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O Liberal (Americana, SP) online

Pesquisadores desenvolvem leite mais saudável

Publicado em 01 junho 2016

Por Ana Carolina Leal

A inclusão de óleo de canola na ração de vacas pode tornar o leite produzido pelos animais mais saudável e apresentar outros benefícios além dos nutricionais, como diminuir o risco de desenvolver doenças cardiovasculares, autoimunes e inflamatórias. A constatação é de pesquisadores da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA-USP), campus de Pirassununga.

 

“O projeto foi baseado numa própria demanda de conhecimento da importância de ômega 3 para saúde humana. Já tínhamos feito um primeiro projeto que foi com óleo de girassol e que está bastante relacionado com aumento de ômega 6. A gente queria saber quanto aumentaria o ômega 3 no leite, por isso, resolvemos fazer o projeto com inclusão de óleo de canola para verificar o efeito”, explicou Arlindo Saran Netto, professor da FZEA-USP.

 

Eles adicionaram óleo de canola na ração para avaliar o efeito de diferentes níveis de lipídeo na produção e composição do leite e, assim, alterar a qualidade da bebida ao diminuir a concentração de ácidos graxos saturados e melhorar a proporção de ácidos graxos instaurados.

 

Os ácidos graxos saturados – ou gordura saturada – têm sido identificados como precursores de doença cardiovascular. Já os ácidos graxos insaturados – como o ômega 6 e 3 – contribuem para reduzir os níveis de LDL (colesterol ruim) e o risco de desenvolvimento de doenças cardíacas. A adição de 6% de óleo de canola na ração resultou em um aumento de 34,08% no teor de ácidos graxos insaturados e de 115% na concentração de ômega 3.

 

“Esse experimento teve um resultado muito bom, aumentou bastante a quantidade de ômega 3. E sabemos que usualmente as dietas [das vacas] têm menos ômega 3, tanto que a relação ômega 3 e 6 atualmente em alguns países é de 50 para um, quando o ideal é de até cinco para um, dez para um. Com o óleo de canola, nossa proporção ficou 5.9 para um, mais próximo do recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde)”, disse Katiéli Caroline Welter, zootecnista e doutoranda pela FZEA-USP. Os resultados dos experimentos indicaram que a adição de óleo de canola na dieta de vacas da raça holandesa reduziu em 20,24% a concentração de ácidos graxos saturados no leite.

 

“A inclusão de óleo de canola [na ração] tem efeito negativo na ingestão de alimentos pela vaca. O animal diminui um pouco a ingestão de alimentos porque a grande quantidade de óleo reduz a degradabilidade ruminal. Nosso maior interesse era justamente ver se alterava a composição do leite. Agora que atingimos os níveis que imaginávamos, pela própria revisão de literatura e conhecimento que temos na área, o foco é trabalhar dentro da dieta para que tenhamos um leite com uma composição diferenciada, mas também vacas bastante produtivas”, afirmou Saran Netto.

 

Entenda a pesquisa

Durante o estudo, as vacas foram alimentadas, ordenhadas e submetidas a três tipos de dietas diferentes, com 21 dias de duração cada, sendo 14 dias de adaptação à dieta e sete dias de coleta de amostras de sangue e de leite produzido. Além do leite, o projeto avaliou também que é possível produzir manteiga e queijo com maior teor de ômega 6, selênio e vitamina E.

 

Para avaliar a dosagem ideal de inclusão de óleo de canola na dieta de vacas leiteiras, os pesquisadores selecionaram 18 vacas da raça holandesa, com produção diária de leite, em média, de 22 litros, em estágio intermediário de lactação. “A própria sociedade tem se mostrado preocupada com a qualidade dos alimentos que consome. Há algumas décadas, os produtos de origem animal eram vistos com alto teor de gordura saturada e como causadores de problemas de saúde para a população. Isso tem sido desmistificado. Podemos ter produtos com diferentes composições em função da própria dieta dos animais. A utilização vai depender justamente de uma demanda da sociedade e do interesse da indústria em processar e comercializar esse tipo de produto”, disse o professor da FZEA-USP.

 

Fonte: Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)