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Pesquisadores da Unifesp/BS estudam obesidade entre os santistas

Publicado em 03 março 2017

Por Nara Assunção

No início do ano, a reportagem Unifesp abre vagas para quem quer perder peso teve recordes de acesso no site boqnews.com. Foram mais de 60 mil. A procura pelas inscrições - que já se encerraram - continua até hoje e trouxe à tona um tema importante: a obesidade. A doença já é apontada como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS.

A projeção é que - se nenhuma mudança ocorrer -, em 2025 cerca de 2,3 bilhões de adultos estejam com sobrepeso e mais de 700 milhões se tornem obesos.

Para ajudar quem enfrenta dificuldades com a balança, o Grupo de Estudos da Obesidade (GEO), do Campus Baixada Santista do Instituto Saúde e Sociedade da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), coordenado pela professora doutora Danielle Caranti, atua desde 2010 com voluntários.

E não faltam interessados que se inscreveram na atividade. Evelise Galatro Faria, de 44 anos, 79 quilos, foi uma delas. Ela tem como meta perder pelo menos 20 quilos durante o processo. “Com apenas um metro e meio de altura, sofro bastante com o peso. Quero retomar principalmente a minha disposição. Não tenho problemas com o espelho, mas fico muito cansada. Não tenho tempo e disposição para me exercitar”, conta.

Ao todo, serão 32 semanas de acompanhamento - de março até o final do ano - em que Evelise fará parte de um dos três grupos que serão criados: Educação e Saúde, Tratamento Interdisciplinar e Exercício Físico. Os encontros, que ainda não começaram, acontecem no período noturno no Laboratório Interdisciplinar de Ciências Metabólicas, em Santos, e envolvem uma equipe interdisciplinar com mais de 30 profissionais.

Como funciona? Segundo a coordenadora e principal pesquisadora Danielle Caranti, este será o primeiro ano que conseguirão trabalhar com três grupos diferentes, tornando ainda mais desafiador o programa. “A escolha das pessoas em cada grupo será aleatória e não haverá contato entre elas. O objetivo é avaliar - sem interferências - em diversos aspectos os resultados de cada grupo”, explica. O formato chamado de estudo clínico randomizado ressalta a relevância da pesquisa e apresenta o maior grau de evidência. Muitos são os estudos científicos que nascem deste acompanhamento e que se tornam base para políticas públicas. O grupo possui financiamento da FAPESP e CNPq, organismos de apoio à pesquisa.

“A obesidade é uma doença multifatorial, degenerativa e que causa processo inflamatório crônico. Não tem cura”, destaca a pesquisadora e cofundadora do grupo em Santos, criado em 2010. O projeto nasceu em São Paulo com foco nos adolescentes e ao ser aplicado na Cidade mudou-se o público por conta do perfil populacional.

“Em Santos percebemos a necessidade de mudar o foco e trabalhar com pessoas mais velhas, que apresentam inclusive maiores dificuldades em perder peso”, explica Danielle, que destaca também a intenção da criação do Geo Kids, voltado para crianças.

Em razão da divulgação, este ano bateu recorde de voluntários. Ao todo, além de Evelise, são cerca de 100 mulheres e 25 homens que se propuseram a perder peso.

Prestígio internacional De alguns papers (artigos científicos) publicados de dentro do grupo, Danielle destaca um que está aceito na principal revista de nutrição do mundo - Nutrition - e mostra que as mulheres obesas mesmo após o tratamento, sendo orientadas, continuam apresentando quadros de subnutrição, estudo de doutorado conduzido pela pesquisadora Vanessa Poli.

Para Danielle, o País vive uma transição. “Deixamos de ser uma Nação de desnutrição, principalmente entre as crianças, para ser um país de obesos subnutridos”. O que isso significa? “Que os hábitos alimentares estão equivocados, com preferência aos industrializados e alimentos ultraprocessados, com altos valores de sódio e outros componentes nada saudáveis”, explica.

A pesquisadora destaca que o mesmo processo que ocorreu contra o tabagismo, com políticas públicas que conseguiram reverter os números, deve ser realizado - com o máximo de urgência - contra a obesidade. O intuito de todas as pesquisas e dos grupos é que se tornem modelos para serem aplicados em outros lugares e que políticas públicas sejam discutidas.

Danielle comenta que várias publicações mostram a melhora da qualidade de vida das pessoas que passam pelo programa. “Não existe um fator isolado, que mereça maior destaque. São vários associados que mostram o empoderamento do comportamento. Quando a pessoa perde de 20 a 30 quilos sem medicação ao longo de um ano é gratificante”, diz. ´E importante salientar que a média é perder de 5 a 10% do peso do início do tratamento. Alguns perdem mais, outros menos, mas o importante é ter um salto na qualidade de vida”.

Depois do tratamento Um dos estudos em andamento é do doutorando no Programa Interdisciplinar de ciências da Saúde, Stephan Garcia Andrade Silva, que está fazendo um acompanhamento de pessoas que passaram pelo programa há três ou quatro anos. Os dados até agora compilados não podem ser divulgados, pois não foram publicados e estão sendo captados. A ideia é saber o que aconteceu com as pessoas que passaram pelo tratamento. Seus resultados serão divulgados em revistas científicas.

Segundo Stephan, muitos voltam a ganhar peso, mas mesmo quem engordou registrou melhoras. “Independente do peso, estas pessoas ganham nos parâmetros que envolvem qualidade de vida e perfil psicológico. Nestes âmbitos não há decréscimo. E existem os que mantêm o peso e até o continuam perdendo”, destaca.