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Pesquisadora reúne e organiza acervo sobre folclore brasileiro

Publicado em 27 setembro 2003

A pesquisadora Edilene Matos, professora de literatura brasileira na PUC de São Paulo, traz no semblante ares de missão cumprida. Pelo menos, uma delas. Por dois anos, ela passou confinada no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), na USP. Lá, debruçou-se sobre 22 pastas e 633 textos de extração popular, que compõem o acervo Fundos Villa-Lobos, parte integrante do Arquivo Mário de Andrade, do IEB. Organizou e classificou todos esses documentos. Tema da pesquisa de pós-doutorado de Edilene, supervisionado pela pesquisadora do IEB Telê Ancona Lopez (autoridade nos estudos relacionados a Mário de Andrade no Brasil), os Fundos representam uma pequena relíquia: preservam registros das mais variadas manifestações da cultura popular brasileira. "É uma miscelânea de textos", comenta a pesquisadora. Segundo ela, são folhetos de literatura de cordel, em sua grande maioria, além de poemas, repentes, algumas partituras, entre outros materiais, na forma de manuscritos e datiloscritos. Um rico - e inédito - material colhido por músicos como Donga e Pixinguinha durante suas andanças pelo Brasil, nas primeiras décadas do século 20. A encomenda partiu dos abonados industriais e mecenas Arnaldo e Carlos Guinle, no Rio, que financiaram a ida desses músicos ao Norte, Nordeste e interior do País, na busca de textos e canções folclóricas. O maestro Heitor Villa-Lobos, respeitado pela genialidade e interessado na cultura popular brasileira, foi convidado a organizar todo esse material. Aceitou a empreitada, mesmo porque pensava em ser subsidiado numa segunda temporada em Paris. O maestro começou a organizar o material em 1927. A proposta dos Guinle era de que todos os documentos fossem disponibilizados ao público. Assim, Villa-Lobos planejou lançar três volumes a partir dos Fundos: o primeiro seria só sobre música, com capítulos dedicados ao folclore dos índios, dos caboclos, dos pregões, das crianças e dos chorões; e segundo e terceiro, sobre poesia e dança. "Villa-Lobos era um caso raro de músico que se desenvolveu simultaneamente no popular e erudito. Ele se sentia à vontade numa roda de chorões ou numa orquestra sinfônica", analisa o musicólogo Manoel Correa do Lago, estudioso do maestro. O maestro definia a empreitada que lhe era proposta - a de dar uma coerência àquela desordenada pesquisa de campo - como "uma promessa indeclinável". Não conseguiu cumprir. Não tinha tempo e pensou, então, no amigo Mário de Andrade, para dar andamento ao projeto. "Villa-Lobos tinha profundo respeito e amizade por ele", diz Edilene. "Na correspondência que o maestro enviou para Mário, diz que o amigo era quem deveria ficar encarregado dos Fundos", completa ela. Na tal carta, datada do natal de 1928, o músico afirmava ainda que estava lhe entregando todo seu "compromisso", para conseguir finalizar Alma Brasileira, título de um trabalho seu ligado aos temas folclóricos do Brasil. Vale um parênteses sobre relação de amizade entre dois ícones do Modernismo brasileiro. Se durante a década de 20, havia uma cumplicidade tênue entre ambos, nos anos 30, divergências políticas tornaram a correspondência mais espaçada. "Mas Mário sempre teve lucidez para separar o músico da pessoa", conta o musicólogo Correa do Lago. "Entre eles, houve mais amizade e interação que ruptura e afastamento." Escritor, ensaísta, professor de piano, jornalista, folclorista, entre outras muitas atribuições, Mário de Andrade aceitou de bom grado a missão. "Villa-Lobos sabia que Mário era um pesquisador da cultura brasileira e da música, em específico", descreve a musicóloga do IEB, Flávia Camargo Toni. Edilene Matos calcula que os Fundos Villa-Lobos tenham chegado às mãos de Mário em 1929, um ano depois das viagens etnográficas que o escritor empreendeu pelo Norte e Nordeste do Brasil, onde coletou e pesquisou farta documentação da cultura popular. Segundo a pesquisadora, o folclorista leu todo o material e fez suas habituais anotações. Estava empenhado em cumprir a empreitada. Sua morte prematura, entretanto, em 1945, abortou vários projetos, inclusive este. O arquivo pessoal do escritor, no qual se encontravam os Fundos Villa-Lobos, permaneceu com sua família e foi adquirido pela USP, em 1967. Os Fundos nunca chegaram aos Guinle. Na década de 80, a pesquisadora Ruth Terra lançou o livro A Literatura de Folhetos nos Fundos Villa-Lobos, com apresentação e listagem dos documentos encontrados no acervo. Anos mais tarde, Edilene se inspirou na iniciativa da colega e decidiu ampliar a pesquisa, como bolsista da Fapesp. Seu trabalho vai virar livro e arquivo em CD ROM. Após o fim da atual reforma do IEB, o material estará disponível para a consulta pública. Como a família Guinle tanto desejava. (Agência Estado)