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Pesquisadoras revelam os desafios das mulheres para fazer ciência

Publicado em 10 fevereiro 2021

Por Redação

No mundo todo, elas são maioria em sete áreas do conhecimento e na USP, são maioria na pós-graduação; no geral, a desigualdade de gênero permanece nas publicações e citações

A ideia de produzir uma pesquisa hermética, inacessível para o público que a patrocina e desfruta de suas eventuais contribuições, foi uma realidade da ciência até o início da Era Moderna. Falando para si e seus pares, a “ciência pura” e “fora de qualquer intervenção do mundo social”, como apontou o sociólogo francês Pierre Bourdieu, expandiu seu circuito de comunicação com o surgimento das publicações científicas.

Apesar de ter ampliado a rede de contatos dos cientistas, a distribuição do capital científico nunca foi equânime entre os gêneros. Mesmo no Ocidente, as mulheres permaneceram excluídas do acesso à educação formal por muito tempo. Tempo suficiente para afetar a representatividade delas até os dias atuais.

Como meta para o desenvolvimento sustentável, a Assembleia Geral da ONU definiu o dia 11 de fevereiro como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, buscando incentivar o acesso e a participação feminina de forma igualitária. Mas ainda assim, apenas 30% das estudantes que ingressam na universidade escolhem carreiras relacionadas ao STEM – sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Ser mulher implicou que eu tivesse uma profissionalização mais tardia. E como mulher e mãe, minhas experiências internacionais foram limitadas, tornando minha carreira uspiana e brasileira. Fui a segunda titular da história da Sociologia, muitos anos depois da primeira, que era a professora Eva Blay, uma militante feminista. E a pergunta que fica é: por que as mulheres não chegaram lá? Isso tem uma profunda relação com o gênero. A sociologia, como as carreiras, no geral, nas universidades, são masculinas. Quando aparece uma mulher dirigindo uma instituição dominantemente masculina, aquilo vira um exemplo de celebração. Mas é preciso ver quantas chegaram lá! Temos que ter consciência de que são exceção, não pode ser usado como um índice de ascensão feminina"

Maria Arminda do Nascimento Arruda, socióloga, coordenadora do escritório USP Mulheres

Participação x Representatividade

Um relatório da Elsevier intitulado “ A jornada do pesquisador através de lentes de gênero ” foi atualizado em novembro do ano passado pela empresa, que domina o cenário mundial das publicações científicas. O estudo examinou a participação em pesquisas, progressão na carreira e percepções em 26 áreas temáticas de toda a União Europeia e em 15 países, incluindo o Brasil.

De acordo com o levantamento, embora a participação das mulheres na pesquisa esteja aumentando em geral, a desigualdade permanece entre os países de origem e em áreas temáticas em termos de resultados de publicações, citações, bolsas concedidas e colaborações. Em todos os países, a porcentagem de mulheres que publicam internacionalmente é menor do que a de homens.

Em termos de citações – que apontam o quanto uma publicação é relevante para os pares – também há uma diferença de gênero sobre como são acumuladas: trabalhos de autoria de mulheres são citados com menos frequência do que de homens. Eles são mais bem representados entre os autores com uma longa história de publicação, enquanto as mulheres são altamente representadas entre os autores com uma curta história de publicação. Isso afeta o chamado “Índice H” do pesquisador.

“Se um pesquisador publica muito, mas é pouco citado, ou se recebe muitas citações, mas publica um número limitado de artigos, terá um índice h baixo”, explica Elizabeth Dudziak, doutora em engenharia de produção e especialista em ciência da informação da Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica (Aguia). A partir do relatório da Elsevier, a Aguia destaca as áreas temáticas em que as mulheres do Brasil são maioria.

Elas na Ciência

A partir de dados indexados na base Scopus – um dos maiores bancos de dados de resumos e citações da literatura revisada por pares – a Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica identificou os 500 autores USP com maior número de publicações entre 2015 e Janeiro de 2021. Os dados sobre a produção científica são obtidos por meio do número total acumulado de itens publicados no período.

Entre os 500 top autores 131 são mulheres

Marisilvia Donadelli é a mulher com o maior índice de produção acadêmica da lista, ficando atrás apenas do primeiro colocado da lista geral, Marco A. Lisboa Leite. Já a pesquisadora com maior número de citações, no período, é Isabela Judith Martins Benseñor, citada em um recorde de quase 37 mil publicações.

No ano de 2020, as cinco autoras mais citadas em artigos científicos foram das biológicas, na área da saúde

Em primeiro está Ludhmila Abrahão Hajjar, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com o artigo Efeito de doses altas versus baixas de difosfato de cloroquina como terapia adjuvante para pacientes hospitalizados com síndrome respiratória aguda grave Infecção por Coronavírus 2 (SARS-CoV-2): um ensaio clínico randomizado . A pesquisadora foi uma das duas uspianas premiadas na nona edição do prêmio Para Mulheres na Ciência, uma parceria da L’Oréal com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

De acordo com Elizabeth Dudziak, publicações de áreas como a medicina, em geral recebem mais citações, se comparadas às Ciências Sociais e Humanidades, pela característica das próprias áreas.

De olho na pós-graduação

Na USP, há mais mulheres do que homens à frente da pesquisa científica - tanto na pós-graduação, quanto no pós-doutorado

Pós-graduação + pós-doc: no ano de 2019 946 pelo CNPq, 707 pela Fapesp

Elas ainda estão na graduação, mas já iniciaram sua participação no mundo científico. Pedrina e Gabriela são estudantes de engenharia na USP e desenvolvem pesquisas através de projetos de iniciação científica e tecnológica. As jovens sentem falta da presença de mais mulheres nos seus cursos, entretanto, ressaltam iniciativas na Universidade que buscam atrair mais meninas para a ciência, tecnologia, engenharia e matemática, além de um ambiente mais igualitário.

Pedrina Vitória Assis Correia

20 anos, 2º ano de Engenharia Civil na Escola Politécnica (Poli) da USP

A futura engenheira civil tem como linha de pesquisa a segurança viária na BR 116 – Rodovia Régis Bittencourt. A proposta é estudar formas de reduzir o número de mortes no trânsito da rodovia analisando as condições do pavimento em quatro trechos experimentais. O trabalho é orientado pela professora da Poli Cláudia A. Soares Machado.

Eu fiz o meu ensino médio no Instituto Federal de Alagoas, na cidade em que eu nasci, Palmeira dos Índios, e lá eu vi uma amiga e uma professora ganharem grande destaque e visibilidade com uma pesquisa que fizeram, e esse fato foi o meu primeiro grande incentivo.

Às vezes, fico em dúvida sobre qual carreira seguir por saber como a pesquisa é desvalorizada na sociedade brasileira. O número de mulheres que entra em carreiras de engenharia é cerca de 1/5 do número de homens. Sabendo disso, não consegui ficar tranquila com essa realidade, e assim que passei na Poli entrei no projeto social Elas pelas Exatas que visa trazer e manter mais mulheres nas carreiras de STEM.

Contrariando as estatísticas, a minha trajetória na Poli, até hoje, tem sido, majoritariamente, ao lado de mulheres incríveis. Conheci meninas incríveis dentro e fora da Poli e dentro de casa, eu sempre tive todo o apoio da minha mãe para enfrentar qualquer dificuldade. Assim, eu acredito que criei uma rede de mulheres ao meu redor que não me deixa ter dúvidas em seguir na carreira de engenharia, apesar do machismo que ainda resiste”

Gabriella Arbulu Cury

18 anos, 2º ano de Engenharia Mecatrônica na Escola Politécnica (Poli) da USP

Ela participa de um projeto de pesquisa que busca elaborar um robô hospitalar para ser utilizado no Hospital Universitário da USP, em São Paulo. O robô realizará o transporte de exames, coletando-os no ponto de origem e levando-os até o destino final, e o acompanhamento de pacientes entre locais do hospital, direcionando-os e mostrando o trajeto a ser feito. O estudo é orientado pelo professor da Poli Leopoldo Rideki Yoshioka

Lembro que, nos meus primeiros dias na Poli, fiquei chocada com a quantidade tão pequena de meninas na minha sala de aula e nos corredores dos prédios. Apesar de já saber da predominância masculina na engenharia, foi um baque ver isso.

Na Poli, só 17% das alunas são mulheres, e em Mecatrônica – curso que eu faço – essa porcentagem diminui para cerca de 10%. É muito legal ver que essa presença feminina na engenharia aumenta a cada ano e quebrando o estereótipo de exatas ser “coisa de homem”, mas, ainda assim, essa presença está bem longe de ser grande.

Apesar da Poli ser majoritariamente masculina e eu já ter vivenciado algumas situações de machismo lá dentro, é um ambiente mais conscientizado do que eu imaginava. Essa conscientização é fruto, em grande parte, do posicionamento e de iniciativas das minorias lá de dentro. Por exemplo, todos os centros acadêmicos possuem sua CCO (Comissão Contra Opressão), composta de mulheres e membros da comunidade LGBTQI+. Essas comissões buscam se posicionar contra atos de preconceito, fiscalizar festas e também possuem ouvidoria para denúncias. Inclusive, faço parte da CCO do meu centro acadêmico e enxergo sua importância e efeito prático.

Já no projeto, apesar de eu ser a única participante mulher, só tive experiências boas. Nunca duvidaram da minha capacidade ou me privaram de certas tarefas por ser mulher. Mas sinto falta de mais garotas no projeto, adoraria ver mais meninas como pesquisadoras na faculdade!”

No ano passado, o governo federal mudou a regra de concessão de bolsas de iniciação científica, excluindo projetos de ciências humanas, sociais e artes. As novas regras afetam também projetos interdisciplinares. O Programa de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do CNPq, órgão do MCTIC, contempla cerca de 25 mil bolsistas. De acordo com o portal Direto da Ciência, ao menos 7.625 dos contemplados em 2019 eram das humanas. A medida pode desestimular o ingresso de jovens na carreira acadêmica.

Na educação de meninas, ainda há uma antiga ideia de que as meninas não servem para matemática ou filosofia. Basta ver a Filosofia da própria Universidade: são 2 professoras entre quase 40 homens. Isso tem que mudar! Essa data é importante, porque marca um processo de educação. As humanas, por exemplo, são tratadas como dispensáveis mas os fenômenos que vemos hoje com a pandemia, apenas as ciências humanas e estudos interdisciplinares conseguiram explicar: as desigualdades sociais, o efeito da pandemia sobre o coletivo, formas de preconceito, a questão do gênero. Na biologia, os estudos entre os primatas observavam conflitos e disputas de território. Quando as mulheres começaram a entrar em massa, passou-se a observar cuidado com a cria, relações afetivas. A mulher cientista tem um enorme compromisso com o mundo, com a ruptura da desigualdade; este é um lugar a partir do qual ela pensa todas as outras desigualdades”

Maria Arminda do Nascimento Arruda, socióloga, coordenadora do escritório USP Mulheres

A professora conta que as ações do Escritório USP Mulheres devem apoiar a construção de políticas, entre elas os impactos da pandemia para as mulheres, o protocolo de atendimento para casos de violência de gênero e a parceria com outras instituições ligadas à igualdade de gênero, dentro e fora das faculdades.

Elas na pandemia

Por trás dos dados de participação delas no cenário científico, há um cenário de disparidade de gênero na carreira acentuado pela pandemia. Um levantamento do Parent In Science mostrou que a pandemia de covid-19 afeta mais a produtividade acadêmica de mulheres negras (com ou sem filhos) e mulheres brancas com filhos (principalmente com idade até 12 anos).

ROSANA RICHTMANN

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MARIA AUXILIADORA MARTINS

Intensivista, Coordenadora da Residência Médica em Medicina intensiva do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP)