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Pesquisa troca testes em animais por pele descartada em cirurgia plástica

Publicado em 14 janeiro 2018

Os efeitos da radiação ultravioleta (UV) sobre a pele já são bem conhecidos da ciência e da indústria de cosméticos. Inclusive, existe no mercado uma ampla gama de produtos que atuam como uma barreira química contra esses raios solares, prevenindo o câncer de pele e o envelhecimento precoce.

Agora, os cientistas buscam compreender melhor as alterações estruturais sofridas pela pele exposta à radiação infravermelha (IV-A) --que é sentida na forma de calor e tem como fonte não apenas o sol, mas também objetos domésticos como ferro de passar roupas e secador de cabelos.

Para estudar os danos provocados pela radiação infravermelha A, uma empresa especializada na condução de estudos clínicos na área de cosmética, a Kosmoscience, desenvolve metodologia alternativa aos testes feitos com animais utilizando fragmentos de pele humana provenientes de cirurgias plásticas eletivas. A pesquisa conta com o apoio do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e encerrou a Fase 1, de viabilidade técnica.

A ideia é avaliar os efeitos da radiação IV-A sobre os fragmentos de pele, validando o uso desse material alternativo para testes de eficácia de produtos protetores. De acordo com os pesquisadores, em entrevista para a Agência FAPESP, com os 3R ("Replace, Refine and Reduce") -que visa substituir e reduzir o número de animais usados em pesquisa- a avaliação da segurança e eficácia cosmética ficou restrita aos ensaios _in vitro_ (cultura de células) e aos testes clínicos, realizados em seres humanos.

No entanto, nem sempre os danos reais de um agente agressor ou os benefícios de um tratamento observados nas culturas celulares valem para a vida real. Nesse cenário, o estudo em pele ex vivo tornou-se uma ferramenta valiosa para cobrir a lacuna deixada pelos testes em animais.

De onde?

Os fragmentos de pele utilizados na pesquisa são excedentes de cirurgias plásticas, obtidos após consentimento dos pacientes e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. E não há falta desse tipo de material, pois o Brasil é o segundo colocado no ranking mundial de cirurgia plástica, segundo dados divulgados pela _International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) _em junho de 2017.

Embora nenhum teste de laboratório possa substituir por completo o que ocorre em uma situação real, o fragmento recém-obtido da cirurgia plástica é o modelo mais próximo. "Depois de removida, a pele apresenta viabilidade tecidual de 7 a 10 dias em cultura. As principais alterações relacionadas ao envelhecimento, pigmentação e resposta inflamatória, dentre outras, podem ser mensuradas nesse sistema", explicou a a farmacologista Samara Eberlin, responsável pela pesquisa.

Eberlin e os biólogos Michelle Sabrina da Silva e Gustavo Facchini já conseguiram obter resultados que demonstram os efeitos nocivos que a radiação IV-A pode causar ao tecido cutâneo, como aceleração dos processos de envelhecimento, morte celular e enfraquecimento de mecanismos fisiológicos envolvidos no reparo tecidual.

Do VivaBem, em São Paulo*