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Folha de Londrina online

Pesquisadores brasileiros e italianos descobrem novo elo na evolução humana

Publicado em 13 julho 2019

Curitiba - Uma pesquisa liderada por brasileiros e italianos, incluindo um professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), descobriu evidências de que os ancestrais humanos começaram sua dispersão além da África antes do que se pensava. O achado do grupo pode preencher uma lacuna na evolução humana e ajudar a explicar a diversidade dos fósseis de hominídeos encontrados na Ásia.

Os cientistas encontraram no vale do rio Zarqa, na Jordânia, pedras lascadas depositadas em formações que chegam a 2,48 milhões de anos. Trata-se de uma evidência da presença de hominídeos na região conhecida como Levante, no Oriente Médio, que é considerado o “corredor natural” entre a África e a Ásia. Os artefatos antecedem em cerca de 300 mil anos as evidências mais antigas fora da África até então, encontradas na China. A data sugere que os artefatos não foram feitos pelo Homo erectus, considerado o ancestral humano mais antigo fora do continente.

A descoberta será publicada na primeira edição de setembro da revista científica “Quaternary Science Reviews” e foi oficialmente divulgada na última segunda-feira (8). Na quinta (11), o arqueólogo italiano Fabio Parenti, desde 2011 professor da UFPR, falou sobre a pesquisa para uma plateia de cerca de 80 pessoas no Museu Paranaense, em Curitiba. “Há 25 anos estou mostrando essas pedras e é a primeira vez que tenho mais de oito pessoas na plateia”, brincou, em uma entrevista concedida à FOLHA antes de uma segunda sessão, marcada por excesso de procura.

O grupo de pesquisadores — que inclui Walter Neves e Astolfo Araujo, da USP (Universidade de São Paulo), e Giancarlo Scardia, da Unesp (Universidade Estadual Paulista) — foi ao vale no rastro de um antigo projeto de Parenti. O arqueólogo já havia escavado o local nos anos 1990 a convite de uma equipe italiana. Ao longo de cerca de três anos, encontrou centenas de artefatos e até fósseis de animais (embora poucos e “por sorte”) no vale. Quando chegou ao Brasil, afugentado pela queda de financiamento a pesquisas na Itália nos anos 2000, apresentou o projeto aos colegas na USP, onde lecionava como visitante.

Neves obteve financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e o grupo saiu em missões entre 2013 e 2015 — período em que descobriram que o sítio era bem mais antigo do que o milhão de anos estabelecido por uma equipe francesa ainda nos anos 1980. A nova datação, que é uma peça-chave para todo o barulho em torno da descoberta, foi feita por meio de técnicas como o paleomagnetismo.

Parenti diz que os significados do novo marco encontrado pelo grupo ainda são difíceis de serem dimensionados. Ele diz que tende a ver o Levante como um possível berço evolutivo, embora não chegue a sugerir, como faz Neves, com base nas datas dos fósseis documentados na África, que as pedras foram lascadas pelo Homo habilis — ancestral anterior ao H. erectus, até então o hominídeo mais antigo encontrado na Eurásia.

Na falta de fósseis na região, diz apenas que “primatas com estrutura neurológica para a fabricação de artefatos” estiveram ali, mas que não se sabe “quem” eram — já que diferentes espécies de australopitecos viveram na mesma faixa cronológica.

O H. habilis, contudo, seria o melhor candidato a autor dos instrumentos — e, portanto, a primeiro ancestral a se aventurar fora da África. Ele seria o elo para resolver o problema da diversidade na Ásia, onde foram encontrados crânios muito diferentes — todos atribuídos ao H. Erectus, cujo fóssil mais antigo fora da África tem 1,8 milhão de anos e foi encontrado em Dmanisi, na Geórgia.

“Crânios muito diferentes com a mesma datação, naquela época, são indícios de uma antiguidade de povoamento. E nós provamos que alguém já tinha passado por lá muito tempo atrás”, explica Parenti. “A idade explica a diversidade na Ásia”, diz. “Aos poucos, está sendo desmantelado o modelo da ‘Out of Africa 1’”, explica, referindo-se à teoria que sustenta que a espécie não migrou da África antes do H. sapiens.

“Há a possibilidade de o Oriente Médio ter fornecido espécies em ambas as direções”, especula Parenti. “É um corredor biogeográfico e, como tal, um possível local de hibridização de espécies. Mas tudo isso é papo enquanto não há fósseis”, comenta. Segundo o arqueólogo, a região não conserva bem os fósseis. Logo, a probabilidade de descoberta é incerta. Contudo, o italiano ainda pretende cavar mais fundo, no sentido figurado. “Se encontrar um fóssil, concluiria a carreira com algo glorioso. Fósseis humanos são raros, o que explica por que são cobiçados, geram tanta briga, ciúme, assassinatos”, conta. “Não entro nessa. Fico com minhas pedrinhas. Se achar um fóssil vou chamar um paleontólogo e ele se vire com os colegas”, diz.

O retorno ao vale, em 2020, está "praticamente" acertado. Desta vez, se depender de Parenti, com a participação de colegas na UFPR. O italiano ainda é o único que cuida de pré-história antiga no departamento de Antropologia da universidade. Diz que gostaria de ver a abertura de um curso de Arqueologia — mas reconhece que o momento não é o mais propício. Diz, contudo, que tem tido na instituição e no País um apoio que já não tinha na Itália. A implantação de uma “escola” de arqueologia paleolítica brasileira também está entre os planos do grupo a longo prazo, mas a visão do arqueólogo sobre a área é global. “Que seja Jordânia, que seja Brasil. Que importa? O importante é que seja bem feito”, defende.