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Pesquisadora brasileira estudou com ganhadora de Nobel de medicina

Publicado em 06 outubro 2009

Por Emilio SantAnna

Maria Isabel Cano passou três anos nos EUA pesquisando telômeros. Professora da Unesp hoje busca forma de erradicar leishmaniose

 

Durante três anos, de 1997 a 2000, a pesquisadora brasileira Maria Isabel Cano, de 47 anos, trabalhou ao lado de uma das ganhadoras do Nobel de medicina de 2009.

Professora adjunta do Departamento de Genética da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, interior do estado de São Paulo, a biomédica fez seu pós-doutorado na Universidade da Califórnia, no laboratório da bioquímica Elizabeth H. Blackburn - uma dos três cientistas que receberam o prêmio nesta segunda-feira, dia 5, pela descoberta dos mecanismos de proteção dos cromossomos por meio dos telômeros.

Elizabeth H. Blackburn, Carol W. Greider e Jack W. Szostak "resolveram um importante problema na biologia" ao definir como os cromossomos podem ser copiados de forma completa durante a divisão celular e protegidos da degradação, segundo o instituto Karolinska.

Os telômeros atuam como dispositivo protetor embutido nos cromossomos. Em 1984, Elizabeth e Carol, então sua aluna, descobriram e batizaram a telomerase, enzima reguladora dos telômeros que já chegou a ser chamada de "enzima da imortalidade".

Mas a telomerase também está presente nas células cancerígenas (que têm uma capacidade ilimitada de multiplicação). Ou seja: a enzima da imortalidade também tem sérios efeitos negativos. Compreendê-la lança luz sobre o processo de envelhecimento e também ajuda na luta contra o câncer.

Leia a entrevista com Maria Isabel Cano:

- Como você foi estudar nos EUA com a ganhadora do Nobel de medicina?

Estudo os telômeros até hoje. Comecei a estudar durante meu doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Meu trabalho era estudar os cromossomos do parasita da doença de Chagas, e durante esse estudo descobri um rearranjo cromossômico que tinha uma marcação telomérica. Quando terminei o doutorado fui convidada a ficar como docente durante dois anos na Unifesp. Comecei a procurar um laboratório no exterior para continuar esses estudos. Então tive a indicação de um colega americano para tentar fazer um estágio de pós-doutorado no laboratório da Elizabeth Blackburn, que tinha descoberto a telomerase.

- Como foi esse período?

Fui com a bolsa da Fapesp pra lá e já trabalhando no laboratório da Elizabeth Blackburn ganhei o prêmio da Pew Latin American Fellows, que é um prêmio para pós-doutores da América Latina em que você é escolhido pela Academia Brasileira de Ciências e depois por um comitê nos EUA. Continuei o pós-doutorado propondo a ela tentar descobrir a telomerase de protozoários patogênicos. Nós descobrimos, fizemos duas publicações e voltei para o Brasil para trabalhar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas com Leishmanias brasileiras (causadoras da leishmaniose).

- Qual a ação do telômero nesses protozoários?

Manter o genoma estável, proteger os cromossomos de ataques de nucleases e fazer com que as células continuem proliferando.

- Então estamos fazendo pesquisas parecidas no Brasil?

Sim, mas o intuito aqui não é só entender o funcionamento do telômero, mas tentar encontrar nele um alvo para erradicar a leishmaniose.

- Como você avalia a premiação de Elizabeth Blackburn?

Com certeza, ela quebrou um dogma da biologia, em que não se compreendia como era sinalizada a replicação dos cromossomos lineares. É uma contribuição extremamente louvável que levou a outras descobertas, como a importância dos telômeros no envelhecimento celular e a importância no aparecimento das células cancerígenas.

- Qual a diferença entre fazer pesquisa nos EUA e no Brasil?

Essa diferença é bem mais amena hoje. É óbvio que ainda falta mais incentivo, mais dinheiro disponível, ou outras instituições além da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ou até empresas com disponibilidade de agenciar pesquisas no Brasil, principalmente básica porque a pesquisa aplicada nasce da pesquisa básica. O que falta muito também é o brasileiro reconhecer o brasileiro como bom cientista. Temos grandes cérebros aqui, não estou me incluindo nisso, apenas respondendo a pergunta que você me fez.

(G1, 6/10)