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Pesquisadores de SP debatem a mensuração de resultados em psicoterapia

Publicado em 28 janeiro 2020

Iniciativa teve presença de cerca de 80 cientistas, entre brasileiros, irlandeses, colombianos, norte-americanos e espanhóis

A cidade de Amparo, no interior do Estado, recebeu pesquisadores no evento denominado São Paulo Schools of Advanced Science in Mental Health and Evidence-Based Intervations, que debateu orientações dentro da psicoterapia, entre elas, a comportamental, cognitivo-comportamental e humanista.

A iniciativa, realizada no fim de 2019, contou com a presença de cerca de 80 cientistas, sendo metade do Brasil. Os demais profissionais têm origem na Irlanda, Colômbia, Estados Unidos e Espanha. O evento, coordenado pelo Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com o Centro Paradigma de Ciências do Comportamento, teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na modalidade Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA).

O aumento nos índices mundiais de ansiedade e depressão torna os cuidados com a saúde mental uma preocupação do século XXI, sendo necessário criar estruturas e aplicar recursos públicos para a atenção em psicoterapia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a depressão afete 322 milhões de pessoas no mundo.

No Brasil, ela atinge 11,5 milhões de pessoas (5,8% da população), enquanto distúrbios relacionados à ansiedade afetam mais de 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população). Nesse cenário, grupos de pesquisa em psicoterapia clínica de diferentes países ou regiões podem obter avanços significativos ao incorporar ferramentas de avaliação de resultados comuns.

Análises

A geração de dados a partir de metodologias semelhantes permitiria a adoção de tecnologias avançadas de análise, como o machine learning (que permite analisar uma grande quantidade de informações por métodos estatísticos, de modo a encontrar padrões de repetição que permitam fazer determinações ou predições, por exemplo).

De acordo com Maria de Jesus Dutra dos Reis, coordenadora da Escola, é preciso que a comunidade científica que produz dados em psicoterapia se reúna e impulsione a colaboração internacional em pesquisa.

No entanto, de acordo com a pesquisadora, ainda não há um consenso sobre o tema entre as diversas orientações da psicoterapia. “A psicologia não é paradigmática e, portanto, terapeutas de vertentes diferentes tendem a eleger processos distintos para a mensuração dos resultados de suas intervenções”, afirmou à Agência Fapesp.

“Cada um tem uma forma de sistematizar processos de intervenção, muitas vezes tornando difícil quantificar de forma unificada ou sistemática as evidências de efetividade. Fora isso, existem particularidades na conceituação e mensuração dos processos em exame nos tratamentos de psicoterapia, sobretudo em temas como subjetividade, afetos ou emoções”, completou Maria de Jesus Dutra dos Reis.

Colaborações

Um dos objetivos dos organizadores da Escola foi impulsionar estudos científicos com base em algumas ferramentas de mensuração de resultados e, assim, garantir a reprodutibilidade de estudos investigando a efetividade do processo terapêutico. Esse movimento exige que centros de pesquisa de países ou regiões diferentes trabalhem colaborativamente.

“As diretrizes que consideram tratamentos com base empírica requerem a existência de diferentes estudos clínicos randomizados e controlados em diferentes laboratórios. Afinal, é muito difícil que um único psicoterapeuta, ou laboratório, atenda um grande número de pacientes a ponto de ter uma quantidade de dados suficiente para alcançar uma base empírica”, disse à Agência Fapesp Francisco Ruiz, pesquisador do Departamento de Psicologia da Fundación Universitaria Konrad Lorenz, na Colômbia, e um dos palestrantes da Escola.

O cientista tem feito pesquisas centradas em psicologia clínica em colaboração com universidades da Espanha. “A colaboração tende a melhorar a qualidade do estudo e o impacto do artigo. Fora isso, quando temos diferentes laboratórios envolvidos em pesquisa de psicologia clínica, podemos levar em conta também novos fatores, como a cultura de um determinado país, algo ainda muito difícil de estudar cientificamente”, salientou.

Tratamento

Michel Lambert, pesquisador da Brigham Young University, dos Estados Unidos, que desenvolve um método para rastrear os resultados de tratamento em psicoterapia, aplicado por clínicas, empresas de saúde e governos em vários países do mundo, defende que falhas sugerem a necessidade de medir e monitorar a resposta do paciente ao longo do tratamento.

“É indiscutível que a psicoterapia tem um impacto positivo nos distúrbios psicológicos. Porém, ensaios clínicos mostram que há falha na resposta de pacientes e que até 65% das pessoas em atendimento de rotina deixam o tratamento sem benefício medido. No caso da pesquisa, os estudos precisam ser replicados para que haja progresso nessa área”, disse Michel Lambert à Agência Fapesp.

Os especialistas reunidos no evento apontaram o benefício de usar áreas da ciência da computação, como o machine learning, para entender as diversas variáveis de um tratamento psicoterápico.

“É muito complexo. São muitas variáveis interagindo na psicoterapia e essas ferramentas são ótimas para o estudo de sistemas complexos. Em pesquisas sobre medo, por exemplo, levamos em conta fatores como reforço positivo, punição e controle de estímulo. Mas tudo é analisado separadamente. Não podemos tentar fazer um pacote de psicoterapia como uma pílula, pois cada decisão envolve uma reação diferente. No próprio consultório, na prática, não funciona assim”, disse Felipe Corchs, professor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), à Agência Fapesp.

Ciência da Computação

De acordo com Felipe Corchs, é possível notar que estudos em psiquiatria e neurociência têm se aproximado mais das ciências da computação. No entanto, essa tendência é menor em psicoterapia clínica, muito provavelmente pelo fato de a área ter uma carga grande de subjetividade.

“A psicoterapia envolve muitas ocorrências que não são tão fáceis de mensurar objetivamente, pois acontecem na vida privada das pessoas. É até possível na neurociência ou na psiquiatria medir objetivamente quanto de oxigenação há em determinada região do cérebro, ou mensurar o efeito de um medicamento. Porém, na psicoterapia não dá para medir exatamente o que o paciente está sentindo, a não ser que ele me conte, mas isso pode vir enviesado por muitos motivos”, disse.

Para o pesquisador, mesmo que com as novas tecnologias não se consiga eliminar o caráter subjetivo da psicoterapia, talvez seja possível acessar informação útil e capaz de trazer avanços na pesquisa.

“Nunca vamos alcançar em pesquisas científicas uma parte importante da psicoterapia que é subjetiva. Porém, não vejo outra saída sem ser formular sistemas computacionais, matemáticos e de predição. É o mais próximo que conseguimos chegar de todas as variáveis que envolvem a complexidade da psicoterapia”, concluiu.

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