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Pesquisa revisita narrativas transnacionais do século 19

Publicado em 27 abril 2014

Por Carmo Gallo Netto

A vinda da corte portuguesa transformou a cidade do Rio de Janeiro, onde permaneceu de 1808 a 1821, em centro de referência político e cultural do Brasil. A partir daí intensificou-se a adoção no país de padrões culturais europeus, particularmente os franceses. No século 19, o Brasil mantinha profundas conexões com o que acontecia na Europa. Revistas como o Correio das Modas (1839-1840) e o Novo Correio de Modas (1852-1854) publicavam figurinos importados da França para que suas leitoras se mantivessem informadas sobre as últimas novidades do mundo da moda e pudessem se vestir como as francesas.

Mas a sintonia com a Europa não se restringia à indumentária e abrangia também o mercado editorial. Com efeito, os dois periódicos publicavam narrativas ficcionais de propósitos moralizadores, em geral de origem francesa.

Dissertação desenvolvida por Ana Laura Donegá e orientada pela professora Márcia Azevedo de Abreu, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, mostra que, em meados do século 19, a literatura estrangeira chagava ao Brasil muito mais rapidamente do que se costuma imaginar. Alguns meses já eram suficientes para que os leitores do Rio de Janeiro tivessem em mãos textos recém-publicados na Europa. Para a autora, estas constatações relativizam a ideia disseminada de que a literatura produzida pelos europeus chegava ao Brasil com muito atraso A pesquisadora discorda: “Não é bem assim. Muitas vezes os leitores brasileiros tinham acesso ao que estava sendo lido na Europa no mesmo período”.

Ela entende ainda que a pesquisa também ajude a repensar a ideia de globalização, pois os jornais e a revistas da época cumpriam o papel desempenhado hoje em grande parte pela internet e contribuíam para que pessoas de diferentes partes do mundo se mantivessem conectadas, ressalvadas, naturalmente, as diferenças na rapidez e na quantidade de informações decorrentes das condições e tecnologias modernas.

A pesquisa se insere no projeto “A circulação transatlântica dos impressos – a globalização da cultura no século XIX”, coordenado pelos professores Márcia Azevedo de Abreu e Jean-Yves Mollier, que conta com pesquisadores do Brasil, Portugal, Inglaterra e França. O projeto visa a possibilitar o melhor conhecimento dos impressos e das ideias em circulação entres esses quatro países no “longo século 19” (1789-1914). Seus principais objetivos são identificar e analisar as práticas culturais inerentes aos processos de circulação dos impressos e ideias em escala transnacional, caracterizando as apropriações dessas ideias nesses países por meio da observação dos escritos e das ações dos letrados, bem como das atividades de censores, editores, impressores e livreiros.

A pesquisadora recebeu da Fapesp bolsa de mestrado e bolsa Bepe – Bolsa de Estágio à Pesquisa no Exterior, que lhe permitiu estudar em Versalhes, na França, com o professor Jean-Yves Mollier, do Institut d’estudes culturelles et internationales, na Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines. Aluna de doutorado na Unicamp, sob orientação da professora Márcia Abreu, atualmente ela trabalha com a professora Cláudia Poncioni, do Département Études Ibériques et Latino-Américaines, da Sorbonne Nouvelle (Paris 3), sobre tema também relacionado à globalização da cultura.

Sobre as duas revistas escolhidas para estudo, Ana Laura explica que o Correio das Modas: jornal crítico, literário, das modas, bailes, teatros etc, como o próprio subtítulo indica, apresentava narrativas ficcionais, comentários sobre peças de teatros, concertos e bailes, bem como charadas, poesias, máximas moralizantes e pequenas anedotas. Já o Novo Correio de Modas: novelas, poesias, viagens, recordações históricas, anedotas e charadas trazia também matérias sobre economia doméstica e beleza, artigos sobre viagens e recordações históricas, além de uma seção quinzenal de crônicas. As publicações destinavam-se ao público feminino, provavelmente de famílias ricas, pois suas assinaturas semestrais tinham preços elevados (7$000-7$500) em relação a outras publicações congêneres (3$000-4$000 ou ainda mais baratas), possivelmente consumidas por leitoras de menor poder aquisitivo.

As duas revistas eram publicadas pela Casa dos Editores Eduardo & Henrique Laemmert. Para delinear um panorama cultural dessa época é importante lembrar que os irmãos Laemmert abriram no Rio de Janeiro inicialmente a Tipografia Universal, que se tornou especialmente famosa pela publicação de almanaques e guias com informações úteis para o cotidiano dos moradores da corte e de outras províncias.

Mas o projeto dos irmãos, além de ambicioso, mostrou-se bastante diversificado. Eles investiram em livros didáticos, científicos e históricos, em dicionários e enciclopédias, em traduções de clássicos infantis e em manuais técnicos autoinstrutivos sobre temas variados, como agricultura, culinária, etiqueta e medicina. Participaram do mercado de belas letras ajudando a resguardar árcades como Tomás Antonio Gonzaga e José Bonifácio, a impulsionar a carreira de escritores iniciantes como Gonçalves Dias e Sousândrade e também investiram em revistas literárias, caso dos dois periódicos estudados pela autora.

A pesquisa

Ao estudar os tipos e as proveniências das narrativas publicadas pelas revistas, Ana Laura realizou investigações, na França, sob orientação do professor Jean-Yves Mollier. Ela buscou reconstituir a origem das 278 narrativas que foram publicadas pelos dois periódicos. Para tanto, realizou consultas em acervos online e também em bibliotecas públicas, como a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o Real Gabinete Português de Leitura, a Biblioteca Nacional Francesa e a Bibliothèque de Saint-Geneviève. Ao final, ela conseguiu localizar e determinar a origem de mais de 75% das 278 narrativas.

Em linhas gerais, diz ela: “Pude perceber que a maioria das narrativas era originária de publicações estrangeiras, principalmente da França, fonte de pelo menos um terço dos textos veiculados pelas duas revistas. Mas isso não constitui nenhuma surpresa face ao prestigio deste país no mercado de livros no período. Na sequência situavam-se as narrativas escritas por ingleses (12%) e brasileiros (12%). Depois vieram as de origem portuguesa e alemã (5% cada). Embora em menor número, também foram encontrados textos originalmente escritos em espanhol, italiano, polonês, russo e árabe”.

A linha editorial conservadora, constata a pesquisadora, se manifestou em todas as seções dessas duas publicações, embora de maneira mais clara nos espaços dedicados à ficção em prosa. Isso explica o empenho dos tradutores em selecionar narrativas estrangeiras com normas de comportamento voltadas ao sexo feminino. Da mesma forma, os autores nacionais que colaboravam com essas publicações escreviam textos com diretriz moralizadora. Essa característica orientava a literatura de época e os escritores desse período procuravam instruir e educar moralmente os leitores enquanto os divertiam.

Grosso modo, esclarece a autora, “tanto as narrativas estrangeiras quanto as brasileiras publicadas nas duas revistas procuravam instruir as leitoras solteiras a obedecerem aos pais e a não se entregarem a aventuras amorosas antes do casamento. As casadas, por sua vez, deveriam permanecer sempre fieis aos cônjuges, abdicar da felicidade pessoal em prol dos filhos, manter-se reservadas diante de estranhos e abandonar hábitos considerados pouco virtuosos, como vaidade excessiva”.

Referências

A pesquisa mostrou que a ficção nacional manteve diálogo com as referências estrangeiras, pois a ideia de que a moralização era um dos papeis centrais da literatura se revelou um elemento comum nas produções dos dois lados do oceano. Diante desse elemento transnacional, a procedência das narrativas perde sua importância, já que tanto europeus quanto brasileiros se preocupavam em criar enredos que mostrassem o vício punido e a virtude premiada, esperando, com isso, interferir no comportamento dos leitores.

Entretanto, a pesquisadora detecta a presença de alguns elementos tipicamente nacionais na produção de autores brasileiros, que colaboravam com essas revistas, ao manifestarem o desejo de abordarem coisas do Brasil. Isso se revela, segundo ela, na presença de descrições de paisagens nacionais, de diferentes festividades religiosas ou de eventos ocorridos na história brasileira. Mas ressalva: “O molde escolhido por eles nessa tarefa, porém, é estrangeiro, daí a utilização de cenas fortes, diálogos inflamados, sofrimentos amorosos, conflitos familiares e outras cenas violentas de impacto emotivo nas leitoras, a exemplo do que ocorria nos folhetins vindos da França”.

Sobre o alcance do trabalho Ana Laura afirma: “A minha pesquisa mostra que já nesse período as pessoas se emocionavam, se divertiam e aprendiam com as mesmas intrigas, em diferentes partes do mundo”. Como exemplo, ela cita a narrativa “Tribunaus criminels de Bosnie” publicada pela primeira vez, em dezembro de 1838, no jornal Affiches, annonces judiciaires, avis divers du mans et du département de la Sarthe, que era impresso na cidade de Le Mans, na França. No começo do ano seguinte, em janeiro de 1839, ela aparecia em português nas páginas do periódico lisbonense “Arquivo Popular: leituras de instrução e de recreio”, e três dias mais tarde, em alemão, no “Museu für Kunst, Literatur, Musik, Theater und Mode”, de Munique. Em agosto de 1840, chegou à América do Sul nas páginas do Correio de Modas com o título “Costumes e usos judicias em Bósnia”. Mas a trajetória da narrativa não parou por aí. Alguns anos mais tarde, em 1851, traduzida para o espanhol, foi lançada em Madrid, pelo “La ilustración, periódico universal”, e no mesmo ano, no México em edição do “Illustración Mexicana”. Ou seja, em treze anos, a narrativa foi traduzida para três línguas e se disseminou por territórios geograficamente distantes.

Publicação

Dissertação: “Publicar ficção em meados do século XIX: um estudo das revistas femininas editadas pelos irmãos Lemmert”

Autora: Ana Laura Donegá

Orientadora: Márcia Azevedo de Abreu

Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Financiamento: Fapesp

Jornal da Unicamp