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Pesquisadores da Alemanha, Brasil e Japão discutem mecanismos para combater fraudes na ciência

Publicado em 20 julho 2017

Mecanismos capazes de frear fraudes, erros de conduta, manipulação de dados, plágios e metodologias deficitárias na ciência foram o centro das discussões da mesa-redonda “Ética na Ciência”, realizada no dia 17/7 durante a 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Universidade Federal de Minas gerais (UFMG), em Belo Horizonte (MG). O debate, organizado pelo Centro Alemão de Ciência e Inovação - São Paulo (DWIH-SP), foi moderado pela presidente da SBPC, Helena Nader, e reuniu pesquisadores da Alemanha, Brasil e Japão.

O pesquisador Jens Ried, diretor do Centro de Gestão, Tecnologia e Sociedade da Friedrich-Alexander-Universität (FAU), de Erlangen-Nuremberg, da Alemanha, defendeu a criação e o fortalecimento de comitês éticos nas instituições para que os casos de fraude sejam bem documentados, além de penas e sanções para os que agirem de má fé. “Para aumentar a ética, precisamos de mais profissionalização, institucionalização e padronização nos métodos de monitoramento na ciência. Também é preciso combinar esforços da comunidade cientifica, poder público e empresas”, ressaltou Ried, Na Alemanha, disse ele, 69% dos pesquisadores estão empregados na indústria.

No Brasil, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) implantou em 2011 o Código de Boas Práticas em Pesquisa para orientar os pesquisadores e evitar fraudes. “Os tipos de má conduta mais graves que registramos são fabricação, falsificação de dados e plágio”, contou o diretor científico da Fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz.

Quando as denúncias são comprovadas, as informações são publicadas no site da fundação com os nomes dos envolvidos. “Não queremos esconder, é importante que a sociedade saiba dos casos que foram culpados”, justificou Brito. “É preciso trabalhar na educação e prevenção, e suspeitas que precisam de investigação. E, claro, aplicar sanções”, adicionou.

Já o Japão criou um programa inovador de educação que “ensina” como fazer pesquisa com ética e integridade. A adesão ao programa é obrigatória a todos que se candidatam a um financiamento público. Segundo Satoru Ohtake, da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia (JST, na sigla em inglês), outra medida de combate às fraudes foi o desenvolvimento do software “The Lab”, que simula as decisões que precisam ser tomadas no dia a dia de um laboratório.

Ele lembrou que a falha, o erro, faz parte do processo investigativo. “Não tenham medo da falha, tentem. A falha, se feita de um jeito honesto, pode ser boa, pode levar a novos caminhos”, disse ele, encorajando os jovens pesquisadores a encarar os desafios éticos e a promover a ciência que ofereça soluções para a sociedade.

Desconfiança da sociedade – Como pano de fundo da discussão, foram relembrados casos que mostram que o problema não é novo, se agravou. “Em todo o mundo, notamos um ambiente que está dando menos valor à ciência e um azedume da população”, afirmou Brito Cruz, da FAPESP.

E a irritação da sociedade aumenta quando a má conduta se dissemina até nos núcleos do poder, como ressaltou Ried, da FAU. Ele relembrou o caso da ex-ministra alemã de Educação e Pesquisa Annette Schavan que, em 2014, teve o título de doutorado caçado após comprovações de plágio. Pelo mesmo motivo, em 2011, Karl-Theodor zu Guttenberg, ex-ministro alemão de Defesa, perdeu o título de doutor dado pela Universidade de Bayreuth.

No Japão, a confiança na engenharia e na ciência diminuíram de 10% a 20% depois do grande terremoto de 2011, seguido por tsunami que matou mais de 10 mil pessoas. “O conhecimento em sismologia não foi suficiente para lidar com a situação, os sistemas de alerta falharam e os erros do operador da usina atingida acabaram provocando o acidente nuclear”, listou Ohtake.

Para a pesquisadora Sonia Maria Ramos de Vasconcelos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a sensibilidade dos cientistas para a questão ética variou ao longo do tempo. Em contrapartida, houve o surgimento de códigos que passaram a orientar as pesquisas.

Ela exemplificou isso com experimento de Tuskegee, um projeto de pesquisa, iniciado em 1932, que se propôs a documentar o desenvolvimento natural da sífilis em 600 americanos negros e pobres, que viviam sob condições sanitárias precárias. Os participantes não receberam qualquer tratamento específico, ouviam apenas que tinham um “bad blood” e, por isso, estavam sendo estudados. Ao longo de 40 anos, com financiamento do governo, os resultados foram publicados em artigos e apresentados em congressos.

“Não havia sensibilidade dos pesquisadores para dar continuidade aos estudos”, comentou Vasconcelos. Em 1997, o então presidente Bill Clinton se desculpou publicamente sobre o caso, uma vez que houve diversas falhas éticas no estudo. Nas décadas seguintes, contou Vasconcelos, a preocupação aumentou e passou a ser refletida na forma como o artigo científico é concebido.

Em sua visão, o momento é propício para a retomada da confiança na ciência. “É importante que os cientistas estejam abertos, que tornem seu trabalho e seus problemas mais visíveis. Este é um grande momento para exercer transparência, discutir problemas. Os pesquisadores estão proativos e inclinados a desenvolver mecanismos para resolver essas questões.”