Notícia

UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Pesquisa

Publicado em 02 março 2009

Jornal da Unicamp – A Unicamp responde por parcela significativa da pesquisa acadêmica no Brasil. A pesquisa na Unicamp pode ser melhorada? Em que direção?

Fernando Costa – Vamos apoiar a pesquisa em todas as suas formas e modalidades, sem exceção. Isso inclui manter e incrementar programas específicos para manter grandes grupos produzindo, dar sustentação a grupos pequenos que apresentem projeto e potencialidade para crescimento, auxiliar projetos individuais ou de pequeno porte, disponibilizar auxílio a pesquisadores para a apresentação de trabalhos em congressos e simpósios nacionais e internacionais. São linhas de ação que requerem, dentro das possibilidades orçamentárias da Unicamp, um aumento substancial dos recursos do Faepex.

Além disso serão mantidos e ampliados os mecanismos de suporte aos pesquisadores representados, por exemplo, pela unidade de apoio ao pesquisador e pelo Espaço da Escrita. É essencial que seja facilitada com adequado suporte administrativo a busca, por parte dos pesquisadores, de linhas de financiamento de grande porte junto às agências de fomento à pesquisa. Também é necessário prover o suporte institucional para o bom andamento dos projetos de pesquisa, financiados ou não.

A Unicamp em várias áreas do conhecimento realiza pesquisas de ponta comparáveis às de qualquer grande universidade do exterior. No entanto, para muitos grupos de pesquisa é necessário o reequipamento ou a criação de novos laboratórios, sobretudo em áreas em que a necessidade de atualização tecnológica é imperiosa. Como estamos falando, de um modo geral, de equipamentos caros, torna-se necessário fazer aquilo que na maioria das universidades internacionais já é cultura estabelecida, que é a criação de instalações de uso comum (as core facilities), permitindo agregar grupos que investigam áreas comuns entre si sem deixar de respeitar suas especificidades.

Por outra parte, no plano das políticas de pesquisa, é imprescindível aumentar a presença de nossos pesquisadores nos conselhos e órgãos de fomento à pesquisa. Nosso programa também prevê o estímulo a participação cada vez maior de pós-doutores na pesquisa levada a efeito na Universidade. Esses pós-doutores deverão ser recrutados nas melhores universidades do Brasil e no exterior.

Gláucia Pastore – Externamente, faz-se necessário implementar mudanças no relacionamento da Unicamp com outras universidades, agências de fomento e órgãos governamentais do Brasil e do exterior, e com as indústrias que atuam em pesquisa e desenvolvimento nas áreas de atuação da universidade.

Por isto, nosso programa acentua o propósito de “estimular a participação institucional em órgãos (ministérios, sociedades e conselhos e outros) e agências de fomento (Fapesp, Capes, CNPq, Finep e outras)”, a fim de “atuar em consonância com os grandes objetivos de interesse nacional” e, ao mesmo tempo, “participar na formulação de políticas públicas relacionadas com a ciência, tecnologia, atividades culturais, artísticas e sociais”.

Reconhece-se a necessidade de explorar as oportunidades para o estabelecimento de um novo relacionamento entre a Universidade e o restante da sociedade, que podem se manifestar como fontes de recursos para atividades de pesquisa e novas alternativas de emprego para nossos formandos. Consequentemente, propõe-se incentivar as ações de captação de recursos e transferência de conhecimento.

Internamente, vemos a necessidade de mudanças nos procedimentos para a criação de novos projetos, atualmente calcados em excessiva burocracia. É também necessário: ampliar o apoio institucional de fomento às iniciativas inovadoras na pesquisa; aperfeiçoar o apoio administrativo às atividades de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico, facilitando a disponibilização de informações, a elaboração e gestão dos projetos, a fim de possibilitar uma maior agilidade e um melhor aproveitamento de oportunidades de financiamento à pesquisa; viabilizar a criação de um Centro de Convenções de grande capacidade e facilidades múltiplas para execução de atividades artísticas, culturais e científicas; criar incentivos a pesquisadores, trabalhos e eventos expoentes (trabalhos do Pibic, dissertações/teses, produções científicas e contribuições sociais) por meio de distinções e premiações; valorizar os relatórios de atividades de docentes, discriminadamente por nível, enfatizando e premiando-os pelas atividades expoentes; incentivar as atividades e adequar a Editora da Unicamp para promover maior número de livros produzidos pelos pesquisadores de excelência; intensificar a expansão, qualificação, atualização e preservação do acervo bibliográfico e dos acervos das Unidades de ensino e pesquisa; valorizar a participação voluntária de pesquisadores e professores colaboradores; e criar mecanismos de incentivo à pesquisa por meio de Programa à Pesquisa para docente em início de carreira e grupos emergentes.

JU – Em vista da quantidade de professores em condições de se aposentarem, bem como dos que se aposentaram nos últimos anos, o quadro docente da Unicamp por certo necessitará de recomposição. Qual será sua política nesse sentido?

Fernando Costa – A contratação de docentes de alta competência oriundos do Brasil ou do exterior sempre foi um diferencial importante da Unicamp. Este é um objetivo que não pode ser perdido de vista e que deve nortear as contratações em todas as áreas de atuação da Universidade. A manutenção desse corpo docente de alto nível, por meio do oferecimento das melhores condições de pesquisa e de ensino, será objeto da maior atenção por parte da administração da Universidade. Nesse sentido, duas tarefas urgentes se impõem: o estudo para reestruturação da carreira docente de modo a adequá-la às necessidades da progressão acadêmica e da qualificação contínua dos professores, que deveremos desenvolver junto ao Cruesp, e a contratação de novos docentes para repor as vagas deixadas pelas aposentadorias de modo a permitir a recomposição dos grupos de pesquisa. Além disso, a Unicamp está consciente e preparada para a implantação, com base em discussões muito produtivas realizadas no contexto do Planes, de áreas de investigação novas que demandarão a contratação de novos docentes, muito deles com grande experiência.

Gláucia Pastore – Em nosso programa declaramos explicitamente, sobre esta questão, que “urge o estabelecimento da certificação (garantindo a substituição dos professores aposentados) da carreira docente para as várias unidades de ensino e pesquisa”. Estendemos também a questão para o conjunto dos funcionários, preconizando “a atualização da certificação das carreiras de funcionários”.

Também consideramos fundamental “garantir que a reposição dos quadros docente e de funcionários seja feita por concurso público, reduzindo gradativamente as contratações precarizadas e terceirizadas”.

JU – Novas temáticas de pesquisa tendem a surgir, determinadas pelas tendências do cenário internacional e também pela demanda nacional. A pesquisa interdisciplinar parece estar cada vez mais no horizonte dessas mudanças. Qual é sua política para fazer frente a essa nova realidade?

Fernando Costa – A Unicamp conta com a experiência pioneira e inovadora de seus centros e núcleos interdisciplinares de pesquisa, que são submetidos a periódicas avaliações externas. Mas sempre é preciso dar um novo passo qualitativo e esse passo está na abordagem de novos problemas e na construção ou no incremento de programas transversais entre as unidades de ensino e pesquisa e os centros e núcleos, intra e extramuros da Unicamp. Um número crescente de áreas de pesquisa fundamentais para o progresso do conhecimento cientifico e para o Brasil terá de ser abordado dessa perspectiva multidisciplinar.

Gláucia Pastore –A pesquisa interdisciplinar é decorrência necessária da interdisciplinaridade e da complexidade dos problemas de cuja solução os cientistas são chamados a participar. Daí decorrem várias referências a este tema em nosso programa, que explicitamente propõe: incentivar a integração dos pesquisadores da Unicamp em programas de pesquisas interdisciplinares, entre unidades, entre instituições, nos âmbitos regional, nacional e internacional, estimulando o desenvolvimento de atividades de pesquisa científica e a formação de recursos humanos; ampliar programas e acordos de cooperação com inserções nacional e internacional nas áreas de graduação, pós-graduação e pesquisa; ampliar a inserção institucional de centros e núcleos interdisciplinares de pesquisa; proporcionar a participação da comunidade nas discussões sobre temas de pesquisas na fronteira do conhecimento; prover ações para desenvolver pesquisas para estudar temas estratégicos de relevância nacional de amplitude social; estimular e viabilizar atividades interdisciplinares e cooperação entre Unidades, Núcleos e Centros e instituições de excelência, nacionais e internacionais, estimulando o intercâmbio de estudantes e professores em atividades conjuntas; ampliar a ação pedagógica com base na realidade profissional e sócio-cultural; a transversalidade dos conteúdos abordados; a interdisciplinaridade no ensino-aprendizagem; a diversidade sócio-cultural e ambiental; a integração ensino-pesquisa; a mediação e a busca de consenso; a avaliação permanente e progressiva; os mecanismos de inclusão – gestão do vestibular; a melhoria da infraestrutura; as questões relativas ao meio ambiente, em particular o impacto crescente das ações humanas sobre os ambientes locais e global, são temas de importância crescente dentro das atividades acadêmicas, tendo uma natureza intrinsecamente multidisciplinar e integradora; viabilizar Centrais Analíticas ou Centros multi-usuários de pesquisa para racionalizar recursos físicos e humanos; e incentivar eventos e atividades científicas para as diferentes áreas por meio de congressos, Ciência e Arte nas Férias, revistas especializadas e outros.

JU – Em sua opinião, a interação entre ensino e pesquisa um dos pontos fortes do desempenho acadêmico da Unicamp já está suficientemente consolidada? Se não, onde é preciso ser intensificada?

Fernando Costa – A integração entre o ensino e a pesquisa tem sido uma preocupação histórica da Unicamp e certamente um dos fatores fundamentais do sucesso de nossa Universidade. Na pós-graduação, essa integração mostra-se consolidada, sendo que a maior parte da produção acadêmica tem a participação dos pós-graduandos. Merece menção também o papel cada vez mais importante que a atuação dos pós-doutorandos terá na pesquisa e em sua interação com o ensino. Entretanto, é necessário que essa integração se consolide ainda mais também nos cursos de graduação. Cabe mencionar o sucesso do programa de bolsas de iniciação científica, que ao integrar os estudantes de graduação a grupos de pesquisa não só facilita sua convivência com os pós-graduandos como também permite à Universidade identificar mais precocemente os jovens talentos. O desafio que se coloca agora é o de fortalecer esse processo, aumentando a integração entre os cursos de graduação e os programas de pós-graduação através de mecanismos institucionais.

Gláucia Pastore – Pelo simples fato de praticarmos pesquisa e ensino nesta Universidade, a interação entre ambas dimensões da vida acadêmica torna-se, em certos aspectos, natural. A experiência em pesquisa do docente inevitavelmente penetra sua atividade didática com exemplos enriquecedores, com a visão do conhecimento como um processo em construção, onde, portanto, não cabem dogmas, e assim por diante.

Na pós-graduação, em que a Unicamp é particularmente forte, ensino e pesquisa são intrinsecamente interpenetrantes e complementares.

No âmbito da graduação a interação não é tão direta, e o ensino de graduação pode se beneficiar se esta interação for dinamizada. A forma mais direta de fazê-lo é através das iniciações científicas. Como apontado em nossa resposta à questão 2, nosso programa prevê o estímulo às iniciações científicas bem como aos programas PAD, que devem incorporar as atuais Bolsas de Trabalho no sentido de tornarem-nas instrumento eficaz de aprendizado, não apenas um apoio assistencial sem articulação pedagógica.