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Pesquisadora da UNICAMP ganha o Prêmio L'Oréal Brasil para Mulheres na Ciência 2008

Publicado em 09 dezembro 2008

Por Adriana Menezes, da Revista Metópole

Administrar a vida profissional de professora e pesquisadora, à vida pessoal de mãe, não é simples.

Ganhadora do Prêmio L'Oréal Brasil para Mulheres na Ciência 2008, Luciana Gonzaga de Oliveira, professora do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), simboliza os inúmeros papéis assumidos hoje pela mulher. Aos 33 anos, ela é casada, mãe de duas filhas e compõe o quadro de docentes da UNICAMP há seis meses. Além do prêmio na área de Ciências Químicas pela L'Oréal - em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a Unesco -, também recebeu verba pelo projeto Jovem Pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

No início de outubro, Luciana foi contemplada, no Rio de Janeiro, com uma bolsa-auxílio no valor de R$ 20 mil como prêmio da L'Oréal, a ser aplicada na compra de material para pesquisa que será executada em um ano. "É uma grande diferença para quem está iniciando a carreira docente" , diz a professora. Pela Fapesp, foram R$ 200 mil para trabalhar por três anos com sua equipe da universidade no projeto.

Luciana atribui à sua persistência e ao apoio da família as conquistas que teve este ano. Mas não esconde que a tarefa de conciliar os vários papéis na sociedade não é fácil.

Metrópole - No que consiste o seu projeto premiado?

Luciana Gonzaga de Oliveira - Faço uso de enzimas para transformações químicas. Na natureza, elas se adaptam naturalmente, mas é possível também fazer isso quimicamente. Isso pode ser usado na indústria farmacêutica ou em outras aplicações tecnológicas, como a indústria alimentícia, ou até na obtenção de biocombustíveis. Meu objetivo é utilizar as lipases para fazer determinadas transformações em elevadas temperaturas. Hoje, se a temperatura for muito alta, as enzimas perdem a função, mas algumas conseguem resistir. Eu quero obter a lipase termoestável.

É um processo complexo?

É como a teoria de Darwin: o organismo que se adapta é o que sobrevive. Então, faço a modificação em nível genético - uma recombinação de genes - para obter enzimas modificadas por meio da aceleração do processo com uma metodologia denominada evolução dirigida. Elas sobrevivem a uma determinada pressão, como aumento de temperatura. O projeto se chama "Obtenção de uma lipase termoestável por evolução dirigida".

Que tipo de produtos ao alcance do consumidor comum pode ser beneficiado por esta tecnologia?

Um exemplo pode ser quando você lava a louça ou a roupa com água quente. Se existe uma enzima que tira a sujeira da roupa e resiste à alta temperatura, a ação do produto será mais eficaz.

Desde quando você estuda esse processo?

Trabalhei com esse processo de evolução dirigida na Alemanha, em 2007, onde fiz pós-doutorado, com financiamento da Fapesp, durante cinco meses.

Você recebeu duas verbas importantes este ano e simultaneamente foi efetivada como professora do Instituto de Química. Foi muita coisa ao mesmo tempo?

Foi tudo ao mesmo tempo. A efetivação, a contemplação com o prêmio, a aprovação do projeto Jovem Pesquisador da Fapesp, com a verba de R$ 200 mil...

Qual o seu projeto aprovado na FAPESP?

O nome é "Explorando a biodiversidade brasileira para obtenção de produtos naturais e não-naturais". Esse financiamento tem duração de três anos e vai ser desenvolvido por uma equipe. Já a bolsa-auxílio da L'Oréal tem duração de um ano para consumo de material.

O prêmio da L'Oréal é destinado somente a mulheres. Todas eram jovens como você?

Todas as contempladas eram jovens pesquisadoras, com pós-doutorado, algumas até com 28 anos. A mais velha tinha 34.

Qual a sua avaliação sobre a participação da mulher na produção científica brasileira?

A importância do prêmio da L'Oréal é a valorização da mulher na pesquisa. Muita gente acha que não há possibilidade de inserção da mulher na Ciência, antes dominada pelo universo masculino. A iniciativa, que tem o apoio da Academia Brasileira de Ciências e da Unesco, contribui para mudar esta hegemonia. Tudo isso tem uma grande importância para a mulher.

Você imaginava que seria recompensada tão cedo por sua dedicação à pesquisa?

Não imaginava. Meu marido é docente do Instituto de Química da Unicamp e isso, para mim, de certa forma, era uma limitação física ou geográfica. Tentei me adaptar na indústria, mas não deu certo. Então decidi fazer concursos para professor na Unicamp e também enviei o projeto Jovem Pesquisador. Passei em dois concursos em 2007, na Biologia e na Química, mas optei pela Química porque fiz graduação no instituto. Só não esperava que tudo fosse acontecer ao mesmo tempo e tão rápido. Acho que foi muito gratificante.

Como consegue administrar a vida profissional de professora e pesquisadora, à vida pessoal de mãe, mulher e esposa?

Eu tenho de ter tudo organizado, preciso ser mais metódica para que as coisas funcionem. Tenho duas filhas, de 7 e de 9 anos. É difícil conciliar tudo, mas conto com o apoio do meu marido e dos meus pais. A família fez muita diferença nisso tudo. Mas a melhor coisa que eu fiz foi não parar, foi continuar. Acredito que a mulher acaba conseguindo abraçar as coisas, trabalhar, cuidar dos filhos e se desenvolver quando ela quer. A mulher faz mais coisas ao mesmo tempo que o homem.

Você acha que as coisas já estão em pé de igualdade na produção científica brasileira?

Não, as mulheres ainda têm mais restrições. Os homens têm menos coisas para se preocupar. Mas, no meu caso, meu marido me ajuda muito. Acho que hoje é mais comum encontrar homens que dividem os afazeres. A verdade é que, quando se tem mais igualdade dentro e fora de casa, a produção profissional acaba sendo compatível. Só assim é possível estar em pé de igualdade.