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Painel Acadêmico

Pesquisadores do Brasil e EUA avaliam efeitos do estresse tóxico em crianças, entenda:

Publicado em 21 dezembro 2016

As crianças que moram em favelas no Brasil ou em East Lubbock, no Texas, nos Estados Unidos, partilham de uma realidade comum: muitas delas vivem em condições de pobreza extrema, testemunham frequentemente violência e podem ser vítimas de abuso verbal, físico, emocional e até mesmo sexual.

A exposição contínua e por um longo período de tempo a esses eventos traumáticos extremos – denominados estresse tóxico –, sem apoio adequado de um adulto, pode levá-las a desenvolver comportamentos negativos, como agressão, ansiedade e depressão, apontam especialistas na área.

Um grupo de pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da  Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em colaboração com colegas da TTU (Texas Tech University), dos Estados Unidos, realizam, com apoio da FAPESP, um estudo com o objetivo de avaliar a incidência e os efeitos do estresse tóxico sobre o desenvolvimento neurológico, cognitivo e socioemocional em crianças e adolescentes no Brasil e nos Estados Unidos. A pesquisa é realizada no âmbito do programa SPRINT (São Paulo Researchers in International Collaboration).

No caso da pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Unifesp e da TTU, o objetivo é identificar inicialmente os fatores crônicos e considerados tóxicos, como pobreza, abuso, conflitos familiares e uso de drogas, que podem ser comuns nos dois países, explica Andrea Parolin Jackowski, professora da Unifesp e coordenadora do projeto do lado brasileiro, à Agência FAPESP.

“Já detectamos que é comum nas duas regiões a alta prevalência de abuso infantil”, adiantou a pesquisadora.

Em outubro, os pesquisadores da TTU passaram uma semana em São Paulo para, junto com colaboradores brasileiros, conhecer os lugares – como a região da cracolândia, no centro da cidade – e verificar in loco a realidade em que vivem as crianças que estão sendo estudadas e avaliar como as suas experiências podem ser aplicadas em todo o mundo, já que não variam muito de um lugar para o outro.

Alguns resultados preliminares do estudo indicam que, apesar das diferenças culturais, não há muita diferença em como uma criança reage ao estresse tóxico em diferentes partes do mundo. Crianças que vivem em extrema pobreza em East Lubbock, no Texas, ou no centro-sul de Los Angeles, por exemplo, apresentam os mesmos efeitos cognitivos e comportamentais das que moram em favelas no Brasil, afirmam os pesquisadores.

“A forma como o corpo responde ao estresse tóxico é semelhante em todos os contextos”, disse Elizabeth Trejos-Castillo, professora da TTU e coordenadora do projeto do lado americano, em uma reportagem publicada no site da universidade americana.