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Pesquisadores detectam doença degenerativa no RN

Publicado em 25 julho 2005

Há cerca de 200 anos, uma doença misteriosa atinge os moradores de Serrinha dos Pintos, no sertão do Rio Grande do Norte. Alguns bebês nascem com os "olhos tremidos" - não conseguem fixar o olhar em um ponto. Por volta dos sete anos, essas crianças começam a perder o movimento das pernas. Na adolescência, a paralisia chega aos braços.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a história da doença na cidade começou, segundo contam na região, com o velho Maximiniano, que chegou a Serrinha para casar com a filha de Pedro Queiroz: Antônia. Mulherengo, ele contraiu sífilis. Não bastasse isso, assim que se viu viúvo, casou com uma sobrinha de Antônia. Desde então, a tal sífilis se instalou no sangue da família, que cresceu e virou uma cidade onde todos são, em maior ou menor grau, parentes.

Recém-descoberta por pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano e do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), a doença ganhou um nome científico: Spoan - sigla em inglês que significa paralisia rígida, atrofia ótica e morte do tecido nervoso periférico.

A síndrome foi descrita na edição de maio da revista Annals of Neurology, publicação da associação americana de neurologia. Na região de Serrinha, foram identificados 26 casos da doença, sendo 22 na própria cidade. Ainda não há registros em nenhum outro lugar do mundo, embora cientistas da Holanda e da Bélgica tenham procurado os pesquisadores para relatar outros casos.

De acordo com Mayana Zatz, coordenadora do estudo, a síndrome é causada por um gene defeituoso, resultado de uma mutação. Por não ser um gene dominante, ele pode ficar ao lado de um gene saudável e passar despercebido por várias gerações. Entretanto, quando alguém recebe tanto do pai como da mãe o gene alterado, a síndrome aparece.

Como em Serrinha o casamento entre parentes é bastante comum, a chance de dois portadores da mutação se casarem e terem um filho com Spoan é muito grande.

Na cidade de cerca de quatro mil habitantes, estima-se que uma em cada nove pessoas possua o gene causador da síndrome, informou o jornal. Com a pesquisa, já é possível identificar os portadores. "A idéia é voltar à cidade, ver quem quer fazer o teste e avisar os casais que podem ter filhos com a doença", afirma Zatz. A síndrome ainda não tem cura.

Origem
Segundo a pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o fato é que Maximiniano pouco tem a ver com a história. Por meio de uma árvore genealógica, que registra a incidência da doença em cada núcleo familiar da cidade, a bióloga Silvana Santos constatou que o problema começou no casamento de Pedro Queiroz e Maria Alexandrina, pais da mulher de Maximiniano e, provavelmente, descendentes de holandeses. O casal teve três filhos, que tinham o gene defeituoso. Quando seus netos e bisnetos começaram a casar entre si, a doença apareceu.

A influência da provável sífilis de Maximiniano? Nenhuma. "Entre os séculos 16 e 19, havia a idéia de que a sífilis estava ligada a males hereditários", afirmou Silvana.