Notícia

O Diário (Mogi das Cruzes)

Pesquisa tenta salvar o cacau

Publicado em 14 novembro 2003

A produção de cacau no Brasil está ameaçada. De maior produtor na década de 80, o País vem caindo em competitividade internacional. Motivo: o ataque do fungo Crinipellis perniciosa, causador de uma doença conhecida como Vassoura de Bruxa. Em algumas regiões, a praga pode afetar até 90% de uma lavoura. A última esperança dos agricultores reside nos resultados de uma pesquisa que vem sendo desenvolvida no laboratório do Núcleo Integrado de Biotecnologia (NIB) da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Há dois anos, o pesquisador João Lúcio de Azevedo trabalha para descobrir um microorganismo natural capaz de controlar o ataque do Crinipellis e salvar a produção nacional de cacau. Uma descoberta recente tem deixado o professor cheio de esperança. O fungo Trichoderma, isolado por uma equipe da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostrou ser eficaz na inibição da praga. "Este microorganismo é promissor, pois impede a entrada do causador da vassoura de bruxa, bloqueando o aparecimento da doença". Os testes com os dois fungos estão sendo realizados na UMC e coordenados por Azevedo. Numa Placa de Petri coberta por um meio de cultura, esporos de Crinipellis e Trichoderma são semeados a uma distância de cinco centímetros entre um e outro. Observado o desenvolvimento dos dois microorganismos, o pesquisador pôde constatar que o espaço do agente patológico estava sendo tomado pelo Trichoderma num processo conhecido como parasitismo. "Ou seja, ele estava fazendo o controle natural do agente causador da Vassoura de Bruxa". A grande vantagem da aplicação do Trichoderma no controle da praga é que o fungo não causa mal algum ao pé do cacaueiro, já que se alimenta da celulose encontrada nas partes secas da planta, como folhas em decomposição. Apesar do avanço nas pesquisas. Azevedo é cauteloso. "Como já disse, o estudo é promissor, mas não é uma solução ainda. Muitas vezes, quando o agente inibidor é colocado na árvore, ela já está ocupada pelo Crinipellis, o que torna sua ação ineficaz". É por isso que o trabalho de isolamento de novos microorganismos que tenham função controladora sobre o causador da Vassoura de Bruxa deve continuar. O financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que atinge R$ 500 mil, está garantido por, pelo menos, mais um ano. Além da UMC e da Embrapa, a Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq), braço da Universidade de São Paulo (USP) instalado em Piracicaba, também está envolvida no projeto. Os fungos e bactérias que podem vir a ser os inimigos do Crinipellis, como é o caso do Trichoderma, vivem dentro dos cacaueiros. Para isolá-los, os cientistas visitam as plantações infectadas e identificam as unidades produtoras que, embora vivendo junto com as demais, não manifestam a Vassoura de Bruxa. "Quando descobrimos uma planta sã em meio a outras doentes, recolhemos o maior número de amostras dos seus microorganismos. O fato de ela não ser atacada, ao contrário das vizinhas, é um indício de que possui um mecanismo de proteção. Nossa tarefa é descobrir quem é o responsável por esta defesa natural e estudar as suas características na busca por um controlador da praga".