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Pesquisa revela que novo Código Florestal prejudicará população de anfíbios da região

Publicado em 03 junho 2011

Está em votação no Senado o novo Código Florestal Brasileiro, que apresenta como pontos mais polêmicos a redução das áreas de reserva legal no Cerrado de 50% para 20% e de áreas de reserva legal da Amazônia de 80% para 50%; a permissão ao reflorestamento da reserva legal com espécies exóticas e à soma de áreas de preservação permanente (APP) no cálculo da porcentagem da reserva legal; e a redução de 30 para 15 metros das APPs em bordas de riachos com até 5 metros de largura.

Esse último tópico é a situação em que se encaixa a maioria dos riachos do País e da região do interior de São Paulo. Se aprovado, o Código pode prejudicar a diversidade de anuros da região, como mostra pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal pelo biólogo Fernando Rodrigues da Silva, vinculada a um grande projeto regional financiado pela Biota-Fapesp, sob orientação da docente Denise Cerqueira Rossa-Feres.

Foi para abordar essa importante questão ambiental e compreender a influência dos fragmentos florestais no padrão de distribuição dos anfíbios na região que Silva desenvolveu sua tese de doutorado. Segundo ele, as espécies de anfíbios dessa região reproduzem-se em poças em áreas de pastagem, mas precisam dos fragmentos florestais como áreas de alimentação, áreas de deslocamento e de refúgio durante a forte estação seca. Os resultados mostraram que fragmentos florestais maiores que 70 hectares abrigam maior riqueza e abundância de espécies de anfíbios do que fragmentos menores, aumentando, consequentemente, o tamanho das populações locais e a viabilidade das populações em geral. "Caso ocorra a diminuição da área de cobertura vegetal nativa, haverá diminuição na riqueza de espécies desses animais", diz o pesquisador.

Com a diminuição das áreas florestais, muitos dos processos ecossistêmicos - regulação do clima e da qualidade e do volume das águas em riachos, polinização de plantas cultivadas e controle de pragas -, que são serviços fornecidos pela vegetação natural, serão perdidos, com grande prejuízo para as áreas cultivadas e irrigadas que dependem desses processos para manter sua produtividade, destaca Silva: "Nesse sentido, o conflito entre produtores rurais e ambientalistas é falso, não existe. Os resultados comprovam que mesmo pequenos fragmentos florestais são importantes para manter uma alta diversidade de anfíbios e, surpreendentemente, de anfíbios de áreas abertas".

O pesquisador alerta que, contudo, não são só essas espécies que estão ameaçadas. "O novo código permitirá que ocorram desmatamentos em áreas de morros e encostas que abrigam espécies endêmicas de anuros em regiões da Floresta Atlântica e em áreas de proteção permanente. Caso isso ocorra teremos uma perda inestimável de diversidade de espécies não só de anfíbios, mas de outros grupos animais e vegetais", afirma.

Para a pesquisa do seu pós-doutorado, o estudante pretende continuar seus trabalhos investigando os efeitos da fragmentação florestal por meio da análise do padrão de distribuição espacial de 12 grupos biológicos (anfíbios, répteis, aves, fanerógamas, ácaros, fungos, algas, insetos, pteridófitas, briófitas, peixes, zooplancton) em 18 fragmentos de floresta Atlântica Semidecidual.

Destaque - Em consequência da grande relevância do tema e da qualidade do estudo, os pesquisadores Fernando Rodrigues da Silva, Vitor Hugo Mendonça do Prado e Denise Cerqueira Rossa-Feres, todos do Ibilce, publicaram na revista especializada Science uma carta sobre os impactos do novo Código Florestal para a preservação das comunidades de anfíbios. O fato repercutiu em reportagem da edição de 31 de maio do jornal Folha de S. Paulo, intitulada "Brasileiros criticam Código Florestal em carta na Science".

(Ascom Unesp)