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Diário de Natal

Pesquisadores criam o primeiro órgão artificial 100% nacional

Publicado em 29 agosto 2011

Pessoas que sofrem de alguma doença cardíaca grave inevitavelmente convivem com a expectativa de que o coração falhe a qualquer momento. Em muitos casos, o tratamento com medicamentos não adianta mais e a única saída é o transplante. Nesse momento, em razão do estado avançado da doença, muitos desses pacientes não resistem ao tempo de espera, que pode durar meses, e morrem antes de serem submetidos à cirurgia. Pensando nisso, uma equipe multidisciplinar, encabeçada por especialistas do Instituto Dante Pazzanese de São Paulo, desenvolveu um dispositivo capaz de ajudar o órgão natural nas funções que se tornaram deficientes. O aparelho, batizado de coração artificial auxiliar (CAA), é o primeiro dispositivo brasileiro de assistência circulatória e a primeira máquina que permite que não haja a necessidade de remoção total do órgão natural.

O coração é o motor dentro do corpo que mantém tudo funcionando. Basicamente, trata-se de uma bomba muscular, que mantém o oxigênio e o sangue circulando pelo corpo. Em um dia, ele bombeia cerca de 7,5 mil litros de sangue. Como qualquer motor, se ele não for bem cuidado, pode falhar e bombear com menos eficiência, o que causa a chamada insuficiência cardíaca.

Nos casos mais graves da doença, a única saída para o paciente é o transplante de coração. Um coração novo, contudo, não aparece com facilidade. Isso cria uma fila de pessoas angustiadas, na qual grande parte não suporta o tempo de espera pelo novo órgão e morre. Sabendo dessa realidade, um grupo de pesquisadores se reuniu para desenvolver um aparelho que pudesse dar suporte aos pacientes na fila do transplante.

Coordenada pelo engenheiro mecânico Aron José Pazin de Andrade e pelo cirurgião cardiovascular Jarbas Dinkhuysen, do Instituto Dante Pazzanese, a equipe conseguiu desenvolver um dispositivo que ajuda qualquer função deficiente do coração, sem exigir que o órgão seja removido. O coração artificial auxiliar trabalha de acordo com o problema cardíaco do paciente. "Se ele não tem o ventrículo direito bom, o CAA atua na função deficitária. Isso vale tambémpara as outras câmaras do órgão, como os átrios", acrescenta Dinkhuysen, que é ainda chefe da Sessão Médica de Transplantes do Instituto Dante Pazzanese.

Outra vantagem do dispositivo brasileiro se dá com a não remoção do coração natural. Segundo o cirurgião cardiovascular, o uso do CAA pode fazer com que o órgão do paciente se recupere da própria deficiência. "Em alguns casos não tão graves, é possível até reverter o problema. É como se o coração doente reaprendesse sua função", explica Dinkhuysen.

Avanços

Os corações artificiais existentes - apenas dois tipos no mundo, produzidos nos Estados Unidos — até agora substituem por inteiro o coração doente. Contudo, segundo os especialistas envolvidos no estudo, o coração artificial é um risco para os pacientes, pois além do perigo de rejeição do órgão artificial implantado, pode haver falha mecânica dele. "Se essa falha ocorrer no coração artificial auxiliar, ainda há o coração natural, que, mesmo doente, suporta a vida até que seja feito o conserto necessário", explica Andrade. "Sem falar que a quantidade de sangue bombeado para os pulmões e para o corpo seria aquela demandada pelo organismo e não aquela que o coração artificial tem como limite. Isso quer dizer que, com o CAA, o paciente conseguiria ter uma qualidade vida mais próxima daqueles que são saudáveis", completa o cirurgião cardiovascular.

Além dos ventrículos, o CAA pode auxiliar também na função dos átrios, tornando seu uso ainda mais diversificado e alcançando um número maior de doentes. "Há pacientes com deficiência apenas em um dos átrios, por exemplo, que podem utilizar o dispositivo. Basta ajustar o tipo de funcionamento", diz Dinkhuysen.

A importância do coração artificial auxiliar, que teve as pesquisas financiadas pela Fapesp, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo Hospital do Coração e pela Fundação Adib Jatene, pode ser percebida quando se

olha para as estatísticas de óbitos relacionados a doenças cardiovasculares. Segundo prevê a Organização Mundial de Saúde (OMS), o índice de doenças cardíacas deve aumentar em cerca de 250% até 2040.

Essas enfermidades lideram o ranking de mortalidade no Brasil, com cerca de 300 mil mortes por ano. Em 2009, foram realizados cerca de 300 transplantes cardíacos em hospitais brasileiros — e milhares de pessoas aguardavam na fila para esse procedimento. "O coração artificial auxiliar é como se fosse uma ponte para o transplante, permanecendo junto do coração natural do paciente, num período de, no mínimo, 30 dias e, no máximo, um ano", explica o engenheiro Aron Andrade, também do instituto.

Espera

Após realizarem experimentos em cobaias animais, como camundongos e bezerros, os criadores do coração artificial auxiliar aguardam, agora, a autorização da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) do Ministério da Saúde para testes em humanos. A expectativa do grupo responsável pelo dispositivo, uma equipe formada por médicos, engenheiros, tecnólogos, biomédicos do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, de São Paulo, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade São Judas Tadeu, da Faculdade Armando Álvares Penteado, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos, e da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba, é que até o fim do ano comecem os testes.

Segundo Andrade, os primeiros implantes serão paracorpóreos (fora do corpo), com a conexão do coração natural em apenas um ventrículo artificial — no caso, o esquerdo, responsável pelo bombeamento do sangue para o corpo. "Esse ventrículo é, geralmente, o que faz mais esforço no coração. Por isso, costuma ser o mais lesado", esclarece. A opção por usar o coração artificial auxiliar fora do corpo é uma questão de segurança. "Caso haja uma falha mecânica, fica mais fácil de consertar sem colocar a vida do paciente em risco", justifica o engenheiro mecânico.

Numa segunda etapa, que deve ocorrer um ano após os primeiros testes em humanos, a equipe passará a fazer implantes dentro do corpo do paciente, na cavidade abdominal, com o acoplamento dos ventrículos artificiais, auxiliando as funções dos deficientes.

As indicações para os primeiros testes passarão pelas mãos de Jarbas Dinkhuysen, cirurgião cardiovascular responsável pela pesquisa. Segundo o médico, num primeiro momento, serão pacientes com miocardiopatia, candidatos ao transplante. Por que eles e não outros? Dinkhuysen explica: "Caso ocorra algum problema com o aparelho, o coração natural desse paciente pode dar conta". Futuramente, segundo o médico, o CAA poderá ser implantado em pacientes que não precisem, necessariamente, de um transplante. Ou seja, aqueles com situação cardíaca menos grave.

O primeiro paciente

Patrick Hora Alves, 10 anos, foi o primeiro paciente a receber um coração artificial no Brasil, em 23 de março deste ano. O menino tinha uma miocardia restritiva, doença que leva o coração a perder suas funções. Ele morreu 25 dias depois de passar pelo transplante.

Memória

Há 29 anos

Em 1982, o médico William Devries implantou o Jarvik-7, o primeiro aparelho projetado para ser um coração artificial. A cirurgia foi feita na Universidade de Utah, nos EUA, e o paciente era Barney Clark, dentista de Seattle. Clark viveu 112 dias com o coração, antes de sucumbir às complicações causadas pelo aparelho. O Jarvik-7 era um coração movido a ar, projetado por Willem Kolff e Don Olsen. Ele exigia fios externos, que se projetavam do paciente e se conectavam a uma unidade externa. A fiação causou infecções em Clark. Mais quatro pacientes receberam o Jarvik-7 antes de sua fabricação ser suspensa por causa de complicações, incluindo derrame e problemas de adaptação anatômica.