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Canal da Cana

Pesquisa tem como foco áreas agrícolas e florestais plantadas do Cerrado do MS

Publicado em 28 junho 2017

As concentrações atmosféricas de gases do efeito estufa (GEE) tem aumentado a níveis preocupantes. De acordo com dados mais recentes publicados pela Organização Meteorológica Mundial, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) atingiram novas máximas no ano de 2015, chegando às concentrações de 400 ppm para o CO2, 1845 ppb para o CH4 e 328 ppb para o N2O. Valores que representam, respectivamente, um aumento de 144%, 256% e 121%, quando comparados aos níveis desses gases no período pré-industrial.

A agricultura contribuiu diretamente com 14% das emissões antrópicas de GEE, e é responsável por uma emissão adicional de 17% quando são contabilizadas as mudanças do uso da terra para a produção agrícola. Isso ocorre pois, a conversão de áreas de florestas, cerrados e campos de vegetação natural para áreas agrícolas ou pastagem diminui o teor de matéria orgânica nos solos, ou seja, ocorre um processo de perda de carbono (C) do solo para a atmosfera. Tal fenômeno é denominado emissão de CO2 do solo.

Nesse contexto, busca-se a implementação de novas práticas agrícolas, consideradas complexas, que gerem menores emissões de CO2 para a atmosfera, ao mesmo tempo que propiciem maiores acúmulos de C no solo. O cultivo de florestas e reflorestamento, com espécies como o Eucalipto e o Pinus, e a utilização de sistema de integração de lavoura pecuária e floresta, são consideradas meios eficientes no sequestro de C, em razão do acúmulo deste elemento na madeira e aumento dos estoques de carbono no solo.

O projeto de auxílio a pesquisa intitulado “Emissão de CO2 e estoque de carbono do solo em áreas agrícolas e florestas plantadas na região do cerrado do Mato Grosso do Sul” (Processo: 2016/03861-5), financiado Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, vem sendo desenvolvido na Fazenda de Ensino, Pesquisa e Extensão, da Faculdade de Engenharia Campus de Ilha Solteira (UNESP), localizada no município de Selvíria-MS em áreas de florestas plantadas de Eucalipto, Pinus e Mata ciliar com espécies florestais nativas, todas com mais de 30 anos de formação.

O projeto é coordenado pelo Prof. Dr. Alan Rodrigo Panosso do departamento de Matemática da UNESP de Ilha Solteira e conta com a participação dos pesquisadores associados: Prof. Dr. Fábio Roberto Chavarette, Prof. Dr. Rafael Montanari, Prof. Dr. Mario Luiz Teixeira de Moraes, Prof. Dr. Newton La Scala Júnior, (todos da UNESP) e a Dra. Débora M. B. Pereira Milori (Embrapa Instrumentação Agropecuária) além de vários alunos de iniciação científica e pós-graduação da UNESP.

A hipótese de estudo é que dependendo das práticas agrícolas empregadas, os solos podem se comportar como fontes ou drenos de C da atmosfera, uma vez que diferentes usos e manejos nas atividades agrícolas causam alterações nas relações existentes entre seus atributos (físico, químicos e biológicos), refletindo assim na dinâmica do carbono e, consequentemente, na quantidade e na qualidade do carbono do solo. O projeto, então, tem como objetivos caracterizar os padrões espaço-temporais da emissão de CO2 do e estoque de carbono do solo em áreas de floresta planta de diferentes usos agrícolas, bem como estudar as relações desses padrões com os demais atributos do solo, como a temperatura, a umidade e as taxas de absorção de oxigênio (O2) pelo solo, estabelecendo-se assim relações de causa/efeito da emissão com atributos diversos

Para estudar essa hipótese, foram conduzidas avaliação da emissão de CO2, temperatura, umidade e absorção de O2 pelo solo durante 6 meses no período de novembro de 2015 a maio de 2016. Como fruto desse trabalho, temos atualmente duas dissertações de mestrado defendidas, e duas iniciações científicas, e outras duas dissertações e uma tese de doutoramento em andamento.

Os resultados podem subsidiar a tomada de decisões em relação a quais espécies florestais e tipos de manejo são adequadas em procedimentos de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas que objetivam a mitigação da emissão de GEE. A área de Pinus apresentou os menores valores de emissão total de C, igual a 7,9 Mg ha-1 (Mg, isto é, toneladas) ao longo período de estudo. A área de Eucalipto emitiu 11,3Mgde C ha-1 e a Mata ciliar reflorestada emitiu 11,0 Mg de C ha-1. Portanto, a área de Pinus apresentou menores emissões de carbono aproximadamente a 11,6 toneladas de CO2 ha-1 a menos emitidos para a atmosfera, quando comparado ao Eucalipto e a Mata ciliar. Os resultados podem estar relacionados à relação de carbono e nitrogênio (C:N) do material depositados nas áreas, a menor emissão de CO2 do solo na área de pinus ocorreu devido à constituição da serapilheira, formada por cadeias de ligninas de difícil degradação para os microrganismos do solo. Assim os efeitos do reflorestamento podem ser otimizados com a utilização de espécies vegetais adequadas.

Tais resultados foram apresentados recentemente na Reunião Anual de projetos do Programa FAPESP de Mudanças Climáticas , que ocorreu nos dias 19 e 20 de junho, e são apenas resultados preliminares, pois novas análises estão sendo realizadas com o objetivo de determinar os atributos físicos e químicos do solo, bem como calcular os estoques de carbono em 4 profundidades (0-10, 10-20, 20-30 e 30-40 cm).

Além disso, foram incorporadas ao estudo novas áreas onde será estudada a dinâmica do carbono no sistema silvipastori (aroeira em consórcio com capim braquiária e pastejo bovino), cerrado nativo e área de plantio direto. Esperamos chegar um sistema de manejo complexo recomendado para a região de Cerrado que proporcione o maior acúmulo de carbono no solo e as menores emissões.

Fonte:Unesp