

Em 2017, a equipe publicou um outro artigo, também na Scientific Reports, em que conseguiu verificar que o fenômeno do amadurecimento teve efeitos biológicos (anticâncer) em culturas de células. As pectinas extraídas do mamão levaram à diminuição da proliferação de células de câncer colorretal em experimentos in vitro. O grupo também conseguiu fazer com que, na presença das pectinas, essas células cancerígenas se reprogramassem para aumentar a apoptose (morte celular programada).

“Conseguimos estabelecer a correlação entre o amadurecimento do fruto, o aumento de polissacarídeos bioativos, ou seja, de pectinas solúveis em água, e a atividade biológica in vitro. O que, possivelmente, pode representar um efeito benéfico em seres humanos. Mas estamos conduzindo novos estudos, in vivo, para demonstrar esses efeitos”, explica Fabi. Clique aqui para assistir um vídeo sobre o tema deste artigo.

Em 2019 o grupo produziu um terceiro artigo, publicado na revista International Journal of Biological Macromolecules, que ratifica a descoberta de que realmente existe uma migração das pectinas bioativas de frações menos solúveis em água (chamadas de frações queladas) para frações solúveis em água. “O artigo é importante porque definitivamente corrobora o que foi visto em 2016 e 2017: que, com o amadurecimento, parte desses polissacarídeios bioativos em formato de pectinas passa maciçamente de frações queladas para frações solúveis em água. E que essa migração poderia corresponder a um aumento do teor de fibras solúveis e, consequentemente, de bioatividade desses polissacarídeos no organismo humano.”

“Agora, estamos começando a conduzir estudos in vivo para confirmar a descoberta de que esses polissacarídeos bioativos possuem ação biológica benéfica ao organismo humano. Eles vão gerar os outros dois artigos que alinhavam as descobertas feitas pelo grupo.”

Pectinas modificadas — O pesquisador lembra que há frutas, como a maçã, por exemplo, que contêm altas quantidades de pectina, mas cuja polpa não amolece. Neste caso, a disponibilidade dessas pectinas para o organismo não acontece da mesma maneira. “A pectina da maçã é uma molécula muito grande com baixa solubilidade em água. Neste caso, os efeitos que observamos com a pectina do mamão maduro não vão acontecer. É preciso uma modificação, no sentido de diminuir o tamanho e aumentar a solubilidade dessas pectinas.”

Segundo ele, provavelmente, efeitos similares aos detectados nas pectinas do mamão serão também observados no processo de amadurecimento de outras frutas climatéricas — ou seja, que continuam amadurecendo após serem colhidas — tais como manga, abacate e pêssego, por exemplo.

O pesquisador salienta, ainda, que as pectinas podem ser modificadas em laboratório, o que gera as chamadas “pectinas modificadas”. “A maçã, a pera, a parte branca do maracujá e dos citros (albedo), todos esses frutos são ricos em pectinas, mas elas podem não estar totalmente solúveis em água, o que dificultaria um efeito biológico positivo. Existem alguns tipos de modificações químicas que podemos fazer nas pectinas para aumentar determinados efeitos biológicos.” É o caso das pectinas modificadas de citros, que já são comercializadas no mercado americano. “Para obtê-las, é preciso aplicar tratamentos que degradem tanto quimicamente quanto enzimaticamente, ou mesmo termicamente, as ligações que impedem que os fragmentos de pectinas sejam solubilizados.”