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Pesquisador canadense usa técnicas de física para curar o câncer

Publicado em 04 maio 2013

Atualmente, pesquisadores do Brasil e do mundo sabem que “a bola da vez” nas pesquisas acadêmicas pode ser resumida em uma única palavra: multidisciplinaridade. No Brasil, a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), principais financiadores de pesquisas brasileiras, já criaram programas que incentivam a colaboração mútua entre áreas do conhecimento distintas para o desenvolvimento de vários estudos e os resultados têm sido satisfatórios.

Tal realidade, também se aplica a estudos no exterior, e a prova disso é o estudo desenvolvido pelo pesquisador do Ontario Cancer Institute (Canadá), Brian Wilson, que participou da Escola Avançada de Biofotônica,  ocorrida entre 11 e 19 de abril no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP).

Brian, formado e pós-graduado em física, sempre teve vontade de aplicar os trabalhos e pesquisas desenvolvidos durante sua vida acadêmica. Por sorte, acaso, ou ambos, logo após terminar seu doutorado conseguiu um emprego no Institute of Cancer Research (Inglaterra), o que possibilitou que sua vontade de aplicar a ciência fosse concretizada a partir de então. “Eu já tinha iniciado um pós-doutorado em física de partículas quando recebi essa proposta. Tive muita sorte!”, relembra o pesquisador.

Desde então, Brian, paralelamente, desenvolve pesquisas relacionadas à física na área de saúde, aplicando-as simultaneamente aos casos práticos com os quais trabalha atualmente no Instituto do Câncer canadense. Seu laboratório fica, inclusive, alocado no hospital, o que possibilita o contato contínuo entre pesquisa e aplicação. “Desde que trabalho em hospitais, há quarenta anos, os estudos são diretamente convertidos aos pacientes”, afirma.

E exemplos atuais comprovam esse fato.  Um dos estudos de Brian é no auxílio a neurocirurgiões no uso de imagens fluorescentes, baseadas em princípios físicos, capazes de mostrar restos de tecidos tumorais não retirados durante uma cirurgia. “Alguns médicos, no momento da cirurgia, utilizam-se de ressonância magnética, também um princípio físico, para remoção de tumores. No final da cirurgia, o processo é muito crítico, pois restam pequenos tumores que os cirurgiões não conseguem ver e que podem crescer novamente. A imagens possibilitam a visualização desses perigosos resquícios”, explica.

Brian conta que os estudantes que ajudam no desenvolvimento dessa e de outras técnicas assistem às cirurgias, trabalhando diretamente com os cirurgiões e tendo acesso imediato aos resultados das técnicas estudadas em laboratório.

Outro importante estudo de Brian, também relacionado a técnicas de terapia fotodinâmica, diz respeito ao câncer de próstata. Ele conta que o método comumente utilizado pela maioria dos pacientes para cura desse tipo de câncer é a radioterapia, tratamento invasivo que, além de não descartar o retorno do tumor, impede que o paciente realize novas cirurgias.

É quando entra em cena o estudo de Brian, no qual lasers são emitidos no tumor da próstata e sensibilizados pela radiação.  Até o momento, 50% dos pacientes tratados com essa técnica tiveram o tumor removido completamente. “É claro que esse resultado seria melhor se tivéssemos 100% dos pacientes curados, mas, como não restam mais opções a eles, pelo menos metade pode ser ajudada e curada”, conta Brian. “Mais importante do que isso é que os pacientes que não respondem ao tratamento logo de início, podem realizar o procedimento inúmeras vezes, pois o corpo não cria resistência a esse tipo de tratamento, diferente da radioterapia”.

No começo de abril deste ano, Brian comemorou a cura integral de um de seus pacientes através de terapia fotodinâmica. Ele conta que o câncer de próstata já havia se espalhado na espinha do paciente, o que fez com que este perdesse os movimentos das pernas e braços e sentisse muita dor, uma vez que o tumor enfraquece os ossos, destruindo-os. A terapia fotodinâmica foi utilizada para remover o tumor e o paciente já recuperou os movimentos perdidos e sente muito menos dor. “Queremos combinar a terapia fotodinâmica com nanotecnologia. Essa, sem dúvida, é uma área em grande crescimento”, afirma o pesquisador.

Sobre as pesquisas que envolvem a física e outras áreas diversas, Brian diz que uma das coisas mais empolgantes ocorridas nas últimas duas décadas é a combinação da física com engenharia, biologia molecular, nanotecnologia etc., com o propósito de convertê-las em soluções e aplicações práticas para cura de diversos males. “É possível, hoje, desenvolver técnicas específicas para cada caso; elas servem de ponte entre a pesquisa básica e a prática clínica. A análise por imagens é completamente dependente da física e é onde a física ganha um papel extremamente importante no mundo da ciência, tecnologia e saúde”, finaliza o pesquisador.