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Pesquisadora de MS fala sobre seu trabalho na busca pela cura do câncer

Publicado em 07 janeiro 2016

A entrevistada da semana do Dourados News é a sul-mato-grossense e pesquisadora Edmarcia Elisa de Souza, 31, que venceu o Prêmio Capes-Interfarma 2015 de Inovação e Pesquisa. A honraria é um reconhecimento por suas descobertas, que abre “novas frentes de pesquisa para o desenvolvimento de medicamentos mais eficazes para contrastar o surgimento do câncer em humanos”, como relatou.

Ela falou sobre como seu trabalho tem impacto na constante busca no tratamento e cura para esta doença, mas ressalta que ainda há “muito para avançar na descoberta de novas drogas contra o câncer”.

Edmarcia ainda comentou sobre o campo de trabalho para cientistas no Brasil e em Mato Grosso do Sul, ressaltando que o Estado ainda investe “recursos limitados em pesquisa”. Ressaltou ainda que a pesquisa de qualidade ainda é um grande desafio no país, já que também há pouco investimento em âmbito nacional e falta de regulamentação profissional para os cientistas.

A sul-mato-grossense nasceu em Glória de Dourados, porém morou até os 17 anos de idade no sítio dos pais, que fica na 10ª Linha Poente, pertencente a Culturama, distrito de Fátima do Sul. Ela começou sua carreira acadêmica pela graduação em Ciências Biológicas na Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), em Dourados.

Fez ainda aperfeiçoamento em Hemoterapia pelo Hemocentro do Hospital das Clínicas da Faculdade Medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Botucatu (SP); mestrado em Genética pelo Instituto de Biociências, também pela Unesp; doutorado em Biologia Funcional e Molecular – Bioquímica pelo Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), atuando no LNBio (Laboratório Nacional de Biociências), que integra o CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais) em Campinas (SP).

Realizou ainda parte de seu doutorado no Molecular Medicine Laboratory, University of Massachusetts Medical School, USA, onde trabalhou com pesquisa de ponta visando desvendar os mecanismos da divisão de uma célula, cuja a desregulação é associada ao surgimento de câncer em humanos.

Dourados News – Sobre o que trata a pesquisa que lhe rendeu o prêmio Prêmio Capes-Interfarma 2015 de Inovação e Pesquisa?

Edmarcia Elisa de Souza O câncer é uma doença complexa caracterizada primariamente pela desregulação de mecanismos que governam o corpo humano tais como a proliferação, a diferenciação e a divisão da célula humana. A proposta de minha tese de doutorado foi estudar a função de um tipo de proteína, denominada Nek7 quinase, em doenças humanas. Para a realização da pesquisa, nós empregamos técnicas de ponta como a microscopia confocal combinada com reconstrução tridimensional de imagem, que permitem a análise da divisão de uma célula humana no seu estado vivo e em tempo real. Com isso, nós pesquisamos o papel da proteína Nek7 na divisão de células humanas e sua associação com o câncer. Nós realizamos um trabalho de excelência científica no Brasil.

D.N. – Além do prêmio, seu trabalho vem sendo reconhecido em importantes espaços internacionais de divulgação científica. Qual a importância disso para sua carreira e também para a pesquisa desenvolvida?

E.E.S. O principal foco do trabalho de um cientista é a divulgação de suas descobertas para a comunidade científica. A maneira mais utilizada para disponibilizar tais descobertas é por meio de publicação em periódicos científicos. Infelizmente, os periódicos científicos nacionais na minha área tem pouca visibilidade internacional, uma vez que os trabalhos publicados nestes trazem pouca inovação. Durante o meu doutoramento eu foquei especialmente na execução de pesquisa da mais alta qualidade, que incluíram abordagens e técnicas científicas inovadoras e competitivas internacionalmente. Um dos grandes fatores que me levaram ao prêmio foi a qualidade da pesquisa que realizei. Com isso, os resultados obtidos em minha tese foram publicados em destacados periódicos científicos internacionais como Journal of Proteome Research (JPR); Cell Cycle; World Journal of Biological Chemistry (WJBC) e Molecules. Desta maneira é possível divulgar mais amplamente as descobertas de minhas pesquisas e consolidar a minha carreira como pesquisadora.

D.N. – Pretende fazer um pós-doutorado, qual linha de pesquisa pretende seguir?

E.E.S. Atualmente eu desenvolvo o pós-doutorado no Laboratório de Mecanismos de Sinalização do Departamento de Bioquímica e Biologia Tecidual da Unicamp, atuando na linha de pesquisa em biologia celular e molecular, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

D.N. – O que a levou a escolher esse campo de estudo?

E.E.S. Eu sempre fui apaixonada por esse ramo das Ciências Biológicas chamado biologia celular e molecular. No período de minha graduação na Uems em Dourados, sempre busquei atividades relacionadas ao tema. Além disso, durante minha graduação, fui contemplada com uma bolsa da Academia Brasileira de Ciências, para cursar estágio de pesquisa nos laboratórios de biologia celular e molecular da Universidade Federal de São de Paulo, Unifesp. A experiência desse estágio de pesquisa contribuiu ainda mais para o meu entusiasmo pela área.

D.N. – Muitos que convivem com o câncer aguardam ansiosos pelas formas mais modernas de tratamento e cura da doença. De que forma sua pesquisa contribui nos avanços das pesquisas voltadas a isso?

E.E.S. Nossos resultados indicam que a proteína Nek7 é um componente importante para a correta execução da mitose, uma etapa da divisão de uma célula que é essencial para o desenvolvimento do corpo humano e cuja desregulação é associada a muitas doenças, incluindo o câncer. Neste sentido a Nek7 pode se constituir um importante biomarcador para prognóstico do câncer, com potencial para seletivamente intervir com a tumorigênese. Em outras palavras, nossas descobertas abrem novas frentes de pesquisa para o desenvolvimento de drogas mais eficazes para contrastar o surgimento do câncer em humanos.

D.N. – Em sua opinião, o campo da pesquisa está se aproximando da cura da doença ou ainda temos muito a avançar nesse sentido? Como se encaixa o Brasil nesse contexto?

E.E.S. Ainda temos muito para avançar na descoberta de novas drogas contra o câncer. Um dos grandes desafios que enfrentamos em pesquisa do câncer é a variabilidade genética da doença. Cada tipo de câncer possui diferentes moléculas que são envolvidas no seu surgimento. É necessário se conhecer a composição química e biológica dessas moléculas e, a partir daí, se iniciarem a busca por medicamentos visando, por exemplo, inibir essas moléculas que promovem a tumorigênese. A Nek7 é uma destas moléculas, mas existem centenas com funções similares em estudo atualmente. Para que uma molécula se torne um medicamento são necessários vários anos de estudos e alto investimento em pesquisa. O Brasil possui baixa produção científica de qualidade e isto se torna ainda mais notável no caso de pesquisa por medicamentos. Um exemplo recente é o caso da fosfoetanolamina, uma molécula promissora contra o câncer que não pôde ser liberada por não ter sido submetida às etapas do rigor científico que incluem a experimentação animal e estudos clínicos.

D.N. – Muitos especulam de forma corriqueira sobre a influência da indústria farmacêutica para incentivar ou até barrar pesquisas voltadas à busca de tratamentos e cura para doenças, como o câncer e outras. Em sua opinião, isso acontece? Como é essa relação entre pesquisa e indústria?

E.E.S. A indústria farmacêutica possui interesse na pesquisa por medicamentos. Eu desconheço um caso em que um medicamento não tenha sido colocado no mercado no intuito de não favorecer a cura de uma doença. Mas a indústria farmacêutica, assim como uma empresa, visa o lucro financeiro de seus produtos. Embora no Brasil a cooperação científica entre indústrias farmacêuticas, academias e institutos de pesquisa públicos tenha sido crescente, esta é uma prática ainda pouco realizada.

D.N. – Sobre sua escolha de seguir carreira como cientista. Você saiu no interior de Mato Grosso do Sul, se formou na Uems e hoje trabalha num dos mais importantes laboratórios de pesquisa do país. Dessa forma, é um exemplo para muitos jovens que sonham em trilhar caminho semelhante. É possível viver trabalhando com pesquisa em Mato Grosso do Sul ou no Brasil? Quais os prós e contras de seguir essa carreira?

E.E.S. O estado do Mato Grosso do Sul investe recursos limitados em pesquisa. As pesquisas na minha área demandam excelente estrutura laboratorial. Por isso, eu tive que sair do Mato Grosso do Sul e buscar estrutura laboratorial no estado de São Paulo. A história da ciência no Brasil é muito recente. Nós ainda vivemos um estágio de percepção social da ciência e da carreira do cientista. A profissão de cientista não é regulamentada assim como é em países desenvolvidos cuja ciência já é bem estabelecida. Além disso, nós não temos o investimento necessário para a realização de uma ciência de qualidade. Neste sentido fazer pesquisa de qualidade no Brasil é um grande desafio.

D.N. – Para quem quer seguir carreira na pesquisa, quais conselhos você pode dar aos que ainda estão na graduação?

E.E.S. Quero deixar uma mensagem, especialmente aos estudantes do Mato Grosso do Sul, de que se desejam seguir a carreira científica se dediquem com afinco e prazer aos estudos. Para se tornar um cientista é necessário, em primeiro lugar, amar a profissão.

Fonte: Dourados News