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Pesquisa sugere que poluição do ar prejudica recuperação de lesões pulmonares

Publicado em 26 maio 2021

Dados de um estudo conduzido no Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) sugerem que a poluição do ar compromete a resposta das células de defesa do organismo, causando um atraso na resolução da inflamação e prejuízo da recuperação e cicatrização da lesão pulmonar aguda

O estudo foi realizado durante o mestrado da bióloga Natália de Souza Xavier Costa, sob orientação do professor Luiz Fernando Ferraz da Silva, da FMUSP, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O artigo foi publicado na revista científica Scientific Reports .

As análises da bióloga foram realizadas em camundongos, com o objetivo de verificar os efeitos do material particulado fino na síndrome da angústia respiratória aguda (SARA) nas fases mais tardias da inflamação, quando o tecido pulmonar está se recuperando.

Costa disse ao Jornal da USP que a SARA é caracterizada por um quadro de insuficiência respiratória aguda, ocasionada por dano difuso nos alvéolos (células dos pulmões onde ocorrem as trocas gasosas) e edema pulmonar com alto teor de proteínas. Ela pode ser desencadeada por diversos motivos, como pneumonia, aspiração de conteúdo gástrico, pancreatite e até infecções bacterianas e virais, como a Covid-19.

O orientador da pesquisa indica que já se sabe os efeitos da poluição atmosférica nas doenças respiratórias. No entanto, ele conta que o trabalho mostra que essa exposição pode não apenas estar associada ao desenvolvimento e agravamento dos quadros, mas também interferir na melhora dos pacientes. “O efeito da poluição, modulando as respostas de cicatrização e imunológica, pode interferir no processo de recuperação dos pacientes”, destaca.

A pesquisadora diz que a recuperação da lesão pulmonar aguda envolve fases de resolução da inflamação e reparo, que podem levar até duas semanas. Entretanto, ela aponta que grande parte dos estudos são focados em curtos períodos após a lesão, de 24 a 48 horas. “O modelo utilizado no nosso estudo permite avaliar as etapas posteriores e pode ajudar a compreender como os fatores ambientais interagem com o momento tardio da doença”.

Um grupo de 16 camundongos foi exposto, durante cinco semanas, a um material particulado fino, que tem diâmetro aerodinâmico menor ou igual a 2,5 micrômetros, com o auxílio do concentrador de partículas ambientais localizado na FMUSP. Esse grupo de camundongos e outros 16 animais, 24 horas antes da exposição, foram submetidos à lesão pulmonar por meio da nebulização de lipopolissacarídeos (LPS). Também foram avaliados outros dois grupos: o de animais saudáveis (controle) e os expostos apenas ao material particulado fino, mas sem lesão

Os lipopolissacarídeos são proteínas presentes na membrana da maioria das bactérias gram-negativas. Essas proteínas estimulam o sistema imunológico, levando à produção de mediadores inflamatórios e recrutamento de células inflamatórias, o que simula a resposta imune à infecção bacteriana.

Os resultados da pesquisa revelam que os animais com SARA expostos ao material particulado fino tinham inflamação persistente caracterizada por níveis elevados de mediadores inflamatórios e contagem de macrófagos nos pulmões. Esses animais também apresentavam contagem de linfócitos no sangue, nos pulmões e no baço em níveis mais baixos em comparação aos que não tiveram contato com a poluição.

Foto: Freepik.com