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Pesquisadores calculam carbono acumulado na Mata Atlântica

Publicado em 11 novembro 2008

De acordo com estudo publicado na revista Biota Neotropica, modelo alométrico é o melhor método para calcular estoques de carbono na Mata Atlântica. Estima-se que o desmatamento já tenha liberado 13 milhões de toneladas de carbono e restam ainda 900 mil toneladas.

A biodiversidade da Mata Atlântica é uma das maiores do planeta, mas sua importância não se limita à fauna e à flora abundantes que precisam ser preservadas. O bioma abriga também importantes reservas de carbono, que fica estocado nas florestas e no solo. Pesquisadores de várias universidades brasileiras e estrangeiras estão empenhados em quantificar os estoques de carbono nessas áreas e estimar a quantidade de carbono já liberado para a atmosfera em decorrência do desmatamento.

Um estudo publicado na revista Biota Neotropica indica os melhores modelos matemáticos para estimar a biomassa disponível na Mata Atlântica. A estimativa a partir de um dos modelos, segundo os autores, aponta que o desmatamento já pode ter liberado 13 milhões de toneladas de carbono na atmosfera e 900 mil toneladas ainda estão estocadas nas árvores.

O artigo é o resultado do workshop "Estimativa da biomassa e estoques de carbono: o processo de Mata Atlântica", realizado em 2006, em Ubatuba (SP), como parte de um Projeto Temático realizado pelo programa Biota-FAPESP, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

De acordo com Simone Aparecida Vieira, pós-doutoranda do Laboratório de Ecologia Isotópica do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da Universidade de São Paulo (USP), e uma das autoras da pesquisa, estocar carbono em florestas contribui para diminuir a concentração de CO2 na atmosfera. “As florestas tropicais podem desempenhar um papel fundamental na absorção do carbono, uma vez que armazenam grande quantidade dele na biomassa viva acima do solo”, disse Simone à Agência FAPESP.

De acordo com ela, o carbono da atmosfera pode ser armazenado na biomassa viva acima do solo, principalmente no tronco das árvores e na biomassa viva abaixo do solo, em particular nas raízes. “Dos organismos vivos, ele passa para os reservatórios de biomassa não-viva que incluem a serapilheira e a matéria orgânica do solo”, disse Simone.

Para estimar a biomassa, os pesquisadores utilizaram um modelo alométrico: uma equação matemática que relaciona algumas variáveis das árvores, como o diâmetro e a altura, com a biomassa. De acordo com Simone, para estimar a biomassa, os modelos usualmente empregados consideram apenas o diâmetro como variável. Já o modelo utilizado no estudo, segundo ela, traz resultados mais precisos, uma vez que acrescenta a densidade de madeira às duas variáveis de volume – o diâmetro e a altura.

“Esse modelo desenvolvido para a estimativa da biomassa nos parece o mais adequado, porque permite avaliar como variações sutis na composição florística e na altura média dos indivíduos – além da distribuição de freqüência de diâmetro entre florestas sujeitas a diferentes condições ambientais – influenciam no estoque de carbono”, disse.

Segundo ela, apesar de ter sido desenvolvido com base em dados de florestas tropicais situadas mais próximas do Equador, o modelo alométrico levou a resultados satisfatórios. “A partir dessa equação obtivemos - para uma floresta de Mata Atlântica da região nordeste do Estado de São Paulo - valores de biomassa viva acima do solo semelhantes aos obtidos de maneira direta, isto é, a partir do corte e da pesagem das árvores, em outras duas florestas de Mata Atlântica semelhantes à que nós estudamos”, afirmou.

A principal limitação de uso desse modelo, de acordo com a pesquisadora, diz respeito à obtenção das variáveis de altura e densidade da madeira. De maneira geral, nos inventários florestais apenas o diâmetro é medido, sendo a altura, quando muito, estimada.

“Além disso, nem sempre as espécies são identificadas. Por isso a densidade da madeira não pode ser definida, o que inviabiliza a utilização desse modelo. Nos casos onde se dispõe apenas do diâmetro, a melhor opção é utilizar um dos outros dois modelos disponíveis para esse bioma”, afirma.

De acordo com o estudo, para cada hectare de Mata Atlântica perdida, estima-se que sejam emitidas pelo menos 100 toneladas de carbono. Originalmente a Mata Atlântica cobria, segundo o estudo, uma extensão de 1,36 milhão de km2, e que deste total 93% foram desmatados.

“Podemos supor que pelo menos 13 milhões de toneladas de carbono foram liberadas para a atmosfera em decorrência do desmatamento. Da mesma forma, podemos supor que no que resta desse bioma possa haver estocado pelo menos 900 mil toneladas de carbono. Esses valores dão uma idéia da importância deste bioma no que se refere à ciclagem biogeoquímica do carbono”, disse Simone.

As pesquisas sobre carbono em Mata Atlântica estão em fase inicial, segundo a pesquisadora. Até o momento, apenas duas equações foram desenvolvidas para esse tipo de vegetação. Mas, de acordo com Simone, na Floresta Amazônica as investigações já estão mais avançadas, uma vez que “as pesquisas na Amazônia começaram há mais tempo”.

“Para a Amazônia, já temos, por exemplo, informações não só sobre os estoques, mas também sobre a dinâmica do carbono na vegetação e no solo e sobre o tempo de residência do carbono nos diversos compartimentos”, declarou.

Segundo ela, esse tipo de avaliação exige monitoramento de longo prazo e o “Programa Biota-FAPESP foi pioneiro nesse sentido, apoiando projetos de parcelas permanentes de Mata Atlântica do Estado de São Paulo. A longo prazo queremos ter não apenas uma estimativa do estoque de carbono em cada compartimento da floresta, mas também informações acerca da dinâmica do carbono, podendo inferir, com isso, o tempo de residência do carbono nesses compartimentos”, afirma.

Como essas florestas ocorrem ao longo de uma extensa área, com variações no clima e no solo, elas variam bastante ao longo do eixo norte-sul, assim como no eixo entre o litoral e o interior. “Pretendemos tanto mapear o estoque de carbono como a dinâmica desse elemento ao longo do bioma, correlacionando as variações observadas com os fatores abióticos como clima, tipo de solo, composição florística e até mesmo com as pressões antrópicas sobre a floresta”, concluiu.

Para ler o artigo Estimativas de biomassa e estoque de carbono: o caso da Mata Atlântica, de Simone Aparecida Vieira e outros, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), acesse o http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-06032008000200001&lng=pt&nrm=iso&tlng=en.