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Pesquisadores da USP dão novo passo para eliminar o vírus da Zika

Publicado em 28 março 2017

Com seu tamanho diminuto, um mosquito pode causar um medo considerável. Principalmente se, esmagado com um tapa depois da picada, exibir patas listradas. E mais ainda se quem levou a picada estiver grávida.

Transmissor dos vírus causadores de Zika, dengue e chikungunya, o mosquito Aedes aegypti é de fato um inimigo temível.

Por isso o físico Glaucius Oliva, professor do Instituto de Física do campus de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) e coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), sonha com um medicamento que possa ser utilizado em seguida à picada ou logo que aparecem os sintomas, de modo a bloquear a proliferação dos vírus e acelerar a cura.

Seu grupo acaba de dar o primeiro passo nessa busca: desvendou a estrutura tridimensional da proteína mais crucial para a replicação do material genético do vírus, conforme descrito em artigo publicado em 27 de março na revista Nature Communications.

“Buscamos o desenvolvimento de fármacos por meio da modelagem de moléculas que interagem com receptores específicos”, conta Oliva.

O CIBFar é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP. “Mas nunca tínhamos trabalhado com vírus até a formação da Rede Zika (ver Pesquisa FAPESP nº 239).”

O caráter emergencial da pesquisa chamou a atenção do pesquisador, que começou a coordenar a modelagem molecular das proteínas codificadas pelo genoma do vírus Zika.

Trata-se de uma molécula bastante curta de RNA que carrega o código para 10 proteínas: três estruturais, responsáveis pela estrutura física que envolve o material genético, e sete não estruturais, associadas à replicação do RNA viral.

“O coração do complexo de replicação é a proteína NS5, uma enzima polimerase que usa o próprio RNA como molde para produzir cópias”, explica Oliva. É essa proteína que seu grupo caracterizou, e que pretende usar como alvo para o desenvolvimento de um fármaco.

Para chegar à estrutura foi necessário clonar o RNA, uma etapa feita em parceria com a Cellco, uma empresa criada e incubada na USP em São Carlos por três ex-doutorandos do IFSC com o objetivo de oferecer soluções para laboratórios de pesquisa em biotecnologia.

Depois de sintetizar o gene, de modo a não trabalhar diretamente com o vírus, e produzir a proteína, foi necessário formar cristais com a molécula, uma forma de possibilitar a investigação de sua configuração por meio da cristalografia de raios X.

Com isso, foi possível chegar ao detalhe na menor escala possível, com a localização de cada um dos milhares de átomos que compõem a proteína.

De posse desse modelo, resta encontrar uma maneira de interferir com o funcionamento da polimerase e impedir a replicação genética.

Os pesquisadores de São Carlos não são os primeiros a adotar essa estratégia. “A farmacêutica Novartis há anos está tentando produzir um fármaco contra dengue focando na NS5 do vírus”, conta Oliva.

Embora a empresa tenha outra escala em termos de recursos financeiros e instalações, se comparada à universidade, ele não se sente em desvantagem.

“O que eles fazem, nós também fazemos na busca por uma molécula que bloqueie o sítio ativo da proteína”, afirma. Ele já sabe, na comparação entre a proteína do vírus Zika e a do vírus da dengue, que os respectivos sítios ativos apresentam diferenças importantes.

O fármaco que o grupo do CIBFar busca, portanto, seria específico para Zika. Com a publicação da estrutura cristalizada, ele espera contribuir para uma corrida em que diferentes laboratórios buscarão novos inibidores para a enzima NS5, candidatos a tratamento para a doença.