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MCTIC - Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações

Pesquisadores acreditam em alternativas ao uso de animais nas atividades de ensino das universidades

Publicado em 05 outubro 2016

A coordenadora do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), Monica Levy Andersen, acredita na redução e na substituição de animais em atividades de ensino. No simpósio sobre o tema, que o Concea realiza até quinta-feira (6) em São Paulo (SP), ela defendeu a adoção de métodos alternativos nos laboratórios e salas de aula das universidades e instituições de ensino do país.

"Durante décadas, o uso de animais em educação teve como alicerce a transferência de conhecimento e habilidade aos alunos. Assim como os livros, os animais eram – e ainda são – considerados ferramentas para o aprendizado. Contudo, com o crescimento das preocupações éticas, o emprego de organismos vivos em ensino tornou-se foco de debate, tanto no Brasil como no exterior", disse Monica. "Acreditamos que os estudantes podem, sim, ser apresentados a outras formas de aprendizado e que os professores podem incorporar métodos alternativos no cotidiano dos laboratórios e das salas de aula."

O pró-reitor de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), José Eduardo Krieger, expressou a preocupação da USP com o tema. "Há demandas da sociedade local e mundial para readequar ensino e pesquisa à medida que novas tecnologias apareçam, em busca de transpor barreiras e limites e fazer com que determinados modelos, que antes eram os únicos que podiam ser utilizados, agora sejam agregados a outros ou mesmo substituídos."

Já o coordenador adjunto da Diretoria Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Walter Colli, declarou que a agência está aberta a receber projetos para estudar métodos alternativos. "A Fapesp lida com pesquisa, e esse simpósio trata de ensino, mas essas duas partes são indissociáveis nos estágios superiores de formação profissional ou mesmo na iniciação científica, durante a graduação", explicou. "Temos recebido pedidos de bolsas para mestrado e doutoramento, bem como de auxílio a grupos que experimentam modelos em várias linhas de atuação biológica."

Segundo Colli, a Fapesp apoia projetos com embriões do peixe conhecido como paulistinha ou zebrafish (Danio rerio) e a traça grande da cera (Galleria mellonella), organismos capazes de substituir pequenos mamíferos em ensaios de patogenicidade e toxicologia. "Outros grupos estudam pele artificial para teste de cosméticos", contou. "E assim nós vamos indo, rumo à substituição gradual, quanto mais rápida melhor, dos animais de laboratório para pesquisa."

Anseios sociais

Diretor da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Francisco Laurindo reforçou que a produção de conhecimento não pode se dissociar da coletividade. "A ciência está intimamente ligada aos anseios sociais e é feita para a sociedade. Hoje, nós sabemos que há uma demanda popular, cada vez maior, pela redução do uso de animais em pesquisa científica e no ensino."

Laurindo destacou o princípio dos 3 Rs, que representam os conceitos de substituição (replacement, em inglês), redução (reduction) e refinamento (refine). A união das três definições propõe minimizar o uso de animais e o seu sofrimento, sem comprometer o rigor científico das pesquisas. "A academia está muito sintonizada com isso e quer não só discutir e avançar, no sentido de conciliar as divergentes opiniões, mas particularmente compartilhar o uso da criatividade de todos nós na busca de soluções alternativas, éticas e modernas."

Na visão da secretária da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em São Paulo, Roseli de Deus Lopes, o planeta avançou bastante em termos de desenvolvimento tecnológico em métodos alternativos, "mas ainda há muito para ser feito". Ela definiu o simpósio do Concea como uma oportunidade "não só para disseminar o que já existe, mas para provocar também que outros entrem nesse tema, para que a gente possa desenvolver mais métodos, mais materiais e mais tecnologias que propiciem redução do uso de animais e mais ambientes de qualidade para estudos e pesquisas".

O presidente da Comissão Nacional de Especialidades Emergentes (CNEE) do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), Carlos Alberto Muller, informou que a entidade oferece cursos à distância gratuitos em torno de métodos alternativos e implementa, desde 2015, um acordo de cooperação técnica assinado junto ao Concea, com duração prevista de cinco anos.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo (CRMV-SP), Mário Eduardo Pulga, nem sempre a sociedade entende o papel de ensaios científicos com animais. "O CRMV possui hoje 20 comissões assessoras – três delas conversam e nos informam acerca desse tema", comentou. "Ouvimos com muita atenção as sugestões e as orientações."

Pulga enfatizou a necessidade da presença de veterinários em biotérios e ambientes de experimentação, a fim de garantir o bem-estar animal e a saúde pública. "Precisamos de capacidade para tratar o tema como ciência e escutar as demandas da sociedade. Nós nos formamos para cuidar bem dos animais."

Criado em 2008, o Concea é uma instância colegiada multidisciplinar de caráter normativo, consultivo, deliberativo e recursal. Dentre as suas competências destacam-se o credenciamento das instituições que desenvolvam atividades no setor e a formulação de normas relativas à utilização humanitária de animais com finalidade de ensino e pesquisa científica, bem como o estabelecimento de procedimentos para instalação e funcionamento de centros de criação, de biotérios e de laboratórios de experimentação animal.

Fonte: MCTIC