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Pesquisadores apontam que 12 milhões de hectares de vegetação nativa podem ser recuperados no Brasil

Publicado em 29 agosto 2019

Contudo, os estudiosos pontuam que o fim da obrigatoriedade da reserva legal e as reduções de multas causariam grandes perdas ao ambiente

Nos últimos 30 anos, o Brasil perdeu 71 milhões de hectares de vegetação nativa em razão do desmatamento descontrolado e de queimadas, entre outros fatores que colaboraram para a erosão do solo, tornando-o inutilizável para qualquer tipo de atividade econômica. Apesar dos números impactantes, o relatório Restauração de Paisagens e Ecossistemas aponta que é possível recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, no Brasil. Isso significaria tirar da atmosfera 1,3 megatonelada de CO2. As informações são da Agência Fapesp.

O estudo é fruto de uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), apoiada pelo programa BIOTA-FAPESP, e o Instituto Internacional de Sustentabilidade (ISS), e foi elaborado por um grupo de 45 pesquisadores, de 25 instituições do país.

O levantamento faz uma série de apontamentos de ordem prática e destaca que o Brasil, ao alavancar a restauração e a recuperação da vegetação, impulsiona a geração de ganhos socioeconômicos e ambientais. Os pesquisadores destacam que, para essa guinada acontecer, é preciso que haja um conjunto de políticas públicas consistentes. E reforçam a necessidade de reduzir o desmatamento e de promover a conservação da biodiversidade.

Além disso, pontuam que o fim da obrigatoriedade da reserva legal, as reduções das alternativas de conversão de multas e a extinção dos fóruns de colaboração e coordenação entre atores governamentais e da sociedade seriam perdas irreparáveis para uma política de adequação ambiental.

Crescimento sustentável

Os pesquisadores assinalam ainda que mercados internacionais consumidores de produtos agrícolas, cada vez mais, são guiados pela produção e pelo consumo sustentáveis, o que implica o não consumo de itens provenientes de áreas desmatadas. Eles ressaltam também que a pecuária sustentável é fundamental para aumentar a produtividade do setor e liberar áreas agrícolas de menor produtividade para o cumprimento de leis e metas ambientais, afirmou à Agência Fapesp Ricardo Rodrigues, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP)

— Três quartos da área agrícola brasileira são ocupados hoje pela pecuária, com baixíssima produtividade média. Se tivéssemos uma boa política agrícola, voltada à tecnificação da pecuária, seria possível aumentar a produtividade da atividade e, assim, liberar pelo menos 32 milhões de hectares de pastagem para outras culturas, mantendo a mesma quantidade de cabeças de gado atual — disse Rodrigues.

O levantamento aponta que para atender a todas as metas de produção agrícola e florestal, de desmatamento ilegal zero e de recuperação da vegetação nativa no Cerrado, por exemplo, bastaria sair dos 35% vigentes para 65% do seu potencial sustentável até 2050 para harmonizar expansão agrícola sustentável e restauração em áreas prioritárias.

Biodiversidade é uma das chaves para o processo

Para os pesquisadores, o aumento da produtividade nas áreas agrícolas e a adoção de modelos econômicos alternativos nas áreas com menor potencial agrícola também são essenciais para impulsionar os benefícios financeiros diretos e indiretos em curto prazo.

Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que o Brasil tem uma oportunidade de desenvolver um programa de recuperação da vegetação nativa para áreas florestadas da Mata Atlântica e da Amazônia. Isso porque o país pode contar com uma grande diversidade de espécies em projetos de restauração.

— Além das vantagens comuns, como a melhoria da estabilidade do solo e o aumento na retenção de água e, consequentemente, maior recarga de aquíferos, um programa de restauração com alta diversidade de espécies permite incluir plantas que podem ser fontes de alimentos ou que são importantes para manutenção de polinizadores, como abelhas — explica o professor.