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Pesquisador da Unesp estuda novas formas de controle da dengue

Publicado em 05 fevereiro 2016

Por Maristela Garmes

Uma importante pesquisa sobre o mosquito da dengue é desenvolvida pelo Instituto de Biotecnologia (Ibtec) da Unesp de Botucatu. Explorando novas estratégias para combater a dengue, ainda não pesquisadas no Brasil, Jayme Souza-Neto, coordenador do Laboratório Vectomics (Laboratório de Genômica Funcional & Microbiologia de Vetores), sediado no Ibetc, pesquisa as relações entre o vírus dengue e o mosquito Aedes Aegypti.

Segundo o pesquisador, o estudo procura investigar o vírus da dengue quando ele chega ao intestino do mosquito; após o inseto se alimentar do sangue infectado pelo vírus. “Quando o vírus consegue sair do intestino e chegar às glândulas salivares, o mosquito se torna um transmissor da doença. Caso contrário, se ele for neutralizado no intestino (por meio da manipulação dos genes ou identificação das bactérias que formam as barreiras para esta travessia, por exemplo), o vírus não seguirá para as glândulas salivares e o mosquito não será um transmissor”, explica Souza-Neto.

“Nosso interesse é desvendar a interação entre as defesas imunológicas do inseto e os micróbios que colonizam seu intestino, e como isso regula a capacidade do mosquito se infectar com o vírus e transmiti-lo”, explica Jayme.

A pesquisa é desenvolvida em parceria com grupos de estudiosos das universidades inglesas de Keele e Imperial College London. “Com isto temos mantido um intercâmbio intenso de pesquisadores com as instituições do Reino Unido, o que tem elevado a qualidade do trabalho e do ambiente acadêmico não só do Vectomics, mas do Ibtec e da Unesp”, ressalta o professor.

O projeto recebe apoio da FAPESP por meio de um auxílio à pesquisa na modalidade Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes. O projeto é ainda vinculado a dois acordos de cooperação internacional, FAPESP-Keele e FAPESP-Imperial College.

ENTREVISTA COM O PESQUISADOR
Qual é a sua pesquisa com o mosquito da dengue?
No âmbito da dengue, a pesquisa foca no estudo das relações entre o vírus dengue e o mosquito Aedes aegypti. Nosso interesse é desvendar a interação entre as defesas imunológicas do inseto e os micróbios que colonizam seu intestino, e como isso regula a capacidade do mosquito se infectar com o vírus e transmiti-lo. É importante ressaltar que o intestino do mosquito é o local em que o vírus se aloja logo após o vetor ingerir o sangue de uma pessoa com dengue. As células desse órgão são também as primeiras que o vírus vai infectar no mosquito. A passagem pelo intestino do mosquito é o momento mais crítico para o vírus da dengue. Por isso, o sucesso dessa etapa define se o vírus chegará ou não à saliva do inseto, quando então pode ser transmitido para uma outra pessoa.

O estudo se encontra em que fase?
No momento estamos identificando bactérias e genes com propriedades anti-dengue, ou seja, que tenham a habilidade de impedir a replicação do vírus no mosquito. No caso das bactérias, já dispomos de uma biblioteca de isolados e agora estamos iniciando os testes de bloqueio in vivo (no mosquito) e in vitro. Por outro lado, realizamos ensaios que analisam o funcionamento de todos os genes do mosquito em resposta à infecção viral. A partir de então, identificamos um grande repertório de genes que são ativados ou reprimidos quando o mosquito se infecta. São genes relacionados com o sistema imune do inseto, diversos peptídeos antimicrobianos, outros envolvidos com o processo de transcrição e tradução de proteínas, além de diversos com função ainda desconhecida. Estamos iniciando a geração de linhagens de Aedes aegypti geneticamente modificadas, em que alguns dos genes identificados são defectivos, ou seja, não funcionam. A ideia é gerar linhagens que se tornem resistentes ao vírus. Mais recentemente estamos expandido estes mesmo estudos para o vírus zika.

De que forma estes dados podem contribuir para o combate à dengue ou outras arboviroses transmitidas pelo Aedes?
Se encontrarmos bactérias do próprio mosquito com propriedades anti-dengue, podemos produzi-las em larga escala e borrifá-las na natureza. Os mosquitos que vierem a ingerir estas bactérias consequentemente podem se tornar resistentes e isso levaria a uma diminuição na transmissão da doença. Por outro lado, através de trabalhos de bioprospecção poderíamos isolar os produtos bacterianos que neutralizam o vírus. Estes produtos são candidatos potenciais para o desenvolvimento de uma terapia (tratamento) específico para a dengue. Além disso, as linhagens resistentes do vetor poderiam ser liberadas na natureza em grandes quantidades nos locais endêmicos. Se estas linhagens se fixarem em detrimento das populações já existentes, também pode haver uma redução na transmissão da dengue. Estes mesmos princípios e abordagens poderiam ser utilizados para controlar outras arboviroses como a zika, por exemplo.

Ibtec

Em 2012, a Unesp instalou em Botucatu o Instituto de Biotecnologia (Ibtec). Hoje o Instituto trabalha com vários grupos de pesquisa, entre eles, pesquisadores de universidades brasileiras e internacionais. Recentemente, o Instituto fez parcerias com universidades inglesas e pesquisas sobre doenças como malária, dengue e zika estão sendo desenvolvidas pelo Instituto.

Um dos focos do Ibetc é intensificar a parceria universidade-empresa, diz o coordenador do Instituto, Celso Luis Marino, e professor do departamento de Genética do Instituto de Biociências, da Unesp de Botucatu. “Queremos ser um centro de pesquisa onde especialistas de diferentes áreas promovam a pesquisa e o desenvolvimento junto com parceiros”. Entre estes parceiros, o Instituto tem desenvolvido junto com a companhia Suzano de Papel e Celulose, teses com pedido de patente. “A Suzano ajudou a financiar o projeto oferecendo coleta de materiais e reagentes usados na pesquisa”, reforça Marino.

O (Ibtec) tem também como uma de suas funções criar um instituto que possa agregar pesquisas nas mais diversas áreas de biotecnologia, não só de Botucatu, mas de outras unidades da universidade.

Segundo Marino, vários pesquisadores da própria Unesp e de outras universidades estão vindo ao Ibtec buscar parcerias para desenvolver suas pesquisas. Por exemplo, a Unesp de Ilha solteira, na área de genética, está trabalhando com espécies nativas de árvores que estão à beira de extinção. Por que eles deveriam comprar equipamentos para sua pesquisa, questiona o professor. “Eles vêm para Botucatu e em dois ou três meses resolvem todos estes problemas. Desta forma, também conseguimospapers melhores em revista mais qualificadas”, explica.

O Instituto adquiriu alguns equipamentos de grande porte por meio da Finep e da Fapesp. Segundo o professor, estes equipamentos estão à disposição da comunidade para utilização como prestação de serviço. “Nós temos técnicos especializados para operá-los principalmente da área genômica, de sequenciamento e de análise de dados. Atualmente, o Instituto está na fase de instalação e aquisição de novos equipamentos”.

Informações
Jayme Augusto de Souza-Neto: jaysneto@gmail.com