Notícia

A Crítica (AM)

Pesquisa sobre floresta ganha prêmio

Publicado em 29 maio 2004

Os estudos sobre a relação entre o desenvolvimento sustentável e o impacto ambiental que a Amazônia e o mundo sofrem com o desmatamento, além de alerta, serviram para premiar o trabalho do pesquisador Philip Martin Fearnside, da Coordenação de Pesquisas em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (lnpa). A Fundação Conrado Wessel anunciou na semana passada, em São Paulo, os vencedores do Prêmio de Artes e Ciências, conhecido como o Nobel brasileiro, que contempla os vencedores com R$ 100 mil (líquido), cada. A premiação acontece na capital paulista, no próximo dia 7 de junho. Philip é natural dos Estados Unidos, doutor em Ciências Biológicas e mestre em Zoologia, e trabalha, no Inpa faz 26 anos. Ele veio à Amazônia pela primeira vez coletar dados para sua tese de doutorado sobre a Transamazônica. Hoje, desenvolve um estudo sobre sustentabilidade, impacto ambiental e desmatamento. "O efeito estufa traz as mais diversas conseqüências para a humanidade e tudo isso é causado, em parte, pelo desmatamento desordenado e criminoso da Amazônia", afirma o doutor. Segundo o pesquisador, um dos maiores problemas da Amazônia quanto à questão se concentra na falta de políticas públicas de preservação e de controle de impactos no meio ambiente. "Quando a iniciativa .privada e a pública realizam obras, como hidrelétricas e estradas, não avaliam os efeitos que podem provocar na natureza. Não é uma coisa que vem com a decisão de realizar a obra ou não; as decisões são tomadas antes de se saber quais seriam as alterações e conseqüências reais. Na verdade, isso deveria fazer parte do estudo de implantação do projeto, anterior à sua realização", acredita Fearnside. Nos últimos 2ó anos, entretanto, o pesquisador observa grandes avanços e melhoras neste aspecto na região, mas ainda não é o bastante. "O desmatamento esta ganhando." O norte-americano faz estas e outras observações em seu livro "A Floresta Amazônica nas Mudanças Globais". Na obra, ele mostra as conseqüências do desmatamento, do efeito estufa e, conseqüentemente, da falta de chuva. "Além do estudo de campo, o livro também aborda a parte social, ou seja, as mudanças que ocorreriam se fossem modificadas as políticas públicas de preservação do meio ambiente." Apesar de ter ocorrido progresso na conscientização ambiental, o desmatamento continua crescendo numa velocidade preocupante. 'Hoje, a depredação se encontra em áreas dispersas, não somente no Arco de Desmatamento" (uma extensa faixa de vai de Rondônia ao Maranhão), está entrando mais fundo na floresta e se espalhando pela Amazônia. Um exemplo disso é a rodovia 163, que está abrindo uma rota de desflorestamento", avisa o pesquisador. Isso é conseqüência do progresso e de abusos freqüentes do homem. "Atividades ilegais e legalizadas estão promovendo a destruição das florestas e os municípios do Amazonas são os campeões de desmatamento no País. Além da depredação à natureza, o que é ilegal, ainda transformam grandes áreas em pastos para a criação de gado bovino ou cultivo de soja, e nem sempre são atividades legalizadas, já que muitas áreas são usadas para lavagem de dinheiro", denuncia. "A abertura de rodovias como a 319, para Porto Velho, pode trazer mais problemas que ainda não são graves aqui, como invasões de sem-terra, garimpos e massacres conseqüentes destes conflitos." CONSCIENTIZAÇÃO Fearnside acredita que os habitantes de Manaus não sentem tanto o impacto do desmatamento, o que dificulta o entendimento quanto ao problema. "Existe desflorestamento perto da cidade, porém ele é mínimo se comparado ao que acontece no Sul do Pará", explica. A situação se agrava com a falta massificada.de conscientização ambiental no Brasil. "As conseqüências do efeito estufa só são consideradas na Europa e EUA, mas a agricultura brasileira será uma das mais prejudicadas com o aumento da temperatura." EFEITOS Os efeitos já podem ser sentidos no País. É o caso da redução da capacidade do rio São Francisco, responsável por boa parte da irrigação nacional, que está com sua vazão prejudicada e chegou a operar com apenas 5%. Sem o rio, as conseqüências diretas são racionamento de água e energia em boa parte dos centros urbanos. O pesquisador explica também que além da falta de água, o aumento da temperatura pode levar à destruição da floresta amazônica. Um estudo realizado pelo Instituto de Meteorologia do Reino Unido afirma que se não mudar nada, a maior floresta do mundo pode ser destruída até 2080, sem considerar aspectos como o plantio de soja e pecuária. "O desmatamento libera muito gás carbônico na atmosfera, o que contribui para o aquecimento global. Ainda está em tempo de se mudar o quadro, com vantagem." Fearnside destaca a importância de se realizar serviços de proteção ambiental da Amazônia, urgentes e constantes. "Isso deve ser tratado como estratégia de desenvolvimento e a saída é a sustentabilidade." Escolha entre 118 indicados no País O prêmio Conrado Wessel de Artes e Ciências teve sua primeira edição em 2003. Ao todo, serão distribuídos R$ 600 mil para os vencedores, já com impostos deduzidos. São seis categorias divididas nas áreas de Ciência Aplicada ao Mar, Ciência Aplicada ao Campo, Ciência Aplicada ao Meio Ambiente, Ciência Geral, Medicina e Literatura. A entrega do prêmio será dia 7 de junho, em São Paulo. Os nomes foram escolhidos de 118 indicações feitas por cinco ministérios, três universidades estaduais paulistas, 24 universidades federais, além do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e o Hospital do Câncer. A comissão julgadora foi composta por membros da Academia Brasileira de Letras (ABL), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), além de representantes dos Ministérios da Cultura, Saúde, Agricultura, Meio Ambiente, Marinha e da Secretaria de Aqüicultura e Pesca. Além do Prêmio de Artes e Ciências, a fundação também ajuda o Corpo de Bombeiros de São Paulo, Exército da Salvação, Aldeias Infantis SOS Brasil, Hospital do Câncer e a Associação Escolar Benjamim Constant. Perfil CONRADO WESSEL, ARGENTINO, EMPRESÁRIO, MORREU AOS 102 ANOS EM 1993. Filho de alemães, Conrado Wessel nasceu na Argentino em 1891 e se mudou para o Brasil com 1 ano de idade. A paixão pela fotografia veio de berço. O jovem foi mandado pelo pai, em 1911, para estudar na renomada K.K. Lehr Und Versuchs Antstalt, em Viena, Áustria, onde iniciou seus estudos para a criação de um novo tipo de papel fotográfico. Em 1921, abriu a sua Fábrica Privilegiada de Papéis Photograficos Wessel. Com a Revolução Tenentista, em 1924, a indústria de Wessel passou a ter uma amplitude maior por causa do isolamento da capital paulista. Os fornecedores não conseguiam enviar o papel importado para São Paulo, popularizando assim a fábrica da família entre os fotógrafos da cidade. O patrimônio adquirido por Wessel deu origem à fundação, que estava determinada por ele em seu testamento, assim como a relação de entidades assistidas por ela. Ele morreu com 102 anos, em 1993.