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UEL - Universidade Estadual de Londrina

Pesquisador da UnB resgata o dialeto calon, falado por 1,5 mil ciganos em Goiás

Publicado em 28 abril 2006

Agência UEL
"Unga ron que camêla mistori" e "rimidinhar". Os significados dessas duas expressões do dialeto calon (respectivamente "amigo" e "casamento") podem ser conhecidos agora graças aos estudos de Fábio José Dantas Melo, aluno de doutorado do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB).
Como o calon é uma língua ágrafa, não existem registros escritos de seu conteúdo. O objetivo de Melo é montar um dicionário. Para isso, é preciso, antes de mais nada, dar um significado gráfico às expressões apenas faladas. Ao todo, o pesquisador já tem catalogadas 500 palavras. O grupo cigano calon vive no município de Mambaí, no nordeste de Goiás, a 250 quilômetros de Brasília.
Segundo Melo, autor do livro Os ciganos calon de Mambaí: a sobrevivência de sua língua, lançado pela Thesaurus Editora com base em seu mestrado, o trabalho é feito em três etapas. As palavras são coletadas por meio de gravações, transliteradas ao alfabeto fonético internacional e, por fim, adaptadas ao sistema ortográfico da língua portuguesa.
Entre outras palavras identificadas estão chaburron (criança), cais (árvore), ariquéldar (falar), babanon (bonito), duveli (deus), daí (mãe) e chibi (linguagem). "Apesar de ser considerada uma língua em perigo de extinção, muitas palavras do calon têm conseguido sobreviver. E, se ainda resta um extenso vocabulário disponível, nossa função é preservá-lo", disse Melo à Agência FAPESP. "É na língua que estão codificadas as formas de pensar e de sentir dos indivíduos. Então, mais do que entregar à sociedade uma série de registros escritos, o dicionário representa a conservação do material etnológico dos calon para as gerações futuras."
Após visitas ao povoado, Melo constatou forte influência do português na língua calon. Crianças e jovens, que não aprendem a língua cigana na escola, falam mais o português e apenas algumas palavras em calon. Os adultos misturam o dialeto ao português, mas optam pelo calon em ocasiões de negócio e quando querem manter segredo.
"Estamos perdendo não só uma língua, mas toda uma cultura que faz parte da formação do Brasil", diz Melo. Os calon que vivem hoje no Brasil são provenientes da Península Ibérica, para onde foram da Índia. Ao se instalar no interior de Goiás, na década de 1970, o grupo deixou de ser nômade. As 114 famílias catalogadas totalizam cerca de 1,5 mil pessoas.
As estimativas indicam que há cerca de 800 mil ciganos no Brasil. As primeiras famílias chegaram em 1574. "Os ciganos não foram tratados como escravos, mas também não tiveram a mesma visibilidade dos colonizadores", conta Melo.
Agência FAPESP