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Ibitinga Diário

Pesquisador de Araraquara encontra 1ª possível vacina contra a infecção por Zika

Publicado em 29 junho 2016

A vacina contra o vírus da zika pode ser possível. Isso é o que revela o primeiro trabalho real apresentado no mundo com duas formulações que passaram com sucesso pelos primeiros testes com animais de laboratório. Cada uma delas, aplicada em dose única, protegeu integralmente os camundongos da infecção por zika, relata artigo publicado nesta terça-feira na conceituada revista Nature, umas das mais importantes revistas cientificas do mundo.

Um dos dois pesquisadores principais é o biomédico imunologista de Araraquara, Rafael Larocca, que atualmente trabalha no Centro de Virologia e Pesquisa em Vacina (CVVR), na Escola Médica Harvard, nos Estados Unidos.

Pelo facetime, de Boston, ele conversou com o Araraquara Já. Rafael Larocca é nascido em Araraquara, morava no São José. Fez Biomedicina na Uniara e formou-se em 2003. Depois, fez mestrado e doutorado da Universidade de São Paulo (USP), na Capital.

Na faculdade em Araraquara, inclusive, conheceu a mulher, a também araraquarense e doutora como ele, Erica Borducchi. Ela, inclusive, é uma das pesquisadoras deste trabalho em que o primeiro autor é Larocca, ao lado do colega, o holandês Peter Abbink.

O casal mora nos Estados Unidos há sete anos. “Quando a gente vem para cá pensa que pode fazer a diferença, mas nunca tem certeza. Desobrir essa vacina que é tão importante para o mundo pode ser um sonho realizado”, diz o pesquisador de 36 anos de Araraquara. O trabalho apresentado por ele é notícia global. Nos experimentos com roedores, as duas possibilidades de vacina se mostraram efetivas tanto contra a variedade do vírus em circulação no Brasil como contra a linhagem encontrada em Porto Rico, no Caribe.

“Os resultados são fortes e convincentes, mas temos de ser cautelosos e aguardar a realização de mais testes com animais e dos ensaios com seres humanos”, pondera. De acordo com a Revista Fapesp, nos experimentos, os pesquisadores trabalharam com duas classes de vacinas. Uma delas é uma formulação contendo cópias do vírus quimicamente inativadas. Eles analisaram o genoma do vírus e produziram uma cópia sintética do trecho contendo a sequência do complexo proteico que recobre externamente o zika.

Em um primeiro contato do vírus com o organismo, um tipo especial de célula de defesa detecta essas proteínas, as processa e depois exibe partes delas para os linfócitos B, as células produtoras dos anticorpos que neutralizam o vírus quando o organismo volta a ser exposto a ele. Os pesquisadores, então, transferiram esse gene sintético para bactérias e deixaram que elas atuassem como máquinas copiadoras, produzindo um número elevado de réplicas. Essas cópias são o que os pesquisadores chamam de vacina de DNA.

Nenhum roedor imunizado desenvolveu sinais de infecção nem apresentou no sangue quantidades detectáveis de vírus. O pesquisador de Araraquara e seu grupo já usaram as duas formulações para imunizar macacos e aguardam os resultados para os próximos meses. Eles também devem começar em breve os testes de imunização de fêmeas de camundongo grávidas, com o objetivo de verificar se as formulações protegem contra a microcefalia.

“Estamos muito otimistas, mas sabemos que ainda existe um período longo até que a vacina seja colocada no mercado. Irão dizer que a indústria farmacêutica não deseja isso. Não é essa a questão. São várias fases, entre elas, a primeira quando chegar aos seres humanos é verificar se a vacina é segura, se não existem reações e se é eficaz tanto para homens quanto para mulheres em idade fértil e grávidas”, diz o pesquisador de Araraquara sem precisar se esse período pode levar um, dois, três ou mais anos.

A busca por uma vacina contra o zika tornou-se prioridade mundial de saúde depois que começaram a surgir evidências de que o vírus pode infectar o feto de gestantes e causar microcefalia. De outubro de 2015 a 18 de junho, o Ministério da Saúde registrou no Brasil 8.039 casos suspeitos de microcefalia, dos quais 1.616 foram confirmados (233 com resultado positivo para infecção por zika). Araraquara tem mais quase duas dezenas de casos de zika registrados, mas nenhuma ligada a microcefalia.

Identificada no Brasil há menos de um ano, a zika é uma doença ainda cercada de mistérios e te como seu principal vetor o mosquito Aedes aegypti, o mesmo transmissor da dengue. O quadro é menos agressivo que o da dengue, o que assusta é sua possível relação com outras condições mais graves, como microcefalia e síndrome de Guillain-Barré. Os principais sintomas são dor de cabeça, febre baixa, dores leves nas articulações, manchas vermelhas na pele, coceira e vermelhidão nos olhos.

A evolução da doença costuma ser benigna e os sintomas geralmente desaparecem espontaneamente em um período de três até sete dias. Não há tratamento específico. Pelas estimativas da OMS, entre três e quatro milhões de pessoas vão ser infectadas pelo vírus no continente em 2016. O Brasil é o país mais atingido: até 1,5 milhão de brasileiros podem ter contraído o vírus no ano passado.